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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Poema nº 54 - O Dilema Grotesco duma Mulher


O Dilema Grotesco duma Mulher
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Quem enverga o manto do ostracismo?
Uma Mulher quarentona, idosa para trabalhar
Mas demasiada jovem para se reformar,
Apenas reluz a perseverança como eufemismo 

Dizem que não alça uma bandeira partidária,
Dizem que não vende os ideais como uma alimária;
O seu cachecol omite um silêncio depressivo, 
Dor eternizada nas estatísticas mórbidas.

Ó mulher que já pensaste em abdicar da vida,
Sentes-te ignorada, vulnerável, inútil e perdida
Numa sociedade de discriminação ferida.

Vai pedir esmolas ínfimas para a rua,
No mato, abriga-te numa cabana modesta 
E pega na enxada, a tua herança única e indigesta.




Poema nº 53 - O "Velho do Restelo" interpretado pela Dona Conceição



O "Velho do Restelo" interpretado pela Dona Conceição
(Soneto da minha autoria)


Rabugenta como o Velho do Restelo,
Assim sou eu, a pessimista da nação!
Ó Camões, nós estamos em privação:
Vivemos num total descrédito e desmazelo!

Estamos agora bastante endividados
E já não vamos à Índia das especiarias,
Mas rumamos à Alemanha das avarias!
Somos afinal uns pobres coitados!

A minha mercearia só dá prejuízo,
Os meus produtos, mais tributados estão,
Quando é que termina a desilusão?

Tenho dois jovens filhos desempregados,
Um deles, sem cunhas, até procura emigrar!
Até para eles neste país já não há lugar!



Poema nº 52 - O Carreiro da Tranquilidade


O Carreiro da Tranquilidade
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Auscultava o palrar dos pássaros,
Sentia a agitação da mosquitada, 
Nutria uma paixão desenfreada
Por esta sinfonia sem reparos.

O anoitecer radicava numa arte:
Num quadro pintado todos os dias,
Elogiado por gentes de toda a parte
Que até entoavam à escuridão melodias!

Aquele atalho de terra, percorria sempre
Quando rumava a casa para descansar
Depois dum turno de trabalho sem fraquejar!

Mas não estava sozinho na caminhada,
O Sol também procurava o seu repouso,
E ambos descíamos então este carreiro virtuoso.




Poema nº 51 - Conexões Ininteligíveis


Conexões Ininteligíveis 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


No auge dos meus sonhos lúcidos,
Vejo-me numa mansão florestal
Que me gera uma pertença umbilical
Digna dos mais nostálgicos sentidos.

Um riacho floreado nas orlas
Ressoava um som bastante familiar,
Esquilos trepavam cada carvalho secular,
As aves esgueiravam pelas suas argolas.

Diante de mim, um vulto se abeirava 
Ela fruía duma cara oval esbranquiçada,
Cabelos louros aos caracóis: minha irmã ou amada?

Será que ela é real ou invenção irracional?
Existe, existiu ou intensamente alucinei?
Confuso, reduzo-me ao papel indouto de comum mortal.




Quadro da autoria de de Peder Mork 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Poema nº 50 - Concha Viajante


Concha Viajante
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Nas redondezas das rochas solitárias
Recolhi no areal uma concha mendiga
Arrastada pelas águas celibatárias 
Naquele vaivém ondular que não definha.

Côncava sob forma de orelha esculpida,
Esbranquiçada como uma pomba migrante,
Ela outrora já exercera o papel de navegante,
Explorando as aleatórias profundezas da vida.

Mas agora jazia dormente naquela costa erma
Junto às pegadas sombrias sem coerência
Que perfaziam o iniludível vazio da existência.

Peguei nela e depositei-a na estante do quarto,
Ladeada de outras conhecidas companheiras 
Naquele novo repouso após salgados desencontros.





Poema nº 49 - Arte Xávega e os Lobos do Mar


Arte Xávega e os Lobos do Mar
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Neste imenso areal sobranceado pelas aves,
Os lobos do mar recolhiam as redes
Onde estavam encurralados os peixes
Que não driblaram as fatais "paredes".

A embarcação sorria de modo triunfante 
Respirava um ar bucólico e tricolor
Contrastando com o putrefacto odor
Dos restos espalhados em estado dilacerante.

Até Poseidon confidenciava junto de Zeus 
A insondável bravura destes aventureiros
Que diante da morte e dum doloroso adeus
Pediam às ninfas gregas a glória de guerreiros!

Têmis invocará vaidosa a fibra destes heróis:
Sim, os campeões da abnegação e humildade
Cujas luzes interiores superam as dos faróis,
Antes da sua inadiável partida de eterna saudade.




Poema nº 48 - A Triste Sina de Matias - o Conde Vaidoso


A Triste Sina de Matias - o Conde Vaidoso 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Lá vai o Matias das manias,
Todo perfumado e cheiroso
Entra no seu carro luxuoso
E deixa a vivenda das utopias.

Fuma com exótico estilo
Julga-se íman da sabedoria
Difunde a sua sublime categoria
Com um egocentrismo tranquilo. 

Um dia entrou num café,
Queixou-se do chá indigesto,
Da empregada de rosto funesto
E até da banalíssima ralé!

Exigia um tratamento especial:
Que à entrada lhe beijassem a mão
E lhe dedicassem uma elogiante canção
Porque era um conde primacial!

A manca Joaquina estava furiosa
E rematou com as seguintes palavras:
"Não beijo as mãos de vossa alteza,
Não vá contagiar a sua frustrante nobreza"

Logo se instaurou uma enorme altercação
E o conde Matias foi colocado num contentor,
Afirmando a pobre manca com total precisão:
"Nem o caixote de lixo merecia tal dissabor"!



Caricatura da autoria de Miguel Salazar