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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

quinta-feira, 15 de março de 2018

Poema nº 266 - Sonhos Descontínuos


Sonhos Descontínuos 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Sonhei com tudo e com todos,
Mas acordei sempre sozinho
Sem me lembrar das telas
Que o meu subconsciente havia pintado
Nas horas sigilosas do meu sono.
Sei que fui realizador e actor principal
Em todos esses filmes:
Desde vilão a herói,
De pirata a príncipe,
De homem rodeado no divã
Por uma troupe de mulheres
Ou de monge extraviado nos montes
À procura de redenção divina,
Na verdade, fui tudo isso
Mas somente enquanto sonhava,
Porque o despertador,
Esse ominoso filtro da realidade
Raptar-me-ia dessa dimensão criativa,
Sequestrando-me no mundo dos vivos
E anunciando que era cedo demais
Para abraçar o advento dos sonhos infinitos!





Poema nº 265 - O Sol da Minha Galáxia


O Sol da minha Galáxia
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Tu, mulher singela
Que tingiste o teu cabelo
Com a cor do sol,
Eras na verdade o centro da galáxia,
O dogma da minha existência!
Tudo girava à tua volta:
Até eu, o teu modesto Galileu
Mente sábia despertada por ti,
Me rendi à tua graciosidade!
Não, não eras tu que contornavas a Terra,
Mas era sim a própria Humanidade
Que circulava em teu torno
Deixando-se iluminar pelo teu sorriso!
Foste uma descoberta da minha ciência
Uma verdade ousada e quiçá sagrada!
Mas por ti fiquei agora em pranto,
Chamem-lhe capricho ou obsessão:
Tu que eras o meu astro criativo
Rumaste para outro universo,
Como que um cometa na minha vida,
Sem uma derradeira palavra
Sem um sincero adeus!
E eu, na pele de Giordano Bruno,
Deixei que o meu coração ardesse,
Incessantemente,
Na fogueira ilusória do amor,
Fazendo com que as cinzas
Que davam corpo à minha ousada teoria
Se dispersassem pelos vales áridos
Com o vento a sepultá-las
No coração soturno de quem as semeou!




Imagem retirada de: https://pixabay.com/pt
(Adina Voicu)

Poema nº 264 - Arrependimento


Arrependimento
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sou quem tu pensas,
Porque optei por fugir de ti,
Fruto das agruras intensas
De um destino a quem menti!

Eras tu quem me podias salvar,
Mas eu traí-te, fugi do teu amor
Acabei por subestimar o teu olhar
O teu toque simples e libertador!

Procurei ignorar a tua presença
Tentei tornar-te num mero fantasma
Cujas visões irrompiam sem licença!

Mas irremediavelmente tu venceste
Porque a minha censura foi quebrada
Para virar a arrependimento celeste.




Imagem retirada algures da Internet

Excertos de Prosa Romanceada


Prosa Romanceada Ficcional - Excerto I

Ela continua bem viva nos meus sonhos. O seu perfume de jasmim quebra os grilhões que me acorrentam à inerte realidade.
Debato-me todas as noites com uma densa floresta carregada de arbustos e silvados. Terra de ninguém. Passagem de mitos veiculados pelo meu subconsciente. Mas é junto a uma amoreira onde alcanço uma surpreendente iluminação. 
Ali estava ela. Portadora de umas tatuagens resplandecentes e com um semblante amorenado de pureza indígena. 
Ela não me falava, apenas me olhava.
Eu queria dizer-lhe que a amava. Mas ela, bem, ela depois desaparecia, levitando em direcção às nuvens. 
E eu, impávido, perguntava-lhe para onde ela ia? E ela finalmente me respondeu: "Apenas irei para a estação do teu próximo sonho. Até lá ignora todas as mulheres da realidade porque elas não gostam de ti'.
Depois uma coruja emitiu um som estranho. Era ela que ficaria encarregue de vigiar a minha fidelidade imaginária àquela mulher. 
Se eu a traísse, uma tríade de tormentos flagelaria a minha vida, e nem nos meus sonhos, voltaria a encontrar a amoreira que alimentava a minha vontade de continuar a respirar.


Prosa Romanceada Ficcional - Excerto II

(...) Não, e não vale a pena murmurarem que sincrana ou fultrana sintam algum resquício sentimental por mim. É efectivamente uma ilusão que os ventos traiçoeiros aportam, por vezes, no seio dos meus sentires mundanos. 
E mesmo que, por vezes, me sinta tentado a olhar para outras mulheres, a verdade é que ela própria me confidencia quando sou acometido por novas visões - "Não caias na tentação de amares alguém a não ser eu, porque as outras são banais, mas eu não - eu sou o fruto que persegues desde há milénios, muito antes da tua alma encarnar para uma nova vida".
Pode o Sol levantar-se sorridente ou recatado todos os dias, e a Lua abraçá-lo ou sufocá-lo no berço silencioso do Universo, podem muitas espécies extinguirem-se diariamente, mas há algo que permanece irremediavelmente intacto - o meu espírito que por ti é devoto desde o início dos tempos. Não há explicação teológica ou filosófica para tal verdade, tudo parece estar inter-ligado. 
E nem a dança universal de asteróides ou cometas me fará desviar do teu caminho, mesmo que seja uma perdição eterna, um labirinto sem saída. 
Definitivamente, cheguei ao único mandamento que me era possível - "Não há nem haverá mulher além de ti". (...)


Prosa Romanceada Ficcional - Excerto III

(...) E os querubins desceram à terra durante a aurora daquele dia, fazendo entoar a sua música harmoniosa que me impeliam a declamar-te uma ode. Tudo parecia concorrer para um cerimonial épico mas alguém se intrometera para furtar a minha imaginação, derrubando o meu acesso ao Intelecto Agente Universal. 
Comecei pois a verter lágrimas de Saladino porque havia entornado o cálice da inspiração, e tu, então remotamente distante de mim, estavas desiludida comigo. 
Fui então forçado a assumir o voto digno de um templário - haveria de correr todo o mundo só para te reencontrar. Eras o meu Santo Graal ou a minha Vera Cruz, a minha relíquia sagrada, mas entretanto, uma mulher surgiu por entre um morangal próximo de onde me encontrava:

"Prova deste morango. Irá curar-te dessa obsessão, irá quebrar esse feitiço de que foste alvo. Aquela mulher, a quem amas, não te merece!"

Era o fruto proibido. A tentação de qualquer homem. Queria aquela mulher sinistra, de franzina estatura e de cabelo arruivado, que abjurasse ao meu credo amoroso. Ao contrário de Eva e Adão, não poderia ceder. Não era uma maçã, mas um morango que me iria enviar para o abismo mais ardente do Inferno. Era como se me renegasse até ao fim dos tempos. Aquela mulher era o diabo camuflado, queria ser um obstáculo entre eu e a minha musa. 
Assim decidi retorquir:

"Mulher, oferece antes esses morangos ao deus a quem tu serves. E não te esqueças que a traição é uma coisa muito feia, e eu jamais trairei a profeta do meu coração, ao contrário de ti que forjas a realidade a partir de frutos manipulados".


Prosa Romanceada Ficcional - Excerto IV

(...) E um dia sentei-me nas margens de um pequeno lago. Ali fitei uma pequena corrente que fazia ranger as pedrinhas que se arrastavam, mendigas e solidárias, ao longo da escassa profundidade daquele curso de água.
E depois de ter sido amaldiçoado, nos últimos meses, pelo mau olhado alheio que fez com que eu deixasse de sonhar contigo, voltei a rever inacreditavelmente o teu vulto através dum reflexo instantâneo naquelas águas cristalinas. Virei-me logo para trás, mas apenas enxerguei o bosque calmo e pacífico, e o cantarolar alegre de alguns rouxinóis!
Pensei ao início que tinha sido vítima de uma miragem, de uma mentira da realidade, mas logo, me apercebi de uma pequena rocha, situada mesmo ao meu lado direito e na qual se incrustava o sinal de uma estrela, essa mesma estrela que carregavas pintada no teu pescoço e que era o chamamento divino para qualquer mortal. Não poderia ser coincidência tal achado. Era a tua assinatura, a tua marca que muitos facilmente invejariam. Era o sinal sagrado da religião a que eu professava, um prodígio de que os tempos poderiam mudar finalmente no futuro. 
Tu tinhas estado ali para me ver, mesmo que eu não te merecesse, mesmo que eu houvesse pecado contra ti e não te tivesse sabido defender no momento em que mais precisaste de mim. Tal como São Pedro, neguei-te por três vezes no dia em que o destino te martirizou. E depois, arrependido, desejei correr atrás de ti, mas apenas só te redescobri posteriormente nos meus sonhos. Perdoa-me, Deusa do meu Coração se apenas e somente agora me tornei total e incondicionalmente fiel ao teu credo amoroso! Acordei tarde, talvez iludido pela minha visão pagã e politeísta em ponderar venerar outras musas de outrora.
Mas não, hoje sei mais do que ninguém - só há uma deusa para o meu coração - és tu, as outras são paisagem árida e rasteira que apenas existem para me atentar e cegar o meu discernimento.


Prosa Romanceada Ficcional V

E ela que foi abandonada por pessoas que julgava estarem a seu lado, nunca mais se dignou a cruzar no meu horizonte. Sim, só nos sonhos, a conseguiria ver doravante. No terreno, apenas vislumbrava agora paisagem árida e alguns escorpiões que, manhosamente camuflados, poderiam ser bastante lesivos ao meu bem-estar.
Mas não te preocupes minha Deusa do coração, já possuo o antídoto para todas as possibilidades, e aqueles que não te dignificaram, não sofrerão de mim qualquer vingança porque não sou rancoroso nem tampouco violento, apenas receberão a minha indiferença e o meu silêncio. Não serão dignos da minha confiança porque também não foram da tua. Porque tudo me contaste e abriste os meus olhos cegos, embora por via dos meus "sonhos". 
Tu és o grande oásis que persigo, o resto são meras distracções, ventos que fazem levantar areia fútil para me desviarem do teu caminho. Mas não, não vão conseguir! 
Eu ainda acredito que o amor pode vencer diante dos ódios alheios da hipocrisia!
Dirão os nossos detractores que estaremos ambos doidos, mas sabem eles o que é o amor e a verdadeira amizade!!!


Excertos da autoria de Laurentino Piçarra





Poema nº 263 - A Venerável do Templo



A Venerável do Templo
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Insinuava-me pelo templo umbroso,
Prostrando-me diante do teu elixir
Enquanto prosava o anjo generoso
Que o teu vinho me queria induzir!

Apóstolo errante da tua profecia
Sacio-me das tuas ânforas bojudas 
Acometendo-me a ignóbil heresia
Nesse desbravar de homilias mudas!

Almejo ser em ti um puro mandamento:
Quero ser corpo em cinza no teu fogo
Uma sílaba esquiva ao teu lamento!

E que no fim alforriemos aromas sedutores
Convertendo os ares pálidos e mundanos
Em súbditos dos teus salmos redentores!




Pintura da autoria do artista  Vishalandra Dakur

Poema nº 262 - Vou-te enviar um poema


Vou-te enviar um poema
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Vou-te enviar um poema,
E desculpa-me a ousadia
Porque tudo o que esboço
São meras pegadas no deserto
Miragens exaltadas do meu coração
Que verte lágrimas pelo teu oásis!

Vou-te enviar um poema
Que nem as ondas de areia impedirão,
Porque tu és princesa e eu não,
Tu não precisas de mensageiros,
Basta-te admiradores como eu
Que suplicam por ti junto às tamareiras!

Vou-te enviar um poema
E pedir aos deuses antigos 
Que te asilem, ao menos, nos meus sonhos
Para que nunca te esqueça
E te reverencie numa pirâmide
Que ali erguerei só para te contemplar!

Vou-te enviar um poema
Porque não tenho mais para te dar,
Nem sequer um beijo de despedida,
Mas tu sabes, como ninguém,
Que o teu olhar curou-me:
Fez despertar o meu moribundo coração!




Imagem retirada de: http://picbear.com/ihancarloss

Poema nº 261 - Solteiro resistente


Solteiro resistente 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Expurgo de mim o teu amor,
Porque dele não necessito
Nem das tuas asas de condor
Que fintam o que eu acredito!

Tu não voas para me fazer feliz
Apenas te entregas à perspicácia
À vã sedução que é a tua matriz
Nessa pretensão sem eficácia.

Mas não te lamentes por mim,
Hás-de arranjar um excelso par
Talvez uma ave de odor a jasmim!

E eu, eu serei pardal num convento
Onde proliferam os girassóis alegres
Imunes ao teu perfil de catavento.




Gravura retirada algures do Google Imagens