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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

domingo, 28 de junho de 2015

Poema nº 95 - O Azar do Garanhão Faustino



O Azar do Garanhão Faustino
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Faustino era cá um grande borracho
Um homem cheio de dinheiro e lábia
Que via a mulher como um ser baixo
Sobrando só a sua sensualidade doutrinária.

Ele revelava ser o pior dos machistas,
Privilegiava o exclusivo e infindável prazer
Banalizava o sexo como meio de lazer,
O móbil das suas sombras egoístas. 

Depois de galantear diversas donzelas,
Conheceu Rosa, uma jovem deslumbrante
Mas portadora duma ciumeira torturante!

Um dia, o Don Juan acordou bem cedo,
Mas já sem qualquer direito ao abono:
Com uma cirurgia, a Rosa rematou o enredo!

Poema nº 94 - O Desterro da Cara Metade


O Desterro da Cara-Metade
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Queria conhecer a árvore primorosa
Sim, aquela que me foi predestinada
Pelas imensas constelações do Firmamento 
Para me aconchegar nesta era conturbada. 

Decerto que ainda não te descobri,
Senão brilharias com semelhante fulgor
Conquistando logo os meus olhos húmidos
Com os teus belos frutos que saram qualquer dissabor.

Vasculhei por uma infinidade de arbustos,
Penetrei em diversos e longínquos pinhais
Mas não detectei o teu perfume e cerejas celestiais!

Fui explorador como Marco Polo, encetei várias tentativas,
Mas deparei-me com a desesperante burocracia da vida,
Que o nosso desencontro alimenta com as suas partidas.




 

Poema nº 93 - Boca Incapaz


Boca Incapaz 
(Soneto de cariz irregular da autoria de Laurentino Piçarra)


Não tenho a coragem necessária para te dizer
O quão bela tu és, e que me fazes crescer
Na fantasia, nos floreados sonhos de cada dia
Mesmo quando me encontro confinado numa abadia!

Só por ti, valeu a pena vir a este mundo,
Nunca olvidarei o teu sorriso contagiante 
Que esboçavas, perante mim - um pobre vagabundo
Reduzido a um perfil social decerto melindrante. 

Não, nunca te confidenciei a minha paixão,
Convencido de que jamais possuiria argumentos
Para conquistar a mulher majestosa do meu coração!

Se soubesses o quanto os teus olhos brilham,
E que os teus longos cabelos pretos me arrepiam, 
Reconhecerias que és um fenómeno ultra-natural!

A tua elegância certifica o astronómico pedestal
Que ocupas com uma irresistível sensualidade ninfal
Fazendo de mim - teu súbdito silencioso mas leal!





Desenho exemplificativo duma deusa (irlandesa) retirado de: http://nephalasuniversomgico.blogspot.pt/2013/02/deusa-morrigan.html 

Poema nº 92 - O Silêncio da Estação Derradeira


O Silêncio da Estação Derradeira
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Escuto apenas o eco do vazio
Que penetra a minha pobre alma
Causando-me um sério arrepio
Nesta desconcertante calma.

O impasse atormenta-me a vida!
O comboio nunca mais chega
Para me ceder a esperada guarida 
E fugir ao destino que me verga!

Encontro-me abandonado na estação:
Onde impera a impávida escuridão
Aliada ao eterno silêncio do nada.

Não avisto luzes nem sequer corações!
Sou afinal cativo nesta última paragem:
Perpétua e indiferente às emoções.




quarta-feira, 24 de junho de 2015

Poema nº 91 - O Legionário Romano de São Cucufate


O Legionário Romano de São Cucufate
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Palmilho os carreiros da história,
Munido de uma espada reluzente
Canto a Júlio César a minha vitória
Revelando a minha alma impelente!

Na villa reside um senhor audacioso
Que se banha em termas relaxantes
E brinda cada convidado primoroso
Com vinhos de talha exuberantes!

A mansão é um hino à arquitectura
A sua dimensão um poema à opulência!
As fachadas e as varandas de irreverência
Preenchem um cenário de larga fartura.

Do segundo piso, ele avista a paisagem
Acompanhado de sua mulher graciosa
Que exala uma fisionomia vistosa:
É fruto proibido que gera miragem!

No vetusto templo oramos a Baco
Para que zele pelos nossos vinhedos
Emprestando a firmeza de seu braço
Libertador dos mais remotos medos!

As águas dos tanques saciam a sede
Dos criados que laboram com ardor
Naquele lagar prensado de sabor
Que puro vinho ou azeite expede!

Na entrada, vejo uma oliveira frondosa
Que derrama e entorna lágrimas de Pompeia
No meu agitado vulcão que lava galhardeia
Por causa duma bela mulher de Pax Julia!

Ó Vénus, ajudai-me na busca pelo amor
Já que o meu amuleto não atrai sorte
Mas sim uma intensa e horrenda dor
Que me abandona à beira da morte!

Mas não há tempo para o profundo sentir!
Empenho-me na missão que me confiaram:
Proteger o que outros ousaram produzir,
Salvaguardar as inovações que brotaram!

O meu ofício é de moderado esmero
Não vislumbro salteadores na região:
Subsiste pão e paz neste sadio tempero
E uma aragem que serve de inspiração!

Um dia, perto do aqueduto, topei um gato
Desmaiei com o calor e tive uma visão:
Nesta terra, nasceria um futuro mosteiro cristão
E seria também berço dum escritor de talento nato!

Acordei socorrido pelos criados apreensivos
Acalmei-os e disse-lhes que éramos uns vencedores
Porque residíamos numa terra pré-destinada
A almejar os píncaros dos divinos louvores!




Villa Romana de São Cucufate (Vila de Frades)

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Poema nº 90 - Mistérios da Ilha da Beautitude


Mistérios da Ilha da Beatitude
(Soneto da minha autoria)


No Pacífico, subsistia uma ilha exótica
Adornada por palmeiras colonizadoras,
As quais submetidas pelas ventanias sedutoras
Procediam à sua indescritível dança erótica.

A vasta maré penetrava pelo areal pérfido
Que negara a muitos náufragos a salvação
E cujas dunas ocultavam um tesouro férvido
Onde divas indígenas pontificavam sua predilecção.

As pérolas desta ilhota não valiam milhões,
Mas sim infinitos e inenarráveis corações
Prostrados diante daquelas formas femininas.

A generosidade e a inocência daquelas mulheres
Geravam um preenchido turbilhão de sentimentos
Que vulgarizava largamente o El Dorado dos avarentos.





Poema nº 89 - Elogio da Contradição


Elogio da Contradição
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


A vida é um piano de notas inexploradas
No qual o pianista suprime a monotonia
Revestindo cada música com sua sinfonia
Naquele seu palco de sombras descerradas!

Coerência a mais no poeta é desilusão
É forçá-lo a um só padrão de sentimentos
É abafar a magia da sua contradição
É radicá-lo num enclave de lamentos.

Eu assumo discordar de mim mesmo!
Chamem-me louco! Talvez mereça!
Mas que jamais a minha alma empobreça!

Os dias não fogem à sua própria identidade:
Alguns transmitem-nos um sorriso solarengo
Outros legam-nos nuvens de fragilidade!