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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Poema nº 132 - Joaquim Promessas


Joaquim Promessas
(Poema humorístico da autoria de Laurentino Piçarra)

Ó povo,
Acordai rapidamente!
Vem aí na sua lambreta,
O Joaquim Promessas,
Presidente da Aldeia,
Vulgo mentiroso compulsivo
Que do demónio recebeu remessas!
Ele atira alegremente "notas" para o ar,
Mas afinal são apenas notas de papel
Onde consta o seu programa eleitoral
A sua lábia execrável e infiel!
Na sua caravana partidária,
Os seus amigos "lambreteiros" vêm todos atrás,
Agitam bandeiras rotas,
Esboçam sorrisos hipócritas,
Entregam canetas com o nome do presidente,
Que, à semelhança deste último,
São do tempo do Jurássico Park,
Gastas e acabadas,
Incapazes de pôr o preto no branco!
Mas as velhinhas da aldeia
Andam todas doidas com o cio,
Abandonaram logo as depressões
Para se renderem ao charme do Joaquim!
Lá vão elas com o seu "bigode" gótico
Dar uma beijoca no seu presidente,
E ele responde sempre - "presente"!
É assim a caça ao voto do Joaquim,
Presidente há 20 anos
Com mandatos multifacetados:
Ora Governa para ele,
Ora Governa para a família dele,
Ora Governa para as velhas amantes!
Oh! Dizem os seus acérrimos defensores
Que para combater a desertificação da aldeia,
Criou um bordel de natalidade,
Diz ele que foi uma iniciativa com originalidade,
Um projecto messiânico para salvar o futuro da aldeia,
Além de alavancar a sensualidade do mulherio!
Os seus apoiantes gabam a aposta na gastronomia local:
Com os seus dotes culinários, o chef Joaquim Promessas
Cozinhou os melhores pratos aos amigalhaços,
Cedeu-lhes os tradicionais tachos da política!
Caramba - Como eles estão gordos!
Até o saudoso Buda seria magro ao lado deles!!!
O Joaquim Promessas também tem um bom coração,
É altruísta como poucos,
Ofereceu trocos a um polícia para não ser multado,
Acabou com a miséria na sua aldeia
Ao convidar os sem-abrigo a rumarem para outras terras,
E empregou gente nova no seu negócio reprodutivo!!!
Outros vêem-no ainda como um homem culto
Por atribuir condecorações da arte "bordelesca"
Às mães dos presidentes das freguesias vizinhas!
Brum... Brrrumm.... Brruuuuuummmmm
Como acelera, o político vaidoso na sua lambreta,
Vai em velocidade proporcional ao aumento da carga tributária,
Acena a todos em cada ruela,
A fanfarra curiosa segue atrás do cortejo!
Entretanto, Joaquim arriba à praça da terra,
E acompanhado do seu apelido - Promessas,
Ascende triunfante a um palco central
Para proferir com ênfase o seu discurso!
Oh! Ele diz que vai acabar com o desemprego,
Apoiar as colectividades que sejam lucrativas,
E construir um hospício para os seus opositores!
Não, não pode ser normal dizer-se mal do Joaquim Promessas!!!
Todas as eleições anteriores confirmaram sempre essa premissa.
E eu, Laurentino, que escrevo este poema, sofro dessa negação,
Dessa patologia demente que me corrói!
Sou louco porque não sou como a maioria popular
Que é fiel ao infiel,
Que presta vassalagem à mentira,
Que se vende por poucas moedas,
Que vota no desconhecido!
E que dizer do futuro?
Eu talvez num hospício isolado do mundo,
E o povo ainda vendado pelos Joaquins, Serafins e afins.
Será justo!






Poema nº 131 - Perdição Nas Areias



Perdição Nas Areias 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Nas dunas do teu peito,
Soprou o areal revolto,
E eu, ciclone imperfeito,
Réu do teu prazer absolto, 
Camuflei teu corpo proibido!

Serpenteei pelos teus trilhos
Como um beduíno insaciável
Que ambiciona ardentes sarilhos
Nesse deserto de noites mágicas 
Onde reluz o teu oásis irrebatível!

Nesta jornada pelo teu louvor,
Degustei o sumo das tuas uvas,
Vinho afrodisíaco e sedutor
Derramado pelas tuas cúpulas
No meu paladar jovial e carente!





Poema nº 130 - A Cabana dos Sonhos


A Cabana dos Sonhos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Neste refúgio modesto e solitário 
Indago-me sobre o quão bela serias,
Como contracenarias no meu imaginário
Nesse semear de beijos pelas lezírias.

Aquela cabana seria o manto do amor:
Guardiã sagrada de eróticos segredos
Perfume ardente dum furacão de fluídos
Canto inocente de pardais pelos arvoredos!

Aquelas paredes de troncos raquíticos 
Rangeriam nuas e recheadas de êxtase,
Neste cruzamento de olhares eclípticos!

Seríamos passado, presente e futuro,
Divagaríamos pelos nossos pântanos,
Não fossemos nós um sonho prematuro!




Imagem - Gettyimages

Poema nº 129 - Carta da Perpétua Saudade


Carta da Perpétua Saudade
(Quintilhas da autoria de Laurentino Piçarra)


Recebi a tua carta de despedida,
Trazida pelo meu pombo-correio:
Li-a ao vento desta vida fingida 
Lavei-a com as lágrimas dos céus
Entreguei o meu luto ao devaneio.

Aquela carta não lograria reenviar,
A sua verdade era incontornável:
O seu conteúdo inegável de afrontar,
Tornando a minha dor insuportável,
Ao abrigo dum silêncio atroz e rebelde.

O destino não nos permitiu mais letras,
Não tolerou mais partilhas de carinho,
Uniu-nos sim no calvário da separação:
Eu vivo e louco por te voltar a abraçar,
E tu, nessa carta, "morta" por me beijar!




Poema nº 128 - O Santuário Principesco da Barrinha


O Santuário Principesco da Barrinha 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Barrinha,
Princesa que reinas entre as aves,
Podes já não ter o teu porto medieval,
Ou até a tua ponte oitocentista, 
Mas ainda preservas o teu palácio recôndito 
Que permanece sublime e inviolável!
A cada luar, assisto ao abrir das portas,
Vejo-te a sair dos sumptuosos aposentos,
Contemplo a tua nudez perfeita
Os teus olhos recheados de verdura,
O teu caminhar tímido e harmonioso,
A tua alma que irradia flores de pureza
O teu perfume que contagia a fauna!
Vejo-te a percorrer por entre os caniços,
Rasgas com brio a densa vegetação
E assim diriges-te ao teu santuário de culto!
Aí lerás os escritos de inúmeros intelectuais
Que se deixaram inspirar pela tua candura,
Sejam eles botânicos, biólogos, poetas ou historiadores!
Naquele templo, cintila a tua luz primorosa,
Só convidas a entrar os teus estimados animais,
Os únicos que te oferecem lealdade e sinceridade,
Que respeitam a tua intimidade, a tua ternura!
Assim és venerada por águias, garças e gaivotas,
Ou reverenciada por tainhas e enguias!
Contaram-me ainda que a tua aura trespassa o mundo,
Gerando uma infinidade de novas constelações!
Sabendo eu do teu secreto poder divino,
Da mítica magia que logras espargir,
Da fonte que emprestas ao meu enlouquecer,
A ti, amada Barrinha, abro o meu coração,
E sem divergir das minhas crenças mundanas,
Confesso este meu sonho de me prostrar diante do teu altar,
De partilharmos juntos os nossos segredos,
De bebermos da água purificadora do teu cálice de cristal
Para depois da morte, me tornar parte de ti!




Barrinha de Esmoriz
Foto do Movimento Cívico Pró-Barrinha


Nota-extra: Se no anterior poema nº 21 - "O Assombrado Cais da Barrinha" procuramos elencar a passividade e a negligência do ser humano no que diz respeito às promessas vãs de reabilitação ou despoluição deste sistema lagunar (com uma referência final ao "príncipe oculto e maquiavélico", isto é, o vulto da inércia e da escuridão), neste novo poema, optamos por valorizar o lado mais belo da Barrinha, lagoa que é agora personificada com o perfil de uma princesa deslumbrante e encantadora. Não basta apenas denunciar o que está mal nesta lagoa, como também é nosso dever elogiar as suas qualidades. A Barrinha de Esmoriz constitui um motivo de orgulho para as comunidades de Esmoriz e Paramos, devido à sua biodiversidade em termos de avifauna.

Poema nº 127 - Versos reservados ao Mestre da Poesia Oriental


Versos reservados ao Mestre da Poesia Oriental 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Omar Khayyam,
Esqueçamos as eras que nos separam,
Aceita de mim esta taça de vinho:
Brindaremos às rosas do florido prado,
Cortejaremos as tulipas inebriantes,
Observaremos a magia dos astros
E integraremos o amor em equações cúbicas!
Ah! Este vinho é mesmo curandeiro
Remédio amargo que sara as desilusões
E que seduz em arte os modestos corações!
Neste campo, achegam-se as donzelas,
Chovem pétalas dum infindável prazer,
Correm rios de beijos ardentes e ilimitados,
Irrompem sementes neste rebolar íntimo
E gemem timidamente vulneráveis galhos de árvores!
É neste "paraíso" que nos achamos, Mestre Omar:
Ora a filosofar sobre os mistérios da existência,
Ora a desfrutar dos lazeres da vida quotidiana
Porque é a única que tomamos como certa!
Mas não pensemos mais no destino indecifrável,
Glorificaremos sim as mulheres e o vinho
Que preenchem o nosso imutável vazio!






Poema nº 126 - Paixão Além-Mar


Paixão Além-Mar
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Desmintam-me os sóis de lucidez
Ou até as luas do teu sereno olhar 
Se este meu almejo de te adornar
Rima com o teu astro de polidez!

Sonho ser o teu livro mais sagrado:
Gravitarás em torno do meu respirar
Deflorarás cada letra do meu desejar
Moldarás o meu querer desregrado!

Abraçados, estudaremos física quântica 
Recitaremos versos de amor platónico,
Desfilaremos sós pela maresia atlântica!

E aí sim, princesa do meu ar ofegante,
Segredaremos pelas ondas do oceano
Que reflectirão o teu arco-íris radiante!