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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Poema nº 279 - O Império Laboral Absolutista


O Império Laboral Absolutista
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei em que dia
O poder e a arrogância,
Dois generais ambiciosos,
Uniram as mãos
E marcharam juntos
Para oprimir os ingénuos
Que se achavam alojados
Nos arrabaldes da humildade.
Não o fizeram por acaso,
Tornaram-se narcisistas
Reprimiram a auto-estima
Dos que laboravam em paz,
E cobraram impostos,
Seja em forma de dinheiro,
Ou através de chicotes verbalizados!
Nesse Império Laboral,
Muitos obtiveram o reconhecimento
Após imensos sacrifícios
E com uma vassalagem inexcedível
À corte do poder
Renegando mesmo a verdade
Quando esta era incómoda.

Muitos subiram na hierarquia
Sabendo que já foram da plebe,
Esquecendo-se que saldaram tributos
E dos altos,
Para lá chegarem!
Mas quando o poder
Que tanto censuravam
Os convida para um banquete
Recheado de bolos e oportunidades
Lá vão eles,
Todos entusiasmados
E prontos a rebaixar a plebe,
As suas origens!
Querem ser diferentes,
A elite do poder força-os a tal:
Têm de vestir o manto caprichoso
Que a Arrogância utiliza diariamente!
É tudo um pacto de absolutismo laboral,
Alheio a qualquer foco de dor
Dos mais vulneráveis
E dirigido apenas para o capital,
O dinheiro,
Esse vil metal que é pai empenhado
Tanto do Poder como da Arrogância!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.cartacapital.com.br/revista/960/o-poder-causa-dano-cerebral

Poema nº 278 - A Ninfomaníaca


A Ninfomaníaca
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Acometida por anseios selvagens,
Deixa-se saquear pelo inconsciente,
Cedendo às escaldantes miragens
Dum mundo que lhe é insuficiente!

É um vulcão em erupção permanente,
Não vê corações, apenas instrumentos
Que lhe saciem a infinita sede jazente
Por entre o abismo dos pensamentos!

Não há chuva que refreie a sua doença 
Nem amigas que lhe corrijam o caminho,
Sobram apenas montes de indiferença!

E se o seu corpo é um terreno árido
Para os beduínos dos almejos carnais,
O seu coração é um deserto impróvido!






Nota-Extra: Quando utilizamos o termo "sede", referimo-nos, neste contexto em concreto, à "sede de fogo" visto que se trata de um vulcão sentimental em erupção.

Poema nº 277 - Quod Sumus, Hoc Eritis


"Quod Sumus, Hoc Eritis"
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei o que devo ao mundo,
Mas sei que me juntarei
A todos os outros
Que me precederam
Nesta jornada pelo incógnito.
Um dia serei passado
Deixarei de ser corpo
E só aí saberei a verdade
Do que nos estará reservado
Ou não!
Não temo o amanhã sem vida
Não renego sequer a Deus
Mesmo que não exista um plano,
Só sei que devo ser o que sou
Nestes fôlegos frenéticos da existência!
Apenas não quero estar morto
Antes da minha hora,
Como muitos estão:
Movidos pelo ódio
Distraídos pela indiferença
Absorvidos pela hipocrisia!
Na confusão da realidade
Que se ilude a si mesma
Quero ser uma partitura harmoniosa
Cujo som valeu a pena escutar
Nem que por instantes,
Antes de se extinguir
Por entre as constelações,
Fiéis depositárias da nossa memória,
Búzios guardiões da nossa melodia,
E verdadeiras testemunhas
Do que somos
E daquilo que seremos!





Gravura presente no Filme "Kingdom of Heaven".

sexta-feira, 16 de março de 2018

Poema nº 276 - O Berço da Crença


O Berço da Crença
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra) 


Todos podem ascender
Ao cume do conhecimento,
Escalar penhascos de ignorância,
Mesmo que se sintam amarrados
Pela doença, pelo medo!
Eu sou do tempo
Em que testemunhei um milagre:
Um homem destinado a morrer cedo
Contornou todas as expectativas,
Ludibriou o Anjo da Morte
Que só o encontrou meio século depois,
E só a sua vontade bastou
Para que alcançasse o Cosmos!
Não precisou de uma nave espacial
Nem sequer de uma fortuna colossal!
O seu rosto sugado pela deformação
Metaforizava as limitações seculares,
Mas a sua mente era um museu
Digno de ser visitado por um Einstein,
E ele, que nem se achava profeta,
Abria todos os dias as suas portas
Guiava os visitantes até às verdades
Ocultadas pelo tempo,
Mesmo que a sua cadeira de rodas
Tentasse desautorizar o seu génio!
Mas um dia, teve de partir,
O seu museu perderia o seu guia,
Mas ganharia milhares de seguidores
Para uma nova moral corajosa
Em que desistir não é opção
Porque é no berço da crença
Que a mente ganha asas
E nos leva até aos confins do Universo!



Dedicado a Stephen Hawking
Físico e Cosmólogo Britânico (1942-2018)





Paul E. Alers/NASA via Getty Images



Nota Adicional para uma melhor compreensão do poema: Aos 21 anos, foi-lhe diagnosticada uma esclerose lateral amiotrófica. Deram-lhe apenas três anos de vida. Mas viveu muito mais do que isso, viveu mais de cinquenta anos ainda, visto que acabaria por falecer com 76 anos, no dia 14 de Março de 2018, isto é, no exacto dia e mês em que Einstein nascera em 1879.

Poema nº 275 - Sonho ao som das ondas



Sonho ao som das ondas
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Sonho ao som das ondas
Procuro ser quem não sou
Aquele príncipe que tu sondas
Um búzio que a areia camuflou!

Desenho o teu rosto imperecível
Para reconfortar o céu brumoso 
Que partilha da lágrima iniludível
Gota do mar, teu lar majestoso!

Eras a ninfa do meu aconchego,
A fortaleza das minhas emoções
O sol com a doçura de pêssego!

Mas naquela noite adoeceste
Para naufragar nas memórias,
Ilusões de uma manhã agreste!





Poema nº 274 - Falei com uma árvore centenária


Falei com uma árvore centenária
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Falei com uma árvore centenária
Dispersa pela região
Perguntei-lhe pelo segredo da sua resiliência
E ao primeiro sopro de vento
Ela prontamente reagiu
Erguendo os seus ramos para o céu
Donde caía a chuva refrescante
E donde surtiam as rimas do sol vibrante!
A sua essência emanava da Natureza
E esta sua postura recatada e modesta
Contrastava com as "florestas humanas",
Onde muitos se atropelavam
Só para ascenderem ao topo,
Ignorando princípios e origens!
Mas aquela oliveira centenária
Não alcançaria o seu digno estatuto
À custa das desgraças dos outros!
Contou-me ela que as suas irmãs
Frutificaram e também viveram anos afins,
Longe das invejas, da mesquinhez putrefacta!
As suas azeitonas ainda apetecíveis
Eram reflexo da sua longevidade saudável
Do seu exemplo de transparência!
Quer fizesse bom ou mau tempo,
A rainha das árvores da minha terra
Apresentava-se no recanto da humildade,
Sem poder ou arrogância,
E não precisava sequer de mandar,
A sua simplicidade bastava
Para captar a admiração e o respeito
De todos que a ansiavam preservar,
Obedecendo estes a todos os cuidados
Que esta exigiria,
Aguardando em troca
O salário em forma de fruto.





Poema nº 273 - À tua procura


À tua procura
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


À tua procura
Já percorri o mundo!
Qual Marco Polo apaixonado
Devassei as muralhas da China,
Subi ao cume de Machu Pichu,
E até trilhei o Saara,
Mas tu não estavas lá.
Tentei de novo:
Fui até às Coreias,
À exótica Amazónia
E até às Cataratas do Niágara,
Mas tu não estavas lá.
Consultei adivinhos e anciãos
E todos me disseram
Que estava perto da tua descoberta:
Segui os seus conselhos
Fui até ao fundo dos mares
Mas tu não estavas lá!
E eu, peregrino da tua estrela,
Comecei a tombar no desânimo,
Deixei-me hipnotizar
Pelo vazio da tua ausência,
Pior do que isso,
Habituei-me a não te procurar:
Enclausurei a minha vida
Reencarnei num monge resignado
Que se prostrava diante de estátuas ocas!
E a minha sagrada escritura,
Que eras tu,
Sumiu-se por entre os sonhos:
Rochas de tentações inertes
Sepultadas num ilhéu agonizado.