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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

terça-feira, 5 de março de 2019

Poema nº 324 - Escultores Renascidos



Escultores Renascidos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


A arte é uma metáfora da mente
Esculpida em pedra imemorial
Nos confins de um castro ausente
Ruínas soturnas de um silêncio social.

Modelam-se rostos, máscaras sentidas
Constroem-se e desconstroem-se olhares
Estendem-se mãos de vidas repelidas
Almas cativas em estátuas crepusculares.

Somos escultores da nossa existência
Silenciamos pelo cinzel os murmúrios
Aparamos os sentimentos de emergência.

E quando concluímos a elegante obra 
Não satisfeitos, recomeçamos outra vez:
Até que diante do tempo nada sobra!




Poema nº 323 - A Ilha da Felicidade Pagã



A Ilha da Felicidade Pagã
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Soçobrou a minha alma numa ilha
Coberta por um imenso matagal
Herança dos Deuses da partilha
Desse sonho da aventura conjugal.

Saciei-me nos seus tímidos riachos,
Entrei na cripta do tesouro proibido
Traído muitas vezes por fogachos
Que turvavam o intento desinibido!

Sentia-me só, mas dentro do mundo,
Um náufrago de marés emocionais
Agora capitão de um prazer fecundo!

Aderem ao areal bússolas e astrolábios
Apetrechos fúteis para uma cultura pagã
Onde o amor é a simplicidade dos sábios!







Nota-Extra: Cripta = gruta, caverna, passagem subterrânea natural ou de construção artificial

Poema nº 322 - Aldeia Universal


Aldeia Universal
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Aceitei o teu pecado:
Mataste-me nas tuas memórias
Fazendo dos nossos isolados encontros
Desperdícios casuais.
Eu procurei em ti
O alimento da alma
Mas tu, ceifeira, senhora da sua seara,
Não deixaste abeirar-me da tua farinha,
Encerraste o teu coração numa torre de pedra
Envolvida por lancinantes espigas de trigo!
Mas eu não desisti:
Construí uma escada de madeira
Atravessei a vegetação ofuscante
E abordei a tua fortificação empedernida!
Alcancei a janela da atalaia
Mas tu logo afluíste a ela:
Abriste-a
Beijaste-me,
Afagaste o meu rosto
E depois empurraste-me
Brusca e friamente,
Desde o alto dos meus almejos
Fazendo tombar o meu corpo
E a minha escada inglória
No solo duro e frio da realidade!
Os corvos irromperam logo nos céus
Enquanto o meu corpo mortificava
Aguardando o fim inevitável.
Ainda ouvi ladainhas ao longe
Eram os monges dos teus sonhos
Protectores da tua jovialidade
E da tua integridade sensual,
Que se aproximavam para sepultar
O meu cadáver sentimental!
Os olhos fecharam-se no vazio
Na solicitude de um milagre revitalizante!
Ressuscitaria depois na tua ausência
Para viver noutra aldeia,
Ali voltei a perseguir o alimento do amor
Nāo nas searas ou nos moinhos
Mas numa cabana de sonhos vivos:
"Véu de dança" de dois corpos
Fusão sagrada de duas almas perdidas
Que rematam em si o Firmamento Corporal!
Desse copular de beijos-cometas
Se procriarão novas estrelas:
Filhas e filhos do futuro,
Que não tomarão torres,
Mas antes os castelos mais indomáveis!





Poema nº 321 - Moedas da Perdição


Moedas da Perdição
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Cunham-se moedas
Podem ser de ouro ou prata
Ou até falsas,
A sociedade manuseia-as
O homem avalia-se por elas,
Pela sua quantidade,
Como aquelas tivessem almas
Que pudessem suprir mil provações!
Mas essa nova autoridade é suprema,
Egoísta na sua essência,
Indiferente face a tudo,
Esclavagista dos horizontes humanos
Ao ponto de seduzir muitos 
Nos atalhos perigosos da euforia
Da obsessão infinita
Ou até da subversão da lei.
As moedas são relíquias milenares
De uma divindade malévola
Que não calculou limites
Nem qualquer bom senso.
Resta-nos a resignação:
Não podemos contestá-las
Apenas zelar para que estejam limpas
Mas que nunca brilhem intensamente
Tal seria sinal do seu percurso ilícito
Recheado de caprichos mercenários
Dos seus anteriores portadores!
Chega-nos o quanto baste,
Nada justifica
A clonagem de matrizes artificiais
Que sacrifiquem os nossos princípios
Porque esses não têm preço
São estatuetas de um templo antigo
Que veiculam a justiça e o amor
Para a salvação do mundo,
Com o mandamento de acudir 
Os que nada têm!





Imagem retirada de: https://nationalgeographic.sapo.pt/ 
(Foto: Alexandre Monteiro)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Poema nº 320 - O Hino do Mar


O Hino do Mar
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


A cada rebentar de uma onda
Sai um verso de paz jazente
E o sopro duma tormenta longa
Esbate-se na praia clemente.

Vejo o mar, o espelho da vida
Já conquistou todo o seu mundo
Antes da rebelião da terra foragida
Que renasceu do abismo profundo.

E eu, o que conquistei pela civilização?
Sou lágrimas de maresia desse mar
Deserdado de sereias e de missão!

Ouço o seu hino diante do céu mudo
Os paredões afinam a sua orquestra
E o areal nos seduz de manto veludo.




Foto da minha autoria


Poema nº 319 - Caverna dos Lamentos


Caverna dos Lamentos 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


De que valem as palavras
Se não as podes escutar?
Menti-te vários dias
Omiti o teu nome
Porque na realidade do viver
Não te confessaria o verbo
Que tu fazias reflectir em mim.
Fui o túmulo caiado da verdade
E assim vivi
Por entre as rosas
Discretas e belas
Que cresciam no redor
Mas que morriam à sede
Porque não as soube regar
Com o amor que lhes devia.
E quanto à rosa mãe
Que criou um jardim esplêndido
No meu coração,
Desapareceu
Foi levada pelo vento
Ou alguém se assenhoreou dela,
E hoje não vale a pena gritar
A caverna donde me encontro
Apenas devolve os gritos dos lamentos
Em forma de ecos grotescos.




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://ducampeche.com.br/

Poema nº 318 - Sento-me neste anfiteatro


Sento-me neste anfiteatro
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Sento-me neste anfiteatro
Miro o horizonte de sombras
Desapossado do meu olfacto
Da maresia das tuas ondas.

Ouço o chilrear dos pardais
Vejo um cão solitário a passar
Mas é da tua falta que sinto mais
Porque eras a alegoria do meu amar!

Irrompe um assobio pelos arbustos
Talvez o espectáculo vá começar
E tu ali estejas para me encantar.

Mas não, sou eu que me iludo:
Herói de um palco sem elenco
Bastardo abandonado pelo tempo.




Foto da minha autoria