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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

domingo, 28 de junho de 2020

Poema nº 408 - Indulto da Auto-Estima


Indulto da Auto-Estima
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Os céus indultam os órfãos da sorte
Após as barricadas do quotidiano
Que os convergem para o desnorte
Como notas dum descontrolado piano!

Purgam-se as virtudes e os sonhos
Semeiam-se espirais de impotência
E os querubins harpejam sons enfadonhos
Sem lhes consagrar qualquer deferência.

O segredo é a anarquia das constelações
A renegação da vaga idolatria do sucesso
O abraçar espontâneo das provações!

O sol molda-nos como sãs fortalezas
Pedras impenetráveis do destino
Imunes ao porvir das incertezas!





 Imagem meramente exemplificativa retirada de Deposit Photos

Poema nº 407 - Voluntariado Genuíno


Voluntariado Genuíno
(Soneto da autoria de Laurentina Piçarra)


Intuo-me na poncha de sangria:
Qual é a cor que refaz a tua alma
Quando te dedicas à filantropia
Descartando os holofotes da fama?!

Vozes ecoam pelos salões da elite
Quantos se gabam do seu mecenato
Com o glamour que se lhes permite?!
As esmolas sociais projectam o aparato!

Atolados em riquezas, dizem-se generosos
Articulam discursos florais para os aplausos
E banqueteiam os seus umbigos desejosos!

Mas tu, não: nas zonas esquecidas do mundo
Doas afectos, comida e abrigo aos pobres
Exoneras a tua identidade, o ego infecundo!




Imagem retirada da Agência Lusa (veja-se também: https://www.jm-madeira.pt/)

Poema nº 406 - Universo Racional


Universo Racional
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Se nunca existíssemos
Não haveria universo
Nem tempo ou espaço,
Nada se daria a conhecer!
O que importaria a matéria
Se fosse retalhada de insignificância?
Ou que as estrelas estivessem ausentes
Da apreciação racional?
Que o mundo fosse mundo
Sem albergar a poesia da vida
Os batimentos emocionais
E os templos sãos da Natureza!
Não sei o que a morte nos reserva
Mas vivi para conhecer uma realidade
Um excerto das crónicas eternas
Desse universo em expansão.
Se não tivesse chegado até aqui
Não poderia pensar sequer
E se pensasse nesse vazio dormente,
Não acreditaria em tal milagre!
Vivemos para morrer
Mas não morreremos sem primeiro viver,
E todos temos uma história
Por escrever e contar.
E o que é então o mistério da vida?
Será que o Universo é cego e mudo?
Que somos os anjos que o engrandecem?
Quem depende de quem?





Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google

Poema nº 405 - Esferas e Cilindros


Esferas e Cilindros
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Nada sei sobre gravidade e matemática
Não herdei o dom de Arquimedes
Nem nunca calculei a Circunferência da Terra
Como Erastótenes de Cirene!
No silêncio das esferas e cilindros,
Sentimentos circulam em espirais
Sem encontrarem uma saída
Porque tudo vai e volta
Como se não houvesse fim,
Mas como em tudo na vida
Há esferas incompletas
Cilindros com aberturas
Memórias artificiais
Oriundas do Nada
Que por ali ecoam
Traindo a geometria natural
Daqueles que traçam curvas íntegras
Laborando na matemática pura
Das verdades que nos sentenciam,
E por muito que fujamos do globo,
Ou da nossa esfera interior,
Pouco poderemos mudar,
Somos o que somos,
Mesmo que nos mintamos
A cada dia que passa
Até porque a geometria inacabada
É fácil de desvendar,
Mas quase impossível de completar
Quando não ressuscitamos a cada dia!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://pt.aliexpress.com/i/32864111927.html

Poema nº 404 - Poeta do Bom Vinho


Poeta do Bom Vinho
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Poeta que é poeta
Bebe vinho, e do melhor,
Seja em cálices de pedra
Ou da mais modesta madeira,
Ritual que aquiesce labaredas
Inebriantes aos desejos das almas,
Que anseiam pelo significado maior
Da sua efémera existência.
A escrita tem de ser ardente
Sentida pelos prazeres de Baco,
Abraçada na anarquia do desconhecido,
Expressa ao mais ínfimo contacto
E cada verso tem de ser como um gole
Suave mas determinado
Que ouse tragar o líquido tinto
Combustível que no corpo desponta
Lavrando fogueiras de amor!
Vinhos existem para todos os gostos
Rótulos cada um os emoldura
Tudo é subjectivo para o provador
Que depois de um copo cheio,
Absorve o perfeito e o imperfeito,
Perdendo-se entre as metáforas
Da sua insigne poesia.





Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google

Poema nº 403 - Lençóis de Alma


Lençóis de Alma
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


A quem cedeste os lençóis
Que cobrem o teu espírito?
Se tu os consentiste a alguém
É porque te defines
Na mesma essência do teu convidado!
Não te sintas embaraçada
A matéria não é isenta de afecto
Sobretudo quando alcança o íntimo
Mas por favor, escuta-me:
Não deixes que mão ímpias
Te sujem ao ponto do irremediável!
Os lençóis não são apenas o teu corpo
São também as muralhas da personalidade
Que te moldam diante do exterior!
Não queiras ser de todos
O teu lençol será melhor cuidado
Se for apenas hábito de um visitante
Que viu em ti
O mais belo capítulo de um romance!
O teu lençol continuará na senda da alvura
Resistindo ao desgaste e às nódoas,
Valerá mais que mil tapetes persas
E mesmo assim, não estará à venda
Porque é só teu
E só emprestas
A quem te venera como deusa
Como uma taça de vinho
Que sacia a sede de um caravaneiro
Depois de atravessar o deserto.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.belltent.com.au/wooden-platform-bases-for-bell-tents/

Poema nº 402 - A Mulher do Candelabro


A Mulher do Candelabro
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Sempre que acendo as luzes do candelabro
Tu sobressais por entre os braços de cristal
Sem censurares qualquer ego obstinado,
Plasmando no meu rosto a tua vela celestial.

Iluminas-me, derretes os glaciares de frieza
Intrínsecos ao meu ser que vive do incerto,
Transformas os meus cacos em pura turquesa
Descobres que o tempo pode ser perpétuo!

Sinto uma corrente a mimar os meus cabelos
Um afago que provém de outra dimensão:
O teu primeiro toque perante os meus apelos.

A sala incendeia-se, as cortinas viram a labaredas
Os tapetes voam, e fazes de mim o teu Aladino,
Sumiremos apenas quando o sol acordar as alamedas!





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://es.dreamstime.com/photos.../candelabro-rococo.html


Poema nº 401 - Fútil e Útil


Fútil e Útil
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Hoje o que é fútil
Amanhã poderá ser útil
E vice-versa,
O mundo não nos pede coerência
Porque tudo muda
Nada é eterno!
Será fútil alimentar um amor impossível?
Será útil planear um futuro sempre aleatório?
Será possível manter uma opinião até à morte?
Não me peçam respostas,
Não sou um conselheiro divino
Nem um vendedor de ideologias
Ensinaram-vos muito do que é útil
E esconderam-vos o fútil, o desinteressante,
Mas estes antónimos são amantes à noite
E não é porque os opostos se atraem,
Um dia veremos a Lua, pela última vez,
A nossa individualidade se libertará
Dos turvos espelhos moralistas
Que a sociedade materialista esboçou
E depois…
Não sei, ninguém sabe.
Sinto-me o ignorante-mor da "utilidade fútil"!




Imagem meramente exemplificativa retirada do Google