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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

terça-feira, 12 de maio de 2015

Poema nº 47 - Homenagem à Santinha Maria Adelaide (1835-1885)


Homenagem à Santinha Maria Adelaide (1835-1885)
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


No Norte de Portugal uma menina nasceu
Para almejar os benévolos caminhos do Céu!
Uma nova e intensa luz que iluminou o universo
Com infindáveis obras, inenarráveis em verso!

Professou um eloquente estilo de rectidão 
A sua virtude cintilava entre as monjas de Gaia 
Carregando consigo a música da abnegação
Que a Deus encanta, e ao demónio desmaia!

Conheceu as vicissitudes do Porto tradicional,
Mas a frágil saúde a debilitaria sem piedade,
E, sob conselho médico, rumou a uma terra rural
Onde fez reinar a sua distinta simplicidade.

Arcozelo, terra apadrinhada por São Miguel, 
Onde labora com rigor a lavradeira infatigável
Além do valente pescador portador do seu batel
Que serve à comunidade o pescado impagável!

Aqui Adelaide confeccionou rendas e pastéis
Reuniu dinheiro para acudir aos mais pobres
Mimou as crianças com gestos dóceis
E reconciliou casais com apelos nobres.

Em 1885, o seu inestimável espírito viajou
Aventurando-se eternamente pelo paraíso 
Como uma estrela sorridente que regressou
À origem com um legado laureado e indiviso!

Mais de três décadas se galgaram sem novidade
O esquecimento ameaçava ocultar a verdade
Até que reabriram o seu modesto caixão
Achando seu corpo resguardado e incorrupto.

Milagre, clamaram ruidosamente os aldeãos!
Prenúncio duma inesperada canonização divina?
Desenterrada e venerada seria por inúmeros cristãos
Que unidos se prostraram diante da sua santinha.

Exibida em urna numa enfeitada capelinha
Muitos cumpriram aí as suas promessas
Outros atribuíram-lhe curas milagrosas!

Poema nº 46 - Praia do Areinho - Ria de Ovar/Aveiro


Praia do Areinho - Ria de Ovar/Aveiro 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Praia fluvial do bom banho,
Amiga do desporto náutico
Anfitriã do bem-estar emocional,
Agredida foi pelo homem tacanho.

Os caranguejos regiam as margens,
Milhares de peixinhos "galopavam"
No seio daquele lodo que todos calcorreavam,
Como era desfrutante esta assembleia de aragens!

Aquelas areias extremamente finas
Não garantiam imponentes castelos
Mas cativavam vetustas inquilinas.

Remar nas tuas águas meigas
Era o sonho de bastantes veraneantes
Que logo se apresentavam radiantes.




Postal cuja autoria deverá ser de Mário Silva 

Poema nº 45 - Sentidos Recíprocos


Sentidos Recíprocos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Num jogo de palavras mudas
Expressadoras de pensamentos iguais,
Os nossos corações com batidas proporcionais
Ajudam a despir as roupas felpudas.

Como é profunda esta telepatia, 
A fusão dos corpos desnudados, 
Numa magistral e hábil sintonia
Que repudia procedimentos rotinados.

Não há lugar para o banal,
A interacção ardente é suprema
Até ao formidável clímax final.

Múltiplos olhares trocados
E simultâneos afectos de paixão
Conduzem estas almas à áurea dimensão.




Desenho artístico da autoria de Leida Nogueira

Poema nº 44 - O Ano do Confim Memorial


O Ano do Confim Memorial
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Folheado como um livro em couro
De 365 páginas longas mas estáticas
O ano mundano findaria no cremadouro
Com as suas vivências catedráticas.

Eclipsaria para a inevitável eternidade,
Refugiar-se-ia nos mórbidos arquivos
Cujos escritos assinalavam sua exclusividade
Ameaçada de plágio por novo ano cheio de perigos!

Mas eu que, com saúde, arribei ao ano velho,
Testemunhei o derradeiro olhar da Natureza 
Que me pré-destinou à morte sem conselho!

Não alcançaria a tradicional passagem festiva
Porque desse ano não conseguiria escapulir
Prendeu-me pois, sem o usufruto do porvir! 

Contudo, após o meu tristonho velório,
Foi o ano sepultado com festejos apoteóticos,
Mas ninguém logrou libertar-me das suas garras!

O fogo de artifício percorria em êxtase os céus
Mas eu encoberto pela campa modesta e solitária,
Jamais consolaria aqueles que deixei - os familiares meus!





Poema nº 43 - Mundo (Im)Perfeito


Mundo (Im)Perfeito
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Encarnámos num planeta sem igual
Que rima com a tingida vida ancestral
Esta proliferada pelos recursos cruciais,
E quiçá patrocinada pelos altares celestiais?!

Dispomos de tudo para o apropriado viver
Água, oxigénio e frutos da terra pluralista
Para assim a existência triunfar e crescer,
Desafiando a coincidência materialista. 

Esta radiante obra de arte não é anónima
Ou do acaso ou do devaneio cósmico
Mas sim dum pintor prestigiado e fabuloso
Que assim assinou sua autoria pseudónima.

Já o seu vassalo conspurca este paraíso,
Aniquila-o com guerras carregadas de ódio,
Não partilha e ignora a fome com seu ego impreciso,
Alimentando sim aquilo que é um dramático martírio.





Poema nº 42 - O sineiro do salubre despertar


O sineiro do salubre despertar
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Assomava-se o indescritível sol matinal:
Na horta, cacarejava um galo embevecido,
As flores reemergiam com tonalidade imortal 
E o sono era pelo homem comum vencido. 

Na aldeia, residia uma igreja à beira-mar,
Que ostentava, numa torre, um sino salutar 
Instrumentalizado pelo pontual Celso, 
Um ancião humilde mas de perfil excelso. 

Eram 9 horas e lá estava o velhinho:
Tocava até à exaustão para o povo acordar
Não havia preguiçoso que conseguisse escapar
Às badaladas que iludiam o pleno descaminho.

Até as furiosas ondas do mar se arrepiaram;
Atordoados, saíram da cama os filhos do vinho
E inclusive os inúteis zombeteiros sem destino
Que nos mundanos prazeres se acomodaram.

Celso trajava-se com vestes foleiras,
Elaborava peças de barro por divertimento
Censurava as mais infames asneiras,
E auxiliava os sem-abrigo cedendo alimento.

Havia quem troçasse deste pobre idoso
Por não conviver com as influentes elites
Que erguiam a soberba em estalactites
E desprezavam o seu aspecto andrajoso. 

Numa manhã, Celso não compareceu
Um anjo o visitara durante o intenso luar
Convidando-o a estrear o novo sino estrelar,
Enquanto a aldeia terrena, naquele dia, adormeceu!





Poema nº 41 - Rabiscos pela Honra Europeia


Rabiscos pela Honra Europeia
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Europa, anciã do lúcido saber,
Senhora da terra fértil para lavrar,
Desenhadora do livre expressar,
Guardiã de mosaicos culturais
Desde o seu histórico amanhecer.

Abraçaste o dom da liberdade
Acendeste a clareira da vida
Declamaste um poema de civilidade
Mesmo quando no orgulho eras ferida
Por aqueles que repudiam a tolerância.

Tal como Charlie, somos todos teus seguidores
Rubricamos e rasuramos com irreverência
Pela liberdade até à derradeira consequência,
Denunciamos os mais intrigantes horrores
E por fim, erguemos a bandeira da democracia.

Nunca te agradeci querida velha Europa:
Por não julgares as minhas convicções pessoais,
Por me teres convidado para o teu banquete
Sem cobrares um dispendioso e fútil bilhete 
Apenas rasgado pelos extremistas desleais. 

Educaste-me com talentosos professores
Cuidaste de mim quando estava doente
Fizeste cartoons carregados de humores
Enquanto atravessava uma fase deprimente
Ou me exibia apreensivo quanto ao futuro.

Muitos dos teus soldados morrerão
Assassinados por vândalos sem piedade
Que instigarão obras assíduas de maldade
Para atingir o teu nobre e bondoso coração, 
Mas os nossos lápis escudados cá os enfrentarão.







Nota-extra: Poema redigido poucos dias depois do ataque terrorista contra as instalações da revista satírica francesa - "Charlie Yebdo".