Reabre os teus olhos, Inês
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)
Reabre os teus olhos, Inês,
Que despontam um azul vivo
Pintado pelos anjos do céu!
Levanta-te desse túmulo
Como uma verdadeira rainha,
Projectando os teus cabelos dourados
Que reluzem loucamente como o Sol!
Liberta-te das rédeas da tenebrosa morte,
Perdoa a infâmia dos teus assassinos
E a cobardia d’el rei D. Afonso IV
Que ousaram derramar teu sangue inocente
No paço do consagrado Mosteiro de Santa Clara!
Reabre os teus olhos, Inês,
Lembra-te daquele dia soalheiro
Em que D. Pedro, o jovem príncipe,
Te mirou pela primeira vez
Com uma veemência vibrante,
Rendido ao teu perfume corporal de jasmim!
Eras apenas uma aia de D. Constança,
Mas a beleza e a nobreza de carácter
Não eram exclusividade dos magnatas
Como muitos se atreveram a insinuar.
Fizeste com que D. Pedro acreditasse no amor,
Insurgindo-se contra a viciação matrimonial.
Reabre os teus olhos, Inês,
É altura de abraçares de novo os teus quatro filhos,
De seres a mãe presente que não te deixaram ser,
De devolveres paz ao rio Mondego que viu a tua dor!
E com essa tua expressão singela,
Ergue-te desse túmulo de mármore,
Beija o rosto do homem que está sepultado à tua frente:
Esse teu amado rei que padeceu da tua saudade:
D. Pedro que, aguardando pelo dia do Juízo Final,
Fez questão de partilhar o sono da morte contigo,
Desejando contemplar, na ressurreição, como primeira imagem,
A tua afável face, o paraíso do teu regaço!
Imagem nº 1 - A paixão de D. Pedro e D. Inês de Castro em pintura.
Imagem nº 2 - Túmulos de Inês de Castro e D. Pedro em Alcobaça (sepultados frente-a-frente).

Nota-Extra - Apesar das suas origens nobres (pertencia à influente família dos Castro que residia na Galiza), Inês de Castro parece nunca ter pertencido, em termos de origem social, à elite dos magnatas (por estes, mencionamos os reis, as rainhas, os príncipes e demais pretendentes ao trono; ou seja, membros da realeza ou da alta nobreza). Inês sempre foi preterida pelas estruturas oficiais que reprovavam o seu envolvimento com o rei D. Pedro. Ela aparece diante de D. Pedro apenas como aia de D. Constança (isto é, serviçal ou dama de companhia desta). É verdade que as suas origens familiares faziam recear consequências para o reino português, mas Inês jamais se comportou como uma magnata ou como alguém que exigia poder absoluto.
ResponderEliminarNota-Extra II - Inês de Castro seria assassinada no Paço da Rainha que se localizava junto ao Mosteiro de Santa Clara. Decidimos optar por versificar "no paço do consagrado Mosteiro de Santa Clara" porque efectivamente este era o paço mais conhecido relacionado com o dito mosteiro, tendo sido salvo o erro mandado construir anteriormente pela rainha Santa Isabel.
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