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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 19 de outubro de 2019

Poema nº 367 - Arquitectura dos Beijos


Arquitectura dos Beijos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O mundo do beijo é arcano:
Línguas que dançam o tango
Lábios sedentos do profano
Afagos faciais em losango!

E na arquitectura do amor
Construímos de olhos cerrados
Lares que transcendem o pudor
Com jardins de sonhos lavrados!

Blinda-se o terramoto de emoções
Ou o maremoto do denso salivar,
Subterfúgios avessos a privações .

E quando a inquietude desaparece
Erguem-se pontes para as almas
O beijo epigrafa o que não perece!




Poema nº 366 - Luto Amoroso


Luto Amoroso
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não vejo agora em ti a alegria
Que outrora julgava ter achado
Num exercício de arqueologia sentimental!
Hoje divagas apenas pelos campos silvados
És refém de uma espiral turbulenta
Não me arrastes para o teu labirinto
Tudo se frustrou:
Projectos, sonhos, beijos,
Porque idolatras o impossível
Nem te dás conta da sombra
Que te cobre subtilmente.
Não penses que me declaro inocente,
Também te falhei,
Abriguei-me noutra floresta
Em vez de ser o teu incansável guardião,
Confesso-te:
Não sou o teu super-homem
Que procuras de forma insaciável,
Não sou tampouco um feiticeiro
Portador da receita miraculosa
Que te trará luz aos teus horizontes,
Talvez te reserves no direito de me censurares,
De me considerares uma fraude,
O fim do amor é tumultuoso
O luto pode ser violento,
Os teus sismos emocionais compreendem-se
Porém não te resolverão!
E em ti, sei que ainda há esperança,
Não por mim, que desapareci,
Mas pelas pegadas vindouras,
Reconheço-te sabedoria interior
E a beleza fisionómica de uma fada,
Não desistas de te procurar
E de te libertar dos densos arbustos
Que te agrilhoam dolorosamente,
O teu livro ainda não se fechou,
Ainda podes escrever muitos capítulos,
Não comigo,
Mas numa planície apaixonante
Junto do homem que te foi destinado!





Imagem meramente exemplificativa da autoria de Amanda Cass

sábado, 21 de setembro de 2019

Poema nº 365 - O teu Chá


O teu chá
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

O teu chá
Leva-me até ao Oriente
Aos sonhos de porcelana
Aonde me transfiguro
Pairando sob o inédito,
Os meus olhos estão cerrados,
Mas vejo o que ninguém vê,
Sou o espelho de mim mesmo
Carrego a energia de um elefante
As garras de uma águia
O revestimento colorido das carpas koi,
Sou o que nunca fui,
Viajante da transcendência,
Todo o meu ego suprime-se
Em avalanches de ambições extintas,
Tornei-me num incógnito corpo astral
Acoplado pela órbita universal.
Já não me sei definir
Não há um padrão,
Regresso aos sonhos terrenos
Sou um samurai do Japão ancestral
Sou um mercador pobre de Bengala
Sou um monge abnegado do Tibete,
Sou tudo e sinto essa pluralidade na pele
E os minutos passam
Até que abro os olhos:
A xícara de Masala chai
Que me serviste
Viu o seu efeito chegar ao fim,
Esqueceste-te do açúcar!




Imagem meramente exemplificativa retirada da Página: https://chasorganics.com/
("Cha Organics")


Nota-Adicional: O poema procura fazer alusão directa ou indirecta a diversos territórios orientais (nomeadamente a Índia, China, Japão...) e a animais característicos (o elefante indiano, a águia cazaque e as carpas koi - carpas coloridas japonesas). Outra surpresa é a referência ao masala chai - chá de especiarias que conjuga inúmeros aromas - que é produzido no subcontinente indiano.

Poema nº 364 - A Saia da Lua


A Saia da Lua
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


A saia gira indiscreta tecida de névoa
Fintando Ah Puch, deus maia da morte.
Que definiu destinos com uma régua
Mas que da Lua não celebrou consorte!

O modelo gótico da dama do Universo
Faz perfilar a sua diluvial presença
Imaculada diante do sonho perverso
Dançarina e juíza da nocturna sentença!

A saia é transparente, o rosto é branco
Mas o vestido que a camufla é negro
Ela assim se traja na alegria e no pranto.

A Lua já teve valentes apaixonados
A sua saia eleva a libido dos mortais
Converge e une amores destinados.




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://wallhere.com/

Poema nº 363 - O Luto da Amazónia


O Luto da Amazónia
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Arderam hectares incontáveis
Mentiram ao mundo
Aligeirando o caos
Zebras políticas fúteis!
Ó humanidade acordai
Neste dia que ainda é vosso
Imaculada luz que resiste
Até que um dia, tudo seja pernicioso!

Amar a floresta, é amar as origens,
Melindrar os arautos da tecnologia
Aclamar os índios na sua pureza
Zombar das elites modernas hipócritas!
Oremos agora pela catedral do oxigénio,
Ninguém pode proibir o nosso culto,
Intentaremos amaldiçoar os poluidores
Animais do lucro a todo o custo.

E eu, do meu país, grito:
Salvai a Amazónia,
Mas primeiro, sejamos sérios
Cuidemos do nosso jardim
Que também tem sido agredido
Como se fosse um estorvo,
Sei o que vejo
E o que é silenciado,
Os interesses sujos coexistem,
E a natureza como não tem voz,
Sofre de uma doença incurável:
A peste da ignorância humana!





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.latam.com/.../uma-viagem-a-Amazonia-brasileira

Poema nº 362 - O Politiquês


O Politiquês
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Ó povo já conheceis a nova arte?
Uma nova língua intrujona?
Liguem a televisão!
Ouçam, deixem-se levar:
Os linguistas do politiquês
São boa gente!
Prometem mais que o Pai Natal
Eles não vendem ideias,
Apenas as doam
São esmolas intelectuais!
Que solidários!
Até já têm universidades
E cátedras de excelência
Para leccionar a nova língua
Quer esta se amarfanhe
Para a direita
Ou para a esquerda.
Mas este idioma retalhado
Requer representação, teatro!
Eles têm de ser durões para os rivais,
Autênticos furacões de ideias
Que façam dos outros os idiotas!
Quando interpretam o papel de vítimas
Choram como as carpideiras orientais,
O povo ainda lhes dá afectos
Porque adora novelas,
Mas os figurantes nada recebem
Apenas pagam as asneiras
Da encenação do politiquês
Também em desacordo ortográfico!




Direitos da Imagem: KEMP

Poema nº 361 - Sonhos Taumatúrgicos


Sonhos Taumatúrgicos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O sonho é a expressão do milagre aleatório
É um mundo que faz renascer quem já partiu
Que finta os ditames lúgubres de cada velório
Camarinha que cura a morte, o tempo que ruiu!

Divaguei, atraído pelos seus insondáveis mistérios
Não sei se vi Deus, talvez seja Ele a soma de tudo,
Mas aqui não há lugar para os triviais magistérios
O saber sonhado não se decifra, é ilógico no conteúdo!

O nada deixa de ser um cativeiro do silêncio
Os entes queridos viajam pelo nevoeiro cerrado
Até à luz ao fundo do túnel, lar da nossa mente!

Eles mergulham na casualidade do subconsciente
Para desempenhar o papel principal da vida oculta,
Num enredo sem leis ou limites, e da dor ausente!





Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google