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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 5 de setembro de 2015

Poema nº 119 - A Princesa do Areal


A Princesa do Areal
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Ó Mulher,
Perfeita escultura de areia,
Porque jazes tu nessa praia erma
Trajada de imensas flores e folhas?
Não deverias ser tu um segredo dos céus?
Não deverias ser tu um vulcão em cada coração?
Não deverias ser tu a inspiração do vento?
Ou até a razão do nosso acto de contradição?
Mas eu vejo-te solitária nesse vasto areal,
Inacessível e impenetrável,
Encoberto por falésias terríficas:
Autênticas muralhas inexpugnáveis
Que nem Ulisses nem Hércules demoveram!
O mar, teu irmão confidente, protege-te,
Não deixa que ninguém se aproxime de ti,
Frustrando qualquer aventureiro ou colonizador,
Seja ele Cristóvão Colombo ou Vasco da Gama!
Ao longe, fito os teus humildes adornos,
Que jamais ensombrarão a tua formosura,
Majestosa, singular e inatingível!!!
Durante o dia, sei que te refugias no sonho:
Nesse denso sonho que é a tua verdadeira epopeia,
Onde visitas castelos e torres de areia,
Em que domas os sentimentos de imperadores
Sim, tu, poetisa ilustre das suas cortes,
Que compões canções ao mar e ao vinho!!!
Por fim, à noite, deixas as tuas empíricas fantasias
E acordas, naquela praia, para o mundo terreno:
O mar fiel que te resguardou durante o dia
Pede-te agora que veles por ele,
A Lua gaba-te a tua incontestável pureza
Que o Sol galante ambiciona deflorar ao alvorecer!
Mas tu és decerto diferente das outras,
Não te curvas perante ninguém,
És senhora do teu destino, da tua verdade,
Do teu recôndito modo de viver!!!
E eu, pobre desgraçado, que ansiava ser teu escultor,
Adormeço, àquela hora, no meu modesto quarto
À espera de ser digno do maior privilégio:
O de seres parte integrante dos meus sonhos!




Escultura da autoria de Thomas Koet

Poema nº 118 - O Apóstolo de Baco


O Apóstolo de Baco 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Ó Baco,
Tu que és o Deus mais venerado,
Enche o meu copo com o teu brioso vinho!
Concede-me essa poção das mil maravilhas
Que distancia o homem das amarguras da vida,
Que glorifica a existência do paladar
Que adoça inclusive o mais pálido pensador!
Imbuído da sua simbiose indescritível,
Aqui estou eu apóstolo farrapeiro
Para proferir a minha mágica homilia
Nesta taberna recheada de talhas barrigudas.
Ó estimado vinho, junta-te a nós para assim:
Entoarmos o sublime cante alentejano,
Lavrarmos poemas às donzelas vilafradenses,
Dedicarmos panegíricos aos sultões do Alentejo,
E revestirmos as planícies de múltiplas cores!
A meu lado, estão o Chico, o Manel e o Augusto!
Todos já ultrapassaram o ritual com distinção,
Digeriram três copos em poucos minutos,
E mesmo só possuindo a quarta classe,
Escreveram versos tão magníficos como os de al-Mutâmide,
Observaram o Universo com a mesma genialidade de al-Khayyam
Tornaram-se filósofos e polímatas como Avicena,
Graças àqueles goles consagrados
Que transformaram aquela mesa humilde
No mais altivo altar do honrado saber!
Mas chegara a altura da nossa missão ascética.
De sairmos e deambularmos pelos ares
Desta pitoresca terra de videiras e pomares,
Deixaremos assim a taberna, o nosso sacerdócio,
E lá iremos nós de ruela em ruela, cantar o nosso fado,
Nesta nossa peregrinação pelas pedras da calçada!
O nosso andar é semelhante ao dos frades capuchos,
Mas dizem que somos certamente mais originais!
Pregamos o dom natural de Baco em Vila de Frades,
Ó se ele alguma vez existiu, decerto que aqui nasceu!
Quantos admiradores ele não conquistou na terra de Fialho?
Quantas intelectualidades não beberam aqui da sua fonte?
Quem não se embriagaria nas profundezas do conhecimento?
O nosso culto propaga-se pelo mundo inteiro!
Ó bendito crer que não é penoso, mas saudável!
Nenhum de vós precisa de orar ao abençoado Baco
Para que ele seja o vosso protector;
Se desejardes louvá-lo com magnificência
Basta beber da sua obra e honrar o seu sabor!
Que o digam os romanos na sua adega de São Cucufate!
Que o digam os monges que também produziram vinho!
Que o digam as gentes desta terra milenar!
Se Vila de Frades tivesse um grandioso rio,
Ele seria da cor dos seus vinhos palhetes,
A maior fonte de inspiração aos olhos do Mundo,
Onde homens sedentos pela receita de Baco
Mergulhariam nesse inenarrável paraíso
Habitado por ninfas, filhas do Deus Baco,
Que ostentariam nas suas testas grinaldas de videira,
E se entregariam aos audazes aventureiros
Acompanhadas de largas taças de uvas:
Uvas doces, sensuais e curandeiras,
Uvas dessa terra à qual chamam Vila de Frades.





Foto da autoria de Manuel Carvalho



Nota-extra: Os vilafradenses também são conhecidos como "farrapeiros" e daí a utilização desta designação no nosso poema. Estes versos são assim dedicados ao povo e às tradições de Vila de Frades.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Poema nº 117 - O Rio da Saudade Vindoura


O Rio da Saudade Vindoura
(Quintilhas da autoria de Laurentino Piçarra)


Mescla as tuas lágrimas doces
Com as minhas, fúteis e salgadas:
Vamos chorar juntos a futura saudade:
Meu amor que estás de malas aviadas
Para o estrangeiro da fugaz felicidade!

Vamos gota-a-gota encher um rio de dor
Que nos irá separar com a sua frieza
Deixando-nos em margens opostas
Amargurados, votados à infame tristeza,
Impotentes perante o destino detractor!

Com um cântaro simples e alaranjado 
Mergulharemos a boca na água agridoce,
Que fará reemergir as nossas recordações 
Partilhadas à distância dum adeus forçado
Que tortura as nossas íntimas emoções.

Quererei afogar-me nesse rio de nostalgia,
É nele que te guardarei com amor e ternura,
É nele que a neve terá inveja da tua alvura,
É nele que escutarei o ciciar das sereias 
Que se compadecerão da minha letargia!

Mas à noite irei ver-te nas águas do rio:
Serás reflexo puro duma estrela cintilante, 
Dum cometa que corre louco e galopante 
Para os braços do teu cúmplice amante:
Nesse trocar de beijos na concha da meia-lua!




Imagem retirada algures da Internet, Pesquisa do Google Imagens

Poema nº 116 - A Donzela Montanhesa


A Donzela Montanhesa
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


A minha indefinição brumosa 
Logo se desvaneceu no horizonte
Quando te vi, mulher formosa
Rainha do mais altivo monte!

O teu cabelo de âmbar semeava
Grãos de ilusão bruscos e letais
Que irrompiam em inveja declarada
Dos que aspiravam aos teus recitais.

Mas a tua boca era um verso solto:
Virgem, de rígida solidão conventual,
Que almejava, numa noite mágica, rimar!

Queria ser eu a alcançar o cimo da serra,
Para me prostrar no teu mosteiro pagão,
E beber do vinho jorrado do teu coração!




Imagem retirada algures da Internet/Pesquisa Google Imagens

Poema nº 115 - Noite Insaciável


Noite Insaciável
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Eu vivia as noites em sofrimento,
Porque não me vinhas abraçar
E depositar teus beijos lânguidos
Neste meu corpo que é do teu velar!

Engolfava-me nos lençóis depressivos,
Na monotonia do meu ser mórbido
Que enxergava devaneios distorcidos
Embalsamados por um odor pútrido.

Titubeava com receio do escurecer:
De jamais nascer um dia afortunado
Em que tivesse o privilégio de te rever!

Senti que a Lua conspirava contra mim,
Gorando as torres do meu castelo ardente, 
E eclipsando os teus altares de jasmim!




Imagem retirada de: http://sonyfagundes.blogspot.pt/


Nota-extra: Utilizei a palavra "embalsamados" no sentido de "aromatizados".

Poema nº 114 - A Idosa da Esquina


A Idosa da Esquina
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Uma idosa mendigava na cidade,
Vivera ela oitenta Invernos dolorosos
Sem auferir ternura ou generosidade
Da sociedade de tiques invejosos!

A sua reforma era uma miséria,
Fruto pobre do seu árduo viver
Corrompido pela egoísta bactéria
Que gradualmente a faz morrer!

Foram tantos anos de costureira
A confeccionar as melhores vestes,
Mas a morte impiedosa e traiçoeira
Levou-lhe o marido e o único filho.

E ali estava ela na esquina tristonha,
Lacrimejava ao pedir a sua esmola
Ouvia nãos daqueles que davam à sola
E sins dos que percebiam a sua vergonha.

Por ela passou um político arrogante,
Pedia votos de glória para o seu partido,
Mas quando a viu com olhar desnutrido,
Ignorou-a, julgando ser alguém errante!

Por ela também passou um juiz frívolo,
Que nunca na vida prendera um ricaço,
Mas que logo lhe disse para ir trabalhar
Porque é absolutamente ilegal mendigar.

Por ela passou um empresário de renome,
Riu-se na cara da desgraçada senhora,
E logo pensou "mais uma mandriã sem nome"
"Parasita, vai morrer longe e sem demora!"

Por ela passou por fim o nosso Deus:
Aliviou-a da injustiça e do calvário terreno,
Voltando ela a reencontrar o amor dos seus
Naqueles céus abençoados pelo Nazareno!





sábado, 15 de agosto de 2015

Poema nº 113 - O Voo da Águia Cazaque


O Voo da Águia Cazaque
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Voa águia, voa pelas montanhas
Procura o alimento da realização
Nesta vida cheia de artimanhas 
Onde tu és ritual de superstição.

Voa águia, voa pelas montanhas,
Desfila as tuas garras de ataque
Concretiza as mais épicas façanhas
E volta ao braço do caçador cazaque!

Voa águia, voa pelas montanhas,
Auxilia o teu leal confidente em terra,
Traz-lhe alimento das áridas estepes
E faz afugentar os fantasmas da serra!

Voa águia, voa pelas montanhas, 
Com o espírito de Genghis Khan 
E a visão exímia de Marco Polo
Reivindica o céu que te prometeram.

Voa águia, voa pelas montanhas,
Exibe a tua plumagem dourada
A tua natureza imperial e honrada
Que consolidas nas tuas campanhas!

Voa águia, voa pelas montanhas,
És deusa sobre asas luminosas
Companheira do teu povo nómada
Que reconhece em ti sagas vitoriosas.




Direitos da Foto - Joel Santos Photography



Nota de contextualização - A arte de caçar com recurso a águias é um costume milenar da comunidade cazaque que vive no Cazaquistão e em algumas partes da Mongólia (a tradição destaca-se curiosamente mais nesta última região). A relação entre o homem e a águia é muito íntima, e assume aí uma dimensão mística. A águia dourada é um predador com prestígio pois caça lobos, raposas, coelhos... e de facto, os seus serviços são cobiçados pelo povo nómada que aí vive. A sua plumagem pode não ser necessariamente dourada, embora tenha cores algo próximas. Também é um símbolo da bandeira do Cazaquistão, tentando recordar o domínio do imperador mongol Genghis Khan durante a era medieval.