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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

domingo, 25 de dezembro de 2016

Poema nº 196 - Natal para as crianças


Natal para as crianças
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Aconchegado no seu berço de palha,
Chorava o Menino Jesus
Acabado de nascer
Para ensinar o amor
À Humanidade pecaminosa!
Escondido numa caverna,
Rodeado por Maria e José,
Jesus sairia imune à raiva de Herodes
Que tantos bebés mandara sacrificar
Porque temia a chegada do novo Messias.


Mais de dois mil anos depois,
O Menino Jesus ainda chora
No raiar da aurora do dia 25 de Dezembro,
Porque os Herodes desta vida
Ainda fazem escola
Não hesitando em exterminar crianças
Por propósitos maquiavélicos!
Esse Natal sem amor pelos mais pequenos
É apenas um mito consumista
Alimentado por uma sociedade hipócrita!






Poema nº 195 - O Calvário Camoniano do Rio Mekong


O Calvário Camoniano do Rio Mekong
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Como rompem oscilantes os ventos
Tornando endiabradas e mortíferas
As águas do Rio Mekong
Situadas ao largo do longínquo Cambodja!
Por aquele extenso curso do Sudeste Asiático
Está prestes a claudicar um navio.
A seu bordo, está o Príncipe dos Poetas,
Um homem que perdera o olho direito em Ceuta
Que tinha sido provedor-mor dos defuntos de Macau
E que tencionava regressar a Goa!
Endividado e já com experiência em cativeiro,
Camões enfrentava de novo o presente sombrio!

O rio adensa a sua raiva contra os estrangeiros,
Está disposto a sentenciar o fim da tripulação
E a enviar o poeta, bem como a sua obra,
Para os confins do esquecimento eterno!
Camões agarra-se à sua epopeia,
Ao seu manuscrito glorioso,
Emancipador do orgulho de um povo,
Ao maior tesouro lusitano da era das Descobertas,
Com versos que vulgarizam quaisquer lingotes de ouro!
Muito perto dele, está Dinamene,
Uma musa chinesa de elevada afectuosidade
Que conquistara o coração de Camões!

O mastro cede à intempérie,
O naufrágio sucede-se:
As correntes ferozes derrubam a embarcação
Camões tenta salvar a sua amada,
A mulher que o amparara no sofrimento,
Mas perde-a de vista,
O rio escolhera friamente o seu primeiro alvo,
Aprisionando aquela donzela chinesa,
A sua nova ninfa eterna,
Nas suas escabrosas profundezas!
À superfície, o poeta lusitano grita pelo seu nome,
Mas os deuses não atendem ao seu chamamento!

A Camões, só lhe resta lutar pela vida,
Sem abdicar do seu precioso manuscrito,
Resistindo assim às vagas adversas do rio,
Bem como às elites ignorantes do seu tempo
Que vacilavam em publicitar a sua obra,
Num claro menosprezo votado à arte literária!
Mas o poeta, mesmo só com o olho esquerdo,
Desafia o contexto que é o seu pior inimigo,
E a nado, começa a vencer as forças da escuridão,
Inspirando-se na audácia das proezas lusitanas,
E alcançando, em breve, as margens redentoras:
Guardiãs fiéis da sua genialidade intemporal!




Imagem Retirada do Google Imagens


Nota-Extra - Este poema visou recordar os momentos de aflição vividos por Luís Vaz de Camões, aquando do naufrágio do navio em que então seguia no rio Mekong, durante o ano de 1560. Entre salvar os "Lusíadas" e a sua nova amada (a chinesa Dinamene), Camões só conseguirá mesmo preservar a sua afamada obra, nadando contra as correntes temíveis daquele curso de água asiático.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Poema nº 194 - Coração Reprimido


Coração Reprimido
(Poema Livre da autoria de Laurentino Piçarra) 

Silencio o amor
Porque já é sádica a dor
Que trespassa o meu coração!
Em cada vazio do acordar madrugador
A saudade fulmina o meu espírito
Desertor e solitário,
Ocasionando a mais melindrosa das torturas!
A impotência cimenta a humilhação
O medo triunfa sobre a esperança,
E no fundo, sou como uma árvore,
Tristonha e desprovida de fruto,
Que reside isolada da floresta!
As recordações daquele rosto feminino
Adensam em mim uma expressão de ansiedade
Incompreendida aos olhos do mundo!
Mas quando agora contemplo em redor,
Vejo a escuridão a abater-se,
E a fantasia a desvanecer-se
Como uma flor que murcha
Sem que houvesse tempo para amadurecer!
E eu que sofro por um amor inalcançável,
Refugio-me nos últimos resquícios de coragem,
Para me digladiar num conflito interior
Onde tencionarei reprimir o coração,
Porque a ilusão platónica
É afinal uma droga pesada,
Uma mentira capaz de destruir a personalidade,
Ou até mesmo uma sentença fatal
Para quem fracassou no xadrez das paixões!




domingo, 4 de dezembro de 2016

Poema nº 193 - A Final do Monte Olimpo


A Final do Monte Olimpo
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Como estão eufóricos 
Os Deuses do Olimpo
Que banqueteiam com as glórias
Daquele desporto que seduziu os humanos!
Ali se achavam Eusébio, George Best, Crujff,
Príncipes entre os mais comuns mortais,
Todos desejosos de assistir à grande partida
Onde a entrada da Humanidade seria vetada
Decorrente dos seus limitados horizontes!


A noite chega, a hora é dourada,
O estádio do Além enche-se de almas!
De um lado, o grande Torino,
Penta-campeão da década de 40,
Clube príncipe da cidade de Turim,
Orgulho das divindades italianas!
Valentino Mazzola enverga a braçadeira
O capitão promete fazer balançar as redes,
Enobrecendo a distinta arte do futebol!


Do outro, uma equipa oriunda de Chapecó,
Símbolo da Humildade Brasileira
Espelho das ancestrais tradições indígenas, 
Que acaba de arribar à dimensão superior,
Para jogar agora a derradeira final diante dos Deuses
Perante aquele glorioso clube italiano.
Cléber Santana é o maestro da equipa,
O criativo que torna os sonhos possíveis,
E que faz desfilar o verde da esperança!


E nós, mundanos mortais, que hoje choramos
Por não assistir a tal epopeia futebolística,
Invejamos as divindades que o fazem,
Troçando das nossas imperfeições!
Restam-nos as lágrimas derretidas junto à Basílica de Superga
Ou espargidas pelas montanhas de Cerro Gordo,
Concebendo-se assim um rio de eterna saudade
Por aqueles mártires do desporto elevados aos Céus
Para servirem, na sua arte, os deuses egoístas do Olimpo.




Imagem nº 1 - Equipa maravilha do Torino durante a década de 1940. Em 1949, e já na viagem de regresso após um jogo amigável com o Benfica, a aeronave que transportava a equipa embateria fatalmente contra a Basílica de Superga, vitimando todos os seus tripulantes.




Imagem nº 2 - Equipa sensação da Associação Chapecoense que iria disputar, em 2016, a final da Copa Sul-Americana. No entanto, o avião que levava a equipa brasileira cairia em Cerro Gordo (Colômbia), terminando assim em tragédia o seu sonho (71 mortos registados, 6 sobreviventes).
Retirada de: http://www.goal.com/


Nota-Extra: Com este poema, pretendemos prestar a nossa homenagem a estas duas grandes equipas cujo percurso notável foi, em parte, silenciado pela ironia sádica do destino. Todos os jogadores (bem como os restantes tripulantes) que faleceram em ambos os desastres aéreos merecem ser por nós recordados para a eternidade. Viva o Torino, viva a Chapecoense!

Poema nº 192 - Não consegui despedir-me de ti


Não consegui despedir-me de ti
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Não consegui despedir-me de ti
De expressar a mais sincera devoção
Pelo teu sorriso, no qual floresci
Assimilando briosos raios de emoção!

Não logrei confiar sequer às estrelas,
Esta minha inspiração sonante,
Este sonho que embalo pelas vielas
Fruto de uma saudade contagiante!

Jamais nos cruzaremos no futuro
Seguiremos marcos diferenciados
Enredo cruel que me tornará impuro!

Mas à noite, quando mirar o Firmamento,
Desabafarei apenas para o meu íntimo:
Afortunado coração que viveu o teu advento!




Poema nº 191 - Aquela infame porta


Aquela infame porta
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Afonso
Com um semblante triunfante,
Galopava a cavalo
Carregando a cruz de Cristo
Pelas ruas estreitas de Badajoz.
Pelo caminho, derruba soldados mouros,
Abre luz às ambições lusitanas!
Nas suas ligeiras pausas, ora aos Céus, 
Esperando a aprovação divina
Para mais um feito glorioso!
O rei conquistador mostra-se confiante!
Após uma peleja intensa,
Os almóadas já mal resistem:
A praça está quase tomada!
Afonso prostra-se no chão,
E volta a estender as mãos para o alto,
Oferecendo a Deus mais uma vitória!
Ordena que se hasteie o orgulho lusitano
No topo das imponentes muralhas de Badajoz.
Mas a tarde escurece subitamente,
Os guerreiros portugueses embebedam-se,
Desentendem-se na partilha do saque,
Envolvem-se com prostitutas,
Violam donzelas muçulmanas,
Tornando-se indignos da vitória
E de servir a seu ilustre rei. 
A euforia descontrolada e diabolizada
Torna-se num ultraje aos desígnios supremos,
Os risos mordazes ecoam pelas calçadas,
Subestimam todos a imprevisibilidade
Que o destino equaciona reservar!
Oh! Pobres ignorantes
Que nem respeitais o vosso rei,
Nem olhais sequer pela sua segurança!
Ignorais que um novo perigo
Provém do exterior,
Que algumas horas depois
Se ouvirão as trompas ensurdecedoras
Do poderoso exército do rei Fernando II de Leão!!!
Esse soberano cristão,
Qual vassalo da Santa Sé, 
Virá em auxílio do governador mouro,
Em nome de um amaldiçoado pacto!
Esse rei indigno da sua fé
Jamais admitiria que Badajoz
Caísse nas mãos lusitanas
Visto que seria uma afronta
Às ambições territoriais leonesas!
Oh! A chegada dos falsos cruzados
Desencadeia o terror nos portugueses,
Entrincheirados em Badajoz.
Muitos tentam fugir pelas muralhas,
Outros são surpreendidos pelo ataque!
Como é que um exército bêbado e vadio
Poderia resistir a uma força disciplinada
Que os cercava a partir do exterior?
Afonso, esse, tenta sozinho
Escapulir-se no meio da anarquia,
Apesar dos seus sessenta anos,
Derruba um primeiro cavaleiro leonês,
E consegue iludir dois que o perseguiam,
Mas é condicionado pelo peso da armadura:
A sua idade limita-lhe os movimentos.
E Badajoz, labirinto de manhas, 
Esconde dos seus ocupantes “estrangeiros”
Vias confinadas,
Becos sem saída,
Fantasmas maquiavélicos!
Afonso sente que está perto de lograr a fuga,
Mas quando tenta esgueirar-se
Por uma das portas da muralha exterior,
Colide contra o traiçoeiro ferrolho desta,
Cai de seu cavalo,
Cai da sua epopeia vitoriosa,
Para embater no solo frio,
Na realidade de que tudo tem um fim!
O rei fractura a perna direita,
Agarra-se a ela em lágrimas,
E sofrerá com ela para o resto da vida!
É feito prisioneiro do rei leonês, 
E pouco tempo depois libertado!
Afonso, o Pai da lendária Portugalidade,
Jamais se esquecera daquela infame porta,
Fora ela, e não um rei ou imperador,
Que colocara fim à sua hegemonia,
À sua categórica carreira militar.
Fora ela que o destronaria do seu auge bélico
Do seu estatuto mítico imaculado
Para o devolver à mais vulgar condição humana!








Nota-Extra: Poema que tenta retratar o desastre português de Badajoz em 1169. O rei português decidiu ir em auxílio do salteador Geraldo Sem Pavor que já se tinha introduzido no interior das muralhas. Os mouros/almóadas estão prestes a capitular - apenas resistem na alcáçova da cidade. A chegada inesperada das forças de Fernando II de Leão em auxílio do soberano mouro impede que os portugueses possam materializar o triunfo definitivo (o qual estaria iminente). As forças lusas, completamente desorganizadas e indisciplinadas, tornam-se num alvo fácil do inimigo. O rei português tenta fugir por uma das portas da muralha, mas embate contra o ferrolho desta, caindo do cavalo e partindo a perna direita, mazela grave que o acompanhará para o resto da vida. Detido, foi presente diante de Fernando II de Leão (curiosamente seu genro) que tratou de lhe assegurar os cuidados médicos de que necessitava. Não obstante, o rei português só foi libertado mediante o pagamento de um resgate e a devolução de algumas praças ao rei de Leão.

Poema nº 190 - Reabre os teus olhos, Inês


Reabre os teus olhos, Inês 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Reabre os teus olhos, Inês,
Que despontam um azul vivo
Pintado pelos anjos do céu!
Levanta-te desse túmulo
Como uma verdadeira rainha,
Projectando os teus cabelos dourados
Que reluzem loucamente como o Sol!
Liberta-te das rédeas da tenebrosa morte,
Perdoa a infâmia dos teus assassinos
E a cobardia d’el rei D. Afonso IV
Que ousaram derramar teu sangue inocente
No paço do consagrado Mosteiro de Santa Clara!


Reabre os teus olhos, Inês,
Lembra-te daquele dia soalheiro
Em que D. Pedro, o jovem príncipe,
Te mirou pela primeira vez
Com uma veemência vibrante,
Rendido ao teu perfume corporal de jasmim!
Eras apenas uma aia de D. Constança,
Mas a beleza e a nobreza de carácter
Não eram exclusividade dos magnatas
Como muitos se atreveram a insinuar.
Fizeste com que D. Pedro acreditasse no amor,
Insurgindo-se contra a viciação matrimonial.


Reabre os teus olhos, Inês,
É altura de abraçares de novo os teus quatro filhos,
De seres a mãe presente que não te deixaram ser,
De devolveres paz ao rio Mondego que viu a tua dor!
E com essa tua expressão singela,
Ergue-te desse túmulo de mármore,
Beija o rosto do homem que está sepultado à tua frente:
Esse teu amado rei que padeceu da tua saudade:
D. Pedro que, aguardando pelo dia do Juízo Final,
Fez questão de partilhar o sono da morte contigo,
Desejando contemplar, na ressurreição, como primeira imagem,
A tua afável face, o paraíso do teu regaço!




Imagem nº 1 - A paixão de D. Pedro e D. Inês de Castro em pintura.




Imagem nº 2 - Túmulos de Inês de Castro e D. Pedro em Alcobaça (sepultados frente-a-frente).

Poema nº 189 - Al-Mutâmide, o rei-Poeta de Sevilha


Al-Mutâmide, o rei-Poeta de Sevilha
(Crónica, em moldes poéticos, da autoria de Laurentino Piçarra)

Na Beja outrora muçulmana,
Nascia um príncipe,
Um homem que fez da poesia
A sua própria arte de expressão!
O seu nome era Al-Mutâmide,
Era filho do rei mouro de Sevilha.
Elegante, esbelto e determinado,
Partiria imensos corações femininos
Sempre que se deslocava à praceta!
Ainda jovem, foi nomeado governador de Silves!!!
Oh Silves - essa terra da qual diziam maravilhas:
Um pólo cultural que congregava eruditos,
Uma universidade de virtudes do al-Andalus!
Foi ali que Al-Mutâmide conhecera Ibn Ammar,
O seu poeta-tutor que amara perdidamente,
Numa admiração mútua de intelectualidade!
Foi também ali no Palácio das Varandas,
Citado no seu poema evocatório de Silves,
Que Al-Mutâmide se envolvera com as musas
Mais irresistíveis do seu tempo,
Em noites ardentes repletas de música, dança e poesia!
Oh! Al-Mutâmide amava o seu mestre
Mas também bebia do erotismo feminino.
Revelando o ardor típico da juventude!
Descontente com os acontecimentos,
O progenitor de Al-Mutâmide decidiu exilar Ibn Ammar,
Porque censurava a sua influência íntima
Que desencaminhava o seu filho!
Os anos foram passando,
Al-Mutâmide sucederia a seu pai em Sevilha,
Nomearia o seu amigo preferido como vizir
Que assim regressaria para o servir!
Ibn Ammar conquistaria Múrcia
E venceria Afonso VI numa insólita partida de xadrez,
Demovendo o monarca cristão de uma potencial ofensiva
Aos territórios integrantes da taifa!
O rei Al-Mutâmide promoveria o mecenato em Sevilha,
Reunindo poetas, geógrafos e astrónomos!
As cortes repletas de luxo,
Assistiam ao consumo desmesurado do vinho,
À imoderação sexual,
E à lassidão dos costumes!
O próprio soberano não se negava aos prazeres!
Pareciam ser tempos áureos!
Mas a política tende a arruinar homens cultos,
E a maldita sede de poder e protagonismo
Traz ao de cima os piores instintos.
Al-Mutâmide, então enamorado de Itimad,
Uma concubina graciosa que também recitava poesia,
Começou a desconfiar de Ibn Ammar,
Diziam que o seu amigo conspirava contra ele,
Lavrando versos depreciativos contra o casal reinante!
Ibn Ammar estaria ainda a ultimar a independência de Múrcia,
Rebelando-se assim contra o seu soberano,
Aquele que sempre o tratara com nobreza!
Oh!!! Quantos tremores se sentiram no palácio de Sevilha!
O rei-poeta temia ser atraiçoado por quem mais admirava!
Como Ibn Ammar mudara!
Teria ciúmes daquele relacionamento frutuoso?
Inveja do rei a que servia?
Estaria o seu coração cegado pela sede de poder?
Também al-Mutâmide deixara afectar-se pelo ódio,
Tornara-se frio e impaciente,
Deixara-se levar pelos ventos de rancor,
Ordenando mesmo a prisão do seu antigo amigo.
E num dia amaldiçoado pelo destino,
Saturado de tanta intriga,
Decidiu entrar na cela de Ibn Ammar,
E com um machado,
Desferiu o verso mais negro da sua vida,
Provando que a barreira entre o amor e ódio
Será eternamente ténue,
Não teria ele sentido remorsos do que fizera?
Mas o fim de Al-Mutâmide também estava próximo,
Os cristãos avançavam na sua cruzada peninsular,
Cenário que exigia uma resistência vincada!
Iúçufe ibn Texufine, emir de Marraquexe,
Partiu de Marrocos com uma força poderosa,
Derrotou o rei leonês Afonso VI em Zalaca,
E quatro anos depois, numa nova iniciativa almorávida,
Tomaria vários reinos-taifas.
Sevilha cairia e o seu rei também.
Al-Mutâmide e a sua mulher acabariam por ser desterrados
Para Aghmat, onde viveriam os últimos dias!
Em solo marroquino, e sob o manto da discrição,
E ao abrigo de condições miseráveis,
O filho de Beja criou poemas repletos de sentimentalidade,
Nutrindo saudades de Sevilha,
Dos seus palácios, jardins e olivais,
Dos seus amores e desamores!
E Aghmat, terra humilde que acolhera as suas lamurias,
Tornar-se-ia num centro de peregrinação poética,
Num dos exemplos vivos da herança do al-Andalus!







Nota-Extra: Al-Mutâmide viveu entre 1040 e 1095. Nasceu em Beja e viria a ser rei-poeta de Sevilha. Teve uma amizade (muito) colorida com o poeta Ibn Ammar (natural de Estômbar; especula-se que houve inclusive um relacionamento de cariz homossexual). Mas Al-Mutâmide também se envolveu com várias mulheres na juventude, acabando por se apaixonar mais tarde por Itimad, uma concubina muito bonita que sabia declamar poesia popular em público. O relacionamento entre Al-Mutâmide e Ibn Ammar terminou em tragédia, por causa das intrigas do poder político no próprio reino muçulmano de Sevilha. O rei matou friamente o seu vizir na cela onde este estava detido... Teria demonstrado mais tarde arrependimento pelo que fizera?
Tanto Al-Mutâmide e Ibn Ammar foram poetas muçulmanos que nasceram no "Portugal Árabe" mas que assumiriam cargos políticos prestigiantes no al-Andalus. Este poema pretendeu recordar a sua existência.

Poema nº 188 - Aimar, o Ulisses Argentino da bola


Aimar, o Ulisses Argentino da bola
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Quem é aquele prodígio 
Que faz maravilhas com a bola
Em plena catedral do futebol?
Quem é esse artista 
Que faz levantar um estádio inteiro,
Tratando a bola com classe
Com a mesma ternura de um poeta
Que, apaixonado, declama versos à sua musa?!
De pequena estatura,
Mas com um cabelo comprido,
Dizem que é natural da Argentina
E que se chama Pablito Aimar,
Para muitos um deus do futebol,
Um mago contra a ciência regrada dos relvados 
Que já estivera no River Plate e no Valência
E que seria glorificado pelos benfiquistas.
Oh! Que miscelânea de míticas recordações!
Quantas pinturas ele nos deixou nos relvados?
Quanta nostalgia depositou nos amantes do futebol?
Quanta euforia causou pelos clubes por onde passou?
Aimar fantasiou o futebol,
Reinventou-o com a sua originalidade e mestria,
Com uma visão de jogo peculiar,
Com um raro dom de se imaginar,
E eu, na qualidade de vulgo mortal,
Admito que Aimar sempre me inspirou
Enquanto profissional,
Enquanto criativo,
E hoje faço uma vénia
Ao Ulisses Argentino
Que derrubou várias muralhas do mau futebol,
Para evidenciar o seu génio,
O seu poema inesquecível para a modalidade,
O seu contributo para os deuses do Olimpo:
Estes igualmente rendidos ao seu talento,
Ao primor da sua técnica celestial.




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