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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Poema nº 212 - Fevereiro


Fevereiro 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Fevereiro,
O que seria de mim
Se não existisses?
O despontar das orquídeas,
O desfilar das borboletas,
O voar das joaninhas,
Tudo seria ocultado em vão!
Sem ti, não viveria paixões vibrantes,
Porque nos teus lagos
Proliferam inúmeras ninfas
Recheadas de uma beleza ímpar!
Sim, o meu coração de Março,
Tem quedas para Fevereiro,
Sem que eu o possa explicar!
Tímido Fevereiro,
Não és afinal um mês qualquer,
Mas antes um quadro de Renoir
Onde convivem flores vistosas,
Animais ternurosos,
E mulheres afrodisíacas!
Os que troçam da tua efemeridade,
Subestimam a tua sabedoria,
A tua receita saudável,
Onde logras sintetizar,
Em poucos dias,
O que de mais belo existe
Na Mãe Natureza!





Quadro da autoria do pintor francês Pierre-Auguste Renoir que ilustra ninfas a tomarem banho no meio de uma floresta. Óleo sobre tela, ano de 1841. Curiosamente, o pintor nascera também em Fevereiro.

Poema nº 211 - Sobre o Sr. Dr. Cimento, doutorado em Urbanismo


Sobre o Sr. Dr. Cimento, doutorado em Urbanismo
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Bom dia,
Eu sou o Sr. Dr. Cimento,
Doutorado em urbanismo
Com a tese "Que se lixe a natureza"
Defendida a 30 de Fevereiro de 1840,
Na Universidade da Insustentabilidade!
Com o canudo na mão,
Sou deveras muito requisitado
Pelo zé-povinho,
Admirador de fast-food urbanístico!
Nunca provaram?
É de rir e chorar por mais!
E eu que gosto de caçar votos
Em vésperas de eleições,
Faço-lhes as vontades todas, 
Ora bem, ora mal, ora majestade!
E logo denoto quais os elementos intrusos
Que vão todos a "eito": 
Árvores centenárias, chapéu!
Palheiros, chapéu!
Ruínas antigas, chapéu!
Florestas, chapéu!
Fontes cristalinas, chapéu!
Não perceberam ainda?!!!
Seus pseudo-urbanistas da Pré-História?
O povo quer viver no luxo
Quer viver como em Manhattan!
Acabem com os campos
Que só trazem mosquitada!
A natureza é só a Amazónia, 
E por isso, descuidemos o resto,
Façam-se arranha-céus
Pelas ruas todas!
Rasguem-se espaços verdes
Com auto-estradas portajadas! 
Criem-se novos parques de estacionamento
Com parquímetros de valores avultados!
Oh! Vamos fazer desta aldeia
O novo Dubai,
Até iremos criar ilhas artificiais
Se ainda sobrar dinheiro!
Eu, Sr. Dr. Cimento, esfrego as mãos,
Mais uma comissãozita
Ali, acolá!
Oh! Nasci neste Portugal político,
E quando tomo o meu suplemento vitamínico
Em plena campanha eleitoral
Urbanizo tudo o que me vem à frente!




Foto de Ben Hur Brito in Panoramio

Poema nº 210 - Divina Sophia


Divina Sophia
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)

O mar da Granja rebola aventureiro
Os teus versos são os seus búzios 
São vozes de um espectro justiceiro
Que te faz denunciar os galarins dúbios.

Viveste numa sociedade que era tua,
Abraçaste-a com a tua escrita sublime,
Elevaste-a ao panteão da Grécia Antiga,
E professaste a liberdade com pulso firme!

Zeus fez de ti a divindade da sabedoria,
Legando-te uma audácia ininterrupta
Capaz de extirpar as rochas da letargia!

Eros refugiou-se também na tua poesia,
Onde interagem o amor e a natureza
E os sopros do teu mundo sem impureza!




Foto antiga de Fernando Lemos

Poema nº 209 - General Sem Medo


General Sem Medo
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Quem és tu, homem corajoso
Que afrontas a repressão descarada
Desse sistema político andrajoso
Que aprova a liberdade amordaçada?!

Queres ser luz no seio da ignorância
Queres ser crença no bastião do medo!
Devotado à tua interventiva militância,
Desafias os abutres e o seu credo.

Ousas voar até onde não te é permitido,
Tencionas quebrar os grilhões da tortura
E libertar o teu povo pobre e oprimido!

Mas sabes que enfrentas o impossível,
A mentira virou a Adamastor impiedoso,
E tu, meu valente, tombaste imperecível!




Foto de Casa Gaspar/ Arquivo Prof. Dr. Luís Torgal



Nota-Extra: No último verso, muitos poderão pensar que existe uma contradição, mas a mesma é propositada. Humberto Delgado tombou às mãos de agentes da PIDE (em Espanha), mas na verdade, o seu legado e o seu exemplo sobreviveram à morte, abrindo esperança para um futuro democrático. Tombou sim, mas de forma imperecível! Quanto ao "bastião do medo", refiro-me a Portugal, isolado do mundo e acossado pela repressão do regime.

Poema nº 208 - A Garça Vareira


A Garça Vareira 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

No dealbar da Antiguidade,
Uma garça sobrevoava pelo litoral,
Petiscando peixes pelas margens marítimas,
E deixando-se enfeitiçar pelos seus namorados
Residentes nas águas brandas da Barrinha!
A sua plumagem branca
Era sinónimo de airosidade,
As suas pernas longas
Antecipavam viagens inesquecíveis,
O seu bico robusto
Faria impor as suas reivindicações!
Ela era vida, ela era emoção!
Naquele tempo, todo aquele manto verde
Estava livre do tormento humano
E da praga edificante!
Os seus namorados
De Esmoriz, Cortegaça e Maceda
Esperavam-na com pompa e circunstância,
Entrelaçando os seus olhares com carinho!
E foi, durante um dos seus rumos para sul,
Que desfrutaria do privilégio de ser mãe!
Naquela imensidão de árvores e caniços
A garça vareira daria sentido à sua existência,
Partilhando aquele Paraíso Selvagem
Com os seus futuros filhotes!
Quando lá chegara,
Os ninhos eram incontáveis:
Cegonhas, Gaivotas e Águias
Também experienciariam ali a sua maternidade
Reprodutora de uma linhagem
À qual, os futuros ocupantes humanos,
Apelidariam de Ovar!






Nota-Extra: Poema que tenta aflorar a teoria que sugere a eventualidade do nome de Ovar derivar afinal da forte presença da avifauna nos primórdios da civilização humana, tendo outrora existido muitos ninhos (e naturalmente ovos) naquela zona que seria coberta por um manto verde, além dos cursos de água.

Poema nº 207 - O teu rabo de cavalo


O teu rabo de cavalo
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

O teu rabo de cavalo
Não é produto do artificial
Nem um capricho em voga,
É antes um ramo de girassóis
Vigorosos e deslumbrantes
Que me fazem enlouquecer
Sempre que sou agraciado
Pela tua invulgar presença.
Como adoraria ser florista
E tratar das flores do teu cabelo
Sem que te importasses
De ser profanada pelas minhas mãos
Que encorajadas pela ousadia
Almejariam ser o teu ancoradouro.
Mas esse teu rabo de cavalo
Não é para quem quer,
Mas para quem te merece!
E eu que te amei,
Sei que mereces um florista perfeito,
E não um pretendente imberbe
Ou um leigo na arte do encanto
Que afinal nada percebe de girassóis!






Poema nº 206 - Escravos do Lucro


Escravos do Lucro
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Nós humanos
Somos escravos do dinheiro
E comummente nos olvidamos:
Do amor,
Da fraternidade,
Da ternura,
Da entreajuda,
Da solidariedade!
Ainda não sabemos partilhar
O melhor que temos
Com aqueles que nos rodeiam!
E os meus lamentos
Atingem um limite inédito
Quando vejo alguém a morrer
De cancro,
Essa maldita doença!
Indignado,
Clamo contra o mundo,
Porque sei que a cura já existe,
Mas que não pode ser liberada
Por não ser lucrativa.
E só hoje, morreram mais uns milhares,
Não por causa do cancro,
Mas sim porque os ditadores do dinheiro
Assinaram com as suas mãos
Ensanguentadas,
Um pacto com o Demónio,
Um acordo sujo com a ganância materialista!
Eles sim são as verdadeiras células
Cancerígenas,
Que aniquilam a existência humana!





Imagem nº 1 - É altura do ser humano utilizar a tecnologia e a verdade científica para auxiliar todos aqueles que padecem desta doença. Acredito piamente que já deverá existir uma cura. E esta criança angelical que está no meio da imagem merece ser salva tal como muitas outras! É necessário que os adultos, ditos intelectuais, deixem a ganância de lado.