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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Poema nº 180 - O Visionário de Lagos


O Visionário de Lagos (ou "O Visionário da Praia de Lagos")
(Poema de 4 estrofes da autoria de Laurentino Piçarra)

Como correm suaves as ondas em Lagos
Aos olhos daquele menino
Que almeja no mar o horizonte
Quiçá inalcançável para as mentes humanas.
O seu nome é Gil,
Tem ainda dez anos, 
E já brinca à apanha de búzios,
Esmerando-se em ouvir os seus prodígios!
A criança sonha em alcançar proezas,
Quer ser príncipe dos oceanos,
Quer decifrar todos os seus segredos!

Como correm cambaleantes as ondas em Lagos,
Aos olhos daquele jovem adulto,
Que almeja no mar o horizonte
Quiçá insuperável para as mentes humanas.
O seu nome é Gil,
Tem agora vinte anos,
É escudeiro do Sábio da Arte Náutica,
É servidor do Infante-Mar,
Escuta os prudentes conselhos de D. Henrique,
Antes de interpretar o rol de mapas
E demais instrumentos orientadores!

Como correm encrespadas as ondas em Lagos,
Aos olhos daquele adulto amadurecido,
Que almeja no mar o horizonte
Apenas atingível para as mais inspiradas mentes humanas!
O seu nome é Gil,
Tem já trinta anos, 
É navegador em pleno Oceano Atlântico,
É marinheiro que engole água salgada
Quando as ondas gigantes assediam a sua barca,
É visionário que se impõe entre as brumas
E que doma as míticas tempestades!

Como correm endiabradas as ondas em Lagos,
Aos olhos daquele veterano,
Que almeja no mar o horizonte
Apenas expectável para as mais geniais mentes humanas!
O seu nome é Gil, Gil Eanes,
Tem já os seus quarenta anos,
Conserva intacta a sua fantasia de criança,
E aventura-se agora na tenebrosa costa africana,
Orando ao céu, e lendo as estrelas do Firmamento,
Para assim dobrar o Cabo do Medo,
E lavrar em letras de ouro o seu épico momento!





Imagem de uma moeda cunhada com a imagem do navegador.



Nota-Extra: No ano de 1434, Gil Eanes (homem de confiança do Infante D. Henrique - é a esse "D. Henrique" que o poema faz alusão) dobra o Cabo Bojador com recurso a uma barca, após várias expedições fracassadas. Chamamos à atenção para as tipologias das embarcações. Ao contrário de Bartolomeu Dias (que recorreria a duas caravelas para dobrar o Cabo da Boa Esperança em 1488 - ver poema e respectiva nota de rodapé da publicação anterior), Gil Eanes teria utilizado uma embarcação diferente ("uma barca", como já o dissemos) para contornar o Cabo Bojador.
Gil Eanes seria natural de Lagos (Algarve), o que fez com que nós propuséssemos dois potenciais títulos para este poema ("O visionário de Lagos" ou "O visionário da Praia de Lagos"). Este poema tenta ilustrar um pouco da biografia do navegador, embora não seja fácil uma reconstituição precisa. O poema segue ainda uma lógica - à medida que a vida do navegador avança, o mar assume fases mais atribuladas porque as adversidades vão aumentando, mas a vitória final de Gil Eanes tornará o objectivo, antes inatingível para a Humanidade, perfeitamente concretizável a partir daquele ano de 1434. 

Poema nº 179 - Navegador Valente


Navegador Valente 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Quem é aquele marinheiro
Que ousa contornar o cabo da Morte,
Desafiando a vontade dos deuses do mar?
Não conhecerá ele a fúria do Adamastor
E de outros monstros marinhos
Que devoram todas as embarcações
Que por ali passam?
Desejará ele conhecer os mausoléus náuticos
Que se ocultam nas profundezas marítimas?
Ou quererá antes embater nos fatais rochedos,
Com o seu corpo a desembocar numa praia deserta
Partilhando do destino de muitos náufragos
Abandonados pelas ninfas da glória?!
Bartolomeu, porque procuras então o suicídio?
Não terás familiares e amigos?

Mas o pessimismo é algo que não te demove:
Não, tu não és um aventureiro qualquer,
As tuas origens não te desmentem,
Tens os genes desse destemido povo
Que de pequeno se fez colosso,
Destruindo mitos e abrindo novos horizontes!
Às tormentas, Bartolomeu impôs a boa esperança,
Às incertezas, Bartolomeu contrapôs com a fidúcia,
À escuridão, Bartolomeu avocou a luz.
E naquele dia vitorioso,
Em que o cabo foi dobrado
O então almirante da caravela “São Cristóvão“
Subiu eufórico ao mastro
E clamou por fim:
“Não há gigante algum que derrube a alma lusitana”!




Retrato retirado de: http://www.marinha.pt/



Nota-Extra: As caravelas São Cristóvão e São Pantaleão dobraram o Cabo da Boa Esperança em 1488. A façanha de Bartolomeu Dias permitiu descobrir novas terras e mares, acabando igualmente por garantir acesso ao Oceano Índico (embora este ainda situado um pouco mais a leste). Todavia, ironicamente Bartolomeu Dias, após alcançar tal tremendo êxito, teria acabado por sucumbir nas proximidades do cabo numa expedição posterior ocorrida em 1500, quando os portugueses tentavam dirigir-se à Índia. Não obstante, isso não lhe retira o mérito do feito então alcançado em 1488 e que merece o nosso reconhecimento.

Poema nº 178 - Falta-nos ser como as crianças


Falta-nos ser como as crianças
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

As crianças são prodígios da Natureza,
Que mesclam a inocência do seu pensamento
Com a fantasia dos seus sonhos.
Elas são cascatas de água cristalina
Que purificam os rios maduros já poluídos
Pelas arremetidas da mentira humana!
Sim, todos nós deveríamos ser como as crianças,
Comungar da sua candidez
Para quebrantar o rancor e o ódio
Que apenas germinam conflitos fúteis!
Na verdade, “nós” adultos não sabemos velar por elas,
Não logramos preservar o seu tesouro encantador,
E, através da nossa medíocre negligência,
Arrastamo-las para as ruas da mortandade,
Seja na Síria, em África ou noutras regiões destroçadas!
“Nós” adultos não sabemos partilhar
Como as crianças o fazem genuinamente,
Egoístas, queremos tudo para o nosso conforto,
E nos olvidamos de todos os que sofrem
Porque não têm leite e pão
Porque não dispõem de médicos,
Porque choram a perda atroz das suas famílias!
Mas o maquiavelismo adulto não se fica por aqui:
“Nós” lançamos bombas que arrasam aldeias e vilas,
Minamos terrenos onde as crianças jogam à bola,
Destruímos os seus belos sonhos pela obsessão do poder!
E nós do Ocidente,
Que nascemos num berço capitalista,
É-nos logo ensinado a aceitar as injustiças do mundo,
Somos desencorajados na esperança
Por um mundo mais justo e fraterno
Porque simplesmente renegamos as nossas origens,
As nossas almas humildes dos tempos de criança,
E deixamo-nos silenciar ou até corromper
Pelos pecados enraizados das sociedades adultas,
Permitindo que a tirania triunfe sobre a fantasia!
Mas desenganem-se todos aqueles
Que julgam que o Sol apenas nasce para os poderosos:
O Sol não é hipócrita
Nem tampouco se acomoda,
Porque “ele” bem sabe
Que é a alegria das crianças
Que é o seu companheiro de esperança
Para que a Humanidade possa acordar para um novo dia,
Um dia em que todas as crianças sejam tratadas como “príncipes”!








Nota-Extra: Poema escrito após ter lido uma notícia que relatava o caos reinante em Alepo, a segunda cidade mais importante da Síria, sendo que esta urbe tinha inclusive ficado sem o seu último pediatra...

Poema nº 177 - Pelourinho da Consciência


Pelourinho da Consciência
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Tudo o que fazemos
Ou que fica por fazer
É motivo de julgamento
Seja num plano metafísico,
Seja somente na nossa consciência!
Cada ser humano
Conhece nas profundezas do seu interior,
Um pelourinho,
Um pelourinho que é antigo,
Que nos exige responsabilidades,
Que nos pode transmitir paz interior,
Ou que, pelo contrário,
Nos votará ao inferno dos remorsos!
Nem a justiça terrena logra equiparar-se
A esse pelourinho da consciência
Que consegue ser mais penalizador
Mais tortuoso, mais eficaz
Porque visa a alma, e não o corpo!
Somos nós próprios que o erigimos
Num sentido orientado para o Céu,
Mas numa abordagem centrada em Terra,
Onde todos os actos são auto-avaliados!
Esse pelourinho da justiça interior
Expõe as nossas falhas, as nossas culpas,
Denunciando o orgulho negligente
E até o egoísmo deprimente!
Se o soubermos ter em consideração,
O nosso pelourinho será apenas um monumento
Para fins ornamentais,
Sem qualquer funcionalidade relevante;
Caso contrário,
Ele ficará manchado de sangue,
De humilhação e de vergonha,
Porque a auto-consciência é o tribunal mais rígido
Que exerce os poderes da nossa existência
E ainda bem que assim o é!
Pois é esse pelourinho que nos incute discernimento
Que separa os verdadeiros humanos dos "animais",
Que nos impõe limites à nossa conduta,
Para que possamos todos contornar as muralhas de ódio,
Penetrando assim no coração puro da Humanidade!




Foto - Daniel Jorge (Pelourinho de Bragança)

Poema nº 176 - Poema à minha amiga Isaura


Poema à minha amiga Isaura

Isaura,
Contaram-me os pássaros do meu quintal,
Que quem te conhece jamais te esquece,
Que és uma mulher além da explicação científica
Ou da lógica racional da filosofia!
Guardas em ti uma fonte recheada de encanto,
Um olhar singelo que propaga entusiasmo!
As tuas pálpebras que pintas de azul
São a mais bela expressão do mar,
Das ondas desse teu mar revolto
Perante as injustiças cometidas em terra!
O teu nariz é uma vetusta pirâmide do Egipto,
Situada mesmo junto ao Rio Nilo,
Onde tu guardas os teus incalculáveis segredos
E os teus tesouros de invulgar sentimentalidade!
Sei ainda que esse teu cabelo dourado
É o ninho de toda a inteligência e frontalidade:
Ali pousam as cegonhas graciosas
Que distribuem o saber pelo mundo
Quando sobrevoam as comunidades!
No teu coração, sei que ostentas uma flor da Tunísia,
Que te transmite felicidade e boas energias,
Um optimismo renovado perante o deserto envolvente!
Com tantas e infindáveis virtudes
Logo percebi porque alcançaste tantas amizades,
Mas continuava a não compreender a tua nobreza singular,
Essa equação quântica perfeita que te personalizava,
Essa tua insuperável devoção pela liberdade!
Só mais tarde, descobriria a verdade:
Tudo acontecera num certo dia
Em que o sol acordara alegre,
Tendo vestido de cor os campos da região,
E ali um cravo expedito me contou
Que havias nascido numa das datas mais bonitas,
Sem nunca te teres deixado corromper,
Mantendo a integridade do teu ser!
Sim ,esse cravo me confidenciou:
"A Isaura floresceu no dia 25 de Abril,
Fiel à pureza dos seus ideais,
Incondicional defensora dos oprimidos,
Mulher-guerreira sedenta por justiça,
Mulher-poema repleta de compaixão,
Mulher-liberdade com asas de borboleta"!




Foto da minha amiga Isaura que sempre se revelou como uma pessoa sincera, simpática e atenciosa na nossa relação de amizade.