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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Poema nº 126 - Paixão Além-Mar


Paixão Além-Mar
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Desmintam-me os sóis de lucidez
Ou até as luas do teu sereno olhar 
Se este meu almejo de te adornar
Rima com o teu astro de polidez!

Sonho ser o teu livro mais sagrado:
Gravitarás em torno do meu respirar
Deflorarás cada letra do meu desejar
Moldarás o meu querer desregrado!

Abraçados, estudaremos física quântica 
Recitaremos versos de amor platónico,
Desfilaremos sós pela maresia atlântica!

E aí sim, princesa do meu ar ofegante,
Segredaremos pelas ondas do oceano
Que reflectirão o teu arco-íris radiante!




quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Poema nº 125 - Versos dirigidos a Samarcanda


Versos dirigidos a Samarcanda 
(Lendária cidade milenar)
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Samarcanda,
Vitral colorido da História,
Mosaico de povos e culturas,
Refúgio de mercadores e viajantes,
Miscelânea de afamados pensadores
Tesouro camuflado por divagares subterrâneos!
Por entre o despertar desse teu luminoso olhar,
Logro avistar em ti maravilhas inenarráveis:
Árvores abençoadas pelo céu sorridente,
Riachos cristalinos que embalam no solo ardente,
Mesquitas faustosas em honra do Profeta,
Cúpulas que ascendem às nuvens,
Filosofias que revigoram as flores
Cavalos que confraternizam horizontes,
Segredos equiparados a lânguidos desejos,
Lágrimas que suplicam pelo glorioso passado,
Beijos versificados na insaciável poesia,
Vinhos que escorrem pelas ruas da sabedoria!
Ó Samarcanda, em ti reluz Omar Khayyam de Nishapur:
Mestre dos poetas orientais,
Senhor da álgebra e da astronomia
Esconderá a Lua o seu perdido manuscrito?
Em ti, minha doce e requintada Samarcanda
Também observo outras imagens
A espada triunfante de Alexandre Magno,
O frenesim da almejada Rota da Seda,
A difusão do papel inventado pelos chineses,
Os edifícios altivos erigidos por Tamerlão,
O observatório prodigioso de Ulugh Beg
E acima de tudo, essa tua nostalgia milenar
Que te converte numa equação singular
Onde anexas a poesia, a matemática e a astronomia,
Os três elementos fundadores da tua identidade!
Consciente da tua suprema dimensão universal,
Ao teu coração, Samarcanda, apenas te interrogo:
Que segredos confiaste somente às estrelas?
Que lendas propalavas tu aos deuses?
Que tecidos trajaste em séculos passados?
Que multidões acolheste nos teus mercados?
Que fidalguia cultivavas nos teus jardins?
Que versos de amor dedicaste à humanidade?
E eu, Samarcanda, que nunca te conheci,
Sei que a tua essência é inalcançável
Sei que ainda difundes o teu perfume irresistível,
Sei que és afinal imperatriz convertida em turquesa!




Foto - Islam Pictures



Nota-extra: Samarcanda é Património Mundial da UNESCO devido ao cruzamento de culturas no passado. É a segunda maior cidade do Uzbequistão, embora no passado já tenha sido dominada por sogdianos, persas, chineses, turcos, mongóis, russos... É conhecida ainda pela sua efervescência cultural - a cidade integrava a rota da Seda que fazia a ligação entre a China e a Europa, possuía nos seus mercados belos tecidos e cavalos, e passou também a ser um importante produtor de papel através da captura de prisioneiros chineses que foram colocados a laborar na região. Em Samarcanda, paravam viajantes e mercadores de diversas culturas...
A realização deste poema inspirou-se igualmente nas descrições presentes na obra "Samarcanda" de Amin Maalouf bem como em outras pesquisas efectuadas a nível electrónico.

Poema nº 124 - Arena do Martírio


Arena do Martírio
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Nesta arena de lobos esfomeados,
Vejo-me encurralado pelo anseio,
Vencido pelos sonhos açoitados:
Não há sol no meu nublado receio!

O desespero cobre o solo indigente 
Os portões omitem negras surpresas:
Falsos cordeiros de olhar negligente
Alcateia de almas, sóbrias impurezas!

A plebe converte-se ao entusiasmo
Nas bancadas, saúda a cena trivial
Visa os desgraçados com sarcasmo!

Os portões abrem-se, saem as feras
Que dilaceram a minha ingénua carne:
Indigno pó deste "santuário" grotesco.




Magnífica Foto da autoria de Trey Ratcliff in Flickr


Nota-extra: O soneto contém uma profunda componente metafórica.

Poema nº 123 - Reticências...



Reticências...
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Tudo na vida são meras reticências:
A bastardia da fugacidade terrena,
O silêncio das soturnas coincidências,
O jazigo perpétuo que me serena.

Caem as folhas do viajante Outono,
Voam as vírgulas do meu irrealizável ser 
Despem-se as interrogações do meu viver,
E repouso nas reticências do denso sono!

Que interessam os adjectivos altivos?
Ou a melancolia fingida das metáforas?
Somos somente eufemismos nativos!

E nesta mudez solitária das reticências,
Vivo no passado que o futuro irá esquecer:
Sou carne em dia, serei pó ao anoitecer!





Poema nº 122 - Olhares de Infidelidade



Olhares de Infidelidade
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Mulher, pequei por tua culpa,
Pela ilusão que me vendeste
Pelo sorriso que transpareceste,
Minha prenda envenenada oculta!

Esses teus olhos azuis de perdição,
Essas tuas ondas do mar destrutivas
Fizeram-me naufragar na decepção,
Porque o teu sal frustrou expectativas.

Sim, tu rapariga que me persegues:
Maremoto cruel que a mim te atreves,
Sereia infiel a amores e namorados!

Após partilharmos marés vivas de olhares,
Soube da tua pungente traição em casar:
Desse futuro sombrio que te irá encarcerar!




Imagem retirada algures da Internet (Google Imagens)

Poema nº 121 - Versos do meu Ser Acabrunhado


Versos do meu Ser Acabrunhado
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Padeço duma terrível frustração 
Que vagueia pelos dias enevoados,
Como um tornado regedor da desilusão
Que arrasa corações angustiados!

Em mim, as nuvens vertem lágrimas, 
Gerando torrentes depressivas
Que baptizam as palavras ínfimas
Das minhas alvoradas regressivas!

Sinto que a luz me exilou na escuridão,
No antro das entidades negativistas 
Que fomentam o tormento e a crispação.

Assisto à nugacidade da minha existência,
Ao triunfo poético da densa melancolia 
Que em mim se exalta com reincidência!



sábado, 5 de setembro de 2015

Poema nº 120 - O Manuscrito Ancestral do Palheiro Vermelho


O Manuscrito Ancestral do Palheiro Vermelho
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Naquele final de tarde,
Percorri os trilhos junto à Praia,
Contemplei aí o saudoso arrebol
Que pintava o céu duma cor alaranjada.
Subi ao paredão para almejar o horizonte,
Esse horizonte marítimo de alegrias e tragédias,
Que "matou" a fome humana com toneladas de peixe,
Mas que também testemunhou terríveis naufrágios,
Ou até depredações de vikings e berberes!
Entretanto na sequência deste meu solto divagar,
Desviei o olhar para a minha silenciosa retaguarda,
Havia algo que logo me captara a atenção:
Um palheiro secular de madeira,
Distribuidor de cores e encantos,
E cuja sorte merecia a minha natural inveja!
Todos os dias ele escutava o bater das ondas do mar,
Todos os dias ele sentia o imenso cheiro a maresia,
Todos os dias ele assistia ao frenesim da arte xávega,
Todos os dias ele tinha uma nova história para contar!
Os anos podiam passar impiedosamente,
Mas ele teimava em não envelhecer!
É património, é postal enraizado dum povo:
Morada de gerações de pescadores anónimos,
Gente humilde que arriscou as suas vidas
Para superar as adversidades do tempo!
Deprimido e exausto está o seu chão térreo:
Eficaz sorvedouro de mares de lágrimas
Vertidas por familiares em luto
Que choravam por cada barco que não retornava!
Sem licença ou resquícios de compaixão,
A desgraça batia assim muitas vezes à porta:
Quantos lobos do mar não sucumbiram às ondas letais?
Quantas almas não ficaram arrasadas para sempre?
Quantas cicatrizes não se instalaram nos corações?
Quantos medos não se recriaram a cada embarque?
Quantas crianças não ficaram órfãs do destino?
Que drama - este partir brusco e cruel
Sem um beijo, um abraço ou um adeus,
Sem uma sentida despedida!
Mas não choremos mais estes martírios:
Pois os espíritos daqueles que naufragaram
Não jazem no pequeno cemitério da cidade
Nem sequer debaixo do solo da antiga capela
Engolida pelo mar e substituída por outra,
Eles revivem sim nas nossas memórias:
São o exemplo honrado do passado,
A identidade que nos conduz no presente
E a prodigiosa inspiração do futuro!!!
Mas além da sua acentuada cor vermelha,
E da vegetação dunar que o enfeitava em redor,
Aquele palheiro escondia algo,
Um segredo nunca antes revelado:
Uma caixinha de madeira soterrada
Que dizem há séculos ter dado à costa,
Ignorando-se a sua origem!
Um pescador analfabeto que a encontrou,
Decidiu guardá-la ali, naquele edifício simbólico!
A caixa achava-se bem cerrada
Como se tratasse dum tesouro do além-mar!
Mas um dia aquele homem logrou por fim abri-la,
Detectando no seu interior um manuscrito,
Bem enrolado e de inegável antiguidade,
Afastou com ligeireza os seus bordos,
E ali jurou ter vislumbrado três palavras,
Como não sabia ler,
Correu excitado em direcção à Igreja Matriz,
Para consultar o Pároco local,
E este, diante desta comunidade de Santa Maria,
Depois de benzer o manuscrito,
Proferiu bem alto
Para que todos ouvissem
As três palavras latinas
Que rematavam a essência mágica de Esmoriz:
"VIRTUS IN LABORE"




Foto da minha autoria




Foto da minha autoria




Postal da autoria de José Bastos



Nota-extra - Poema dedicado ao povo de Esmoriz e que se cinge sobre o simbolismo dos seus palheiros à beira-mar. No que diz respeito à expressão latina "Virtus in Labore", esta encontra-se presente no brasão da cidade, e atesta o carácter trabalhador da sua comunidade.