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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

domingo, 14 de abril de 2019

Poema nº 338 - Máscaras Ideológicas


Máscaras Ideológicas 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Infiltro-me por uma multidão
Ouço gritos de rancor
Os mercadores estão em alvoroço
As taxas foram inflacionadas,
E eu que sempre fui comunista
Fiel à defesa dos mais pobres,
À igualdade do tratamento social
À promoção da camaradagem fraterna!


Entrincheiro-me agora num palácio
Os poderosos simulam mudez diante da agitação,
Omitem os receios de uma mudança,
E exigem mais dinheiro ao povo,
E eu que sempre fui capitalista,
Rendido à directriz máxima do lucro
À promoção do mérito individual,
Ao engrandecimento da inovação!


Vejam como a realidade é carnavalesca,
Molda-nos a cada momento,
Agora não sou comunista nem capitalista
Se o fui, apenas o teatralizei por instantes,
Tornei-me num corpo estranho deste conflito
Não tenho ideologia ou máscara,
Esquivo-me do messianismo político hodierno,
E miro o nevoeiro, à espera de D. Sebastião!





Imagem meramente exemplificativa retirada de: http://controversia.com.br/7734

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Poema nº 337 - Silêncio Mendigo


Silêncio Mendigo 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Sou o silêncio
Que não te apraz
Quanto te sentes só
Amparada apenas pelos teus pensamentos
E pelas súbitas pulsações
Que dispensas no horizonte vazio!
Não me vês,
Mas sentes-me,
Não me amas,
Mas queres-me a teu lado,
O teu não
É um sim camuflado
Preferes a razão às sensações
E o futuro está ali ao virar da esquina,
Bate-se uma porta,
Soltam-se uns murmúrios,
Alguém se aproxima,
Não, não sou eu,
Oxalá não seja,
O destino vetou o nosso romance:
Tu e eu somos sombras
Perdidas e carentes,
Silêncios que se cruzam
Nos ares da saudade,
Gritos reprimidos da noite fria
Paixões exiladas pela negação
Caminhantes de desertos longínquos,
Assim é, assim será
Até que o mundo se esqueça de nós!





Poema nº 336 - Chuva Sentimental


Chuva Sentimental 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O céu vai-se trajando de negro
E as sombras, filhas da luz artificial 
Depositam em mim o desassossego 
Um amor granizado e superficial. 

Rebentam dois ou três trovões
Rasga-se a cúpula dos sonhos
Não há espaço para anfitriões
Sobram espectros medonhos!

E nisto, sei que me abandonei
Vi a resignação como amnistia
Perdi o futuro que não sondei!

Mas de nada servem as lágrimas
Já bastam os aguaceiros nocturnos
Pingas que aliviam corações soturnos.





Poema nº 335 - Brisa Solitária


Brisa Solitária
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


A brisa é uma melopeia
De um tempo nostálgico
Que nos invade a alma
Hipnotizando a nossa disposição
Anestesiando o pessimismo,
E maravilhados
Não percebemos nada
Porque o incógnito é perfeito,
Enigmático,
E a música, invisível,
Mas que conforta os peitos
Dos futuros esquecidos.
Dançamos o tango da vida
Com pares aleatórios,
Mas somos carne, quase pó,
Perante o Universo.
Ah! Quando o tempo muda
E adere à música pesada
Os ciclones devastam-nos
E uma vez mais
Perguntamos:
Porquê?
Não há respostas,
Não há verdades absolutas,
Apenas melodias que ficam
Sentimentos que voam
Corpos que expiram,
Brisas que aliviam o pranto
E a descrença permanente!





Foto da autoria de Lola Martínez Sobreviela em: https://www.fotocommunity.es/.../brisa-lola.../41487906

Poema nº 334 - São Teotónio


São Teotónio
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Teotónio caminha até Jerusalém
Liberta-te,
Voa em direcção ao sonho
Que ilumina a tua vida:
Sê a águia dos teus princípios,
E sob as plumas da coragem
Sobrevoa o céu que te inspira
Mas nunca te olvides
De descer também à terra
Porque é nela que nasce a glória!
Aceita a missão que te confiaram
Cuida dos doentes e dos pobres,
Afaga as dores dos peregrinos,
E estarás em Jerusalém
Pela terceira vez
Sem que dês conta disso.
Já diziam os conselheiros do além:
Para quê conquistar o mundo
Se perdemos o nosso interior?
Para quê entrar em Jerusalém
Carregando a ambição e o poder?
A ti, Teotónio bastar-te-à seres autêntico
Não precisas de ser bispo
E tu sabes disso!
Sê tu mesmo,
Sê à receita final das terras em que viveste:
Não recuses a infância genuína em Ganfei,
Não omitas a sabedoria de Coimbra
Nem menosprezes a frugalidade de Viseu,
Mas agora voa para a Terra Santa,
Nos teus sonhos
Em pleno Mosteiro de Santa Cruz,
Mas não temas a negação da realidade
O teu exemplo canoniza o solo
E inspira procissões de crentes!








Nota-Adicional: São Teotónio viveu entre 1082 e 1162. Foi o primeiro português a ser canonizado em 1163. Nascido em Ganfei (Valença), estudou em Coimbra e foi prior de Viseu. Foi duas vezes a Jerusalém, viagens desgastantes e arriscadas, tendo em conta que as distâncias eram mais difíceis de percorrer na Idade Média. Tentou fazer uma terceira viagem a Jerusalém porque tinha o sonho de viver lá definitivamente, mas terá sido demovido dessa ideia/sonho por D. Afonso Henriques, rei de Portugal, D. Telo, arcediago de Coimbra, e D. João Peculiar, bispo do Porto. Ficaria em Portugal onde acabaria por fundar, com mais 11 religiosos, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, do qual foi eleito o primeiro prior e ali viveu o resto da sua vida, sempre com o ressentimento de nunca ter passado o resto da sua vida em Jerusalém mas com a convicção de que ficou a auxiliar o seu povo. Em jeito de curiosidade, refira-se ainda que São Teotónio foi convidado durante a sua vida a ser bispo de Viseu e Coimbra, mas sempre recusou porque sempre quis ser um peregrino ou ajudar os mais necessitados.

Poema nº 333 - O Castelo dos Sonhos


O Castelo dos Sonhos 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Guardas, baixem a ponte levadiça
Para acolher o cavaleiro da noite
Órfão de qualquer filosófica premissa
Bastardo molestado ao ritmo do açoite!

Deixem-no entrar no milenar castelo 
Acendam lareiras que o aqueçam
Que hipnotizem o seu esgar singelo
Antes que os deuses o escarneçam!

Que o subconsciente alivie o seu pesar:
Que ele possa ser o herói do seu sonho
Aquele que todos possam idolatrar!

E então, desde a maior torre de menagem,
Por entre as ameias solitárias e desconexas,
O sentinela régio lhe prestará vassalagem!






Poema nº 332 - Mulher Perdida


Mulher Perdida 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Conquistei torres e muralhas
Mas "cego" perdi-te no arrabalde
Nessa odisseia louca de batalhas
Em que não obtivera respalde! 

Sei que ainda escuto o teu sopro
O consolo da minha alma guerreira
Que acusa as mazelas do corpo
E requer a tua protecção pioneira!

Das tuas mãos, nasce a harmonia
Que acalma o fôlego incessante
E coroa de prazer a anatomia! 

Talvez tenhas sobrevivido ao mundo
À peleja dos homens gananciosos
E sejas agora um diamante jucundo!