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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 21 de setembro de 2019

Poema nº 362 - O Politiquês


O Politiquês
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Ó povo já conheceis a nova arte?
Uma nova língua intrujona?
Liguem a televisão!
Ouçam, deixem-se levar:
Os linguistas do politiquês
São boa gente!
Prometem mais que o Pai Natal
Eles não vendem ideias,
Apenas as doam
São esmolas intelectuais!
Que solidários!
Até já têm universidades
E cátedras de excelência
Para leccionar a nova língua
Quer esta se amarfanhe
Para a direita
Ou para a esquerda.
Mas este idioma retalhado
Requer representação, teatro!
Eles têm de ser durões para os rivais,
Autênticos furacões de ideias
Que façam dos outros os idiotas!
Quando interpretam o papel de vítimas
Choram como as carpideiras orientais,
O povo ainda lhes dá afectos
Porque adora novelas,
Mas os figurantes nada recebem
Apenas pagam as asneiras
Da encenação do politiquês
Também em desacordo ortográfico!




Direitos da Imagem: KEMP

Poema nº 361 - Sonhos Taumatúrgicos


Sonhos Taumatúrgicos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O sonho é a expressão do milagre aleatório
É um mundo que faz renascer quem já partiu
Que finta os ditames lúgubres de cada velório
Camarinha que cura a morte, o tempo que ruiu!

Divaguei, atraído pelos seus insondáveis mistérios
Não sei se vi Deus, talvez seja Ele a soma de tudo,
Mas aqui não há lugar para os triviais magistérios
O saber sonhado não se decifra, é ilógico no conteúdo!

O nada deixa de ser um cativeiro do silêncio
Os entes queridos viajam pelo nevoeiro cerrado
Até à luz ao fundo do túnel, lar da nossa mente!

Eles mergulham na casualidade do subconsciente
Para desempenhar o papel principal da vida oculta,
Num enredo sem leis ou limites, e da dor ausente!





Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google

Poema nº 360 - O Padre-Pescador


O Padre-Pescador
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Ouvi peixes,
O sermão que levantará o Maranhão
Em dia de Santo António!

Como se atreve aquele jesuíta barbudo?!
Acabar com a escravatura indígena?!
Ele inquieta-se, ele salta, ele galvaniza
Dança com as metáforas estrelares
O seu Firmamento é uma valsa perfeita
Todos que o admiram são pares instruídos
Planetas que giram em torno de si,
Libertos da opressão, da ambição promíscua!

Ouvi peixes,
O sermão que levantará o Maranhão
Em dia de Santo António!

Com argumentação sofisticada, prega aos rios,
Repletos de peixes que não falam
Mas que o podem ouvir, se quiserem!
Ele afronta o sistema putrefacto
A mentira, a hipocrisia e a injustiça!
O cardume social segue a sinfonia do vocalista,
Hipnotizado pela sua eloquência,
Pela sua espontânea humanidade!

Ouvi peixes,
O sermão que levantará o Maranhão
Em dia de Santo António!

Tudo evolui, ninguém cá fica,
As caravelas são hoje aguarelas da história,
Mas as palavras ainda são o sal da vida
E o padre-pescador já partiu em paz,
Deixou-nos o seu barco e o seu tresmalho
Para resgatar pobres e oprimidos
Dos desmandos das elites cruéis,
Haverá sempre um peixe contra a corrente!





Imagem meramente exemplificativa retirada da Página RTP Ensina


Nota-Extra: Poema de homenagem ao Padre António Vieira (1608-1697).

Poema nº 359 - Palácio dos sonhos destronados


Palácio dos sonhos destronados
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Num dia vi o teu magistral palácio
Mas não me quiseste na tua corte
Decidiste isso no teu ominoso prefácio
Porque não validaste a minha sorte.

Sorte de te sentir como uma planície
Onde poderia desafiar o tédio mundano
Respirando amor em vez de imundície
Acreditando no dom do teu planeta plano.

Mas esse fascínio logo se revelou infértil
Tu me deportaste para o reino da sombra
Cada palavra tua foi como um letal projéctil.

Chorei rios de mágoa, cedi à depressão
E tu continuaste fiel aos teus desígnios
Porque queres o que eu perdi na criação.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.uckg.org/pt/trono-de-justica/

Poema nº 358 - Não dou graças


Não dou graças
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não dou graças à vida
Porque iludo-me na claridão
Dos formosos horizontes
Deixando-me encantar
Pela aurora despertante
Que nasce no berço da esperança!
Mas o meu mundo desaba
Logo que emerge o receoso escurecer,
Uma nuvem assombra o espírito
Enclausurando-o num poço profundo
Onde a água turva me provoca amnésia,
Talvez para que me esqueça deste Universo.
O que eu faço aqui,
Não o poderei saber
Luz e escuridão combatem entre si
A cada dia que passa.
E eu sou um peão no meio da guerra
Mas não sei a quem sirvo,
Vivo na incerteza
Que só me alimenta
Porque ainda não fui sacrificado
Pelas forças do destino.

Não dou graças ao raciocínio
Porque impõe-nos regras
A obediência ao oculto
Ao celibato dos instintos selvagens
E nisto tem o meu senso comum cedido
Sem saber se ando perdido
Nesta criação confusa e complexa,
Neste labirinto de dialectos imperceptíveis
Impossíveis de decifrar.
Prometi a mim mesmo
Que não vos iria mentir
Estivesse eu no poço da escuridão
Ou na planície primogénita do Sol,
E por isso vos confesso:
Como invejo o vento
Que nada sente ou pensa
E que vai para todo o lado
Sem pedir justificações
Sem introspecções místicas.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: universalprudentopolis.blogspot.com

Poema nº 357 - Frente ao Mar


Frente ao Mar
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Perscruto o Mar
Vejo a minha vida
Cada onda que bate no areal
É uma máquina do tempo
Cada gota, uma memória renascida
E os meus olhos voltam à adolescência
Não porque havia pedido
Mas apenas intuído
Que chegara o momento
De desenterrar o que naufragou
Num ciclo passado.
A espuma das ondas é arte oculta
Vejo o esboçar de semicírculos na praia,
Os meus pés são refrescados
Sinto agora que talvez nunca caminhara,
Ou que talvez, seja mais uma onda do mar
Perdida no epicentro do incógnito.
E não sei mais em que pensar
O futuro é um filho que ainda não nasceu,
E eu, uma compilação de recordações
Cujo mar me brinda com uma poção
Que sempre que nos achamos
Frente a frente,
Faz cessar a minha sede espiritual.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.pinterest.de/pin/528398968749598419/

Poema nº 356 - Verdades Distantes


Verdades Distantes
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Se a verdade é uma meta fútil
Para ti
Que queres o mundo
Por favor,
Não vás para a política
Ludibriar a arraia-miúda,
Não vás para a banca
Ajudar os teus amigos
À custa do erário público,
Não vás para juiz
Ou detective
Porque a falsa imparcialidade
Sentencia pobres inocentes.
Distancia-te das decisões,
Monta antes uma loja
Aprende o que a vida custa,
E dessa lição,
Verás que o povo tudo merece,
Incluindo a verdade.
Não venhas com a demagogia
E todo o tipo de artifícios
Aviso-te que a mentira fácil
Nem sempre camufla eternamente
As intenções caprichosas que te guiam!
Se estiveres descontente,
Tens ainda a agricultura,
Ao menos, cultivarás algo
E a enxada te fará bom homem.
Nunca te consideres especial
Porque como tu há milhões,
Mas também não queiras ser sósia
Ou imitação barata de alguém,
Tenta fazer o teu caminho.
Mas na hora da verdade,
Junta-te ao povo,
Mistura-te com ele,
Brinda à saúde de todos,
A moralidade popular prevalece
Sobre qualquer curso académico
Ou amizade estratégica.
Não podemos escolher os nossos rostos
Nem as origens,
Mas podemos sempre definir:
Os espelhos interiores do nosso carácter
E as camas em que nos deitamos!