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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

domingo, 25 de dezembro de 2016

Poema nº 196 - Natal para as crianças


Natal para as crianças
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Aconchegado no seu berço de palha,
Chorava o Menino Jesus
Acabado de nascer
Para ensinar o amor
À Humanidade pecaminosa!
Escondido numa caverna,
Rodeado por Maria e José,
Jesus sairia imune à raiva de Herodes
Que tantos bebés mandara sacrificar
Porque temia a chegada do novo Messias.


Mais de dois mil anos depois,
O Menino Jesus ainda chora
No raiar da aurora do dia 25 de Dezembro,
Porque os Herodes desta vida
Ainda fazem escola
Não hesitando em exterminar crianças
Por propósitos maquiavélicos!
Esse Natal sem amor pelos mais pequenos
É apenas um mito consumista
Alimentado por uma sociedade hipócrita!






Poema nº 195 - O Calvário Camoniano do Rio Mekong


O Calvário Camoniano do Rio Mekong
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Como rompem oscilantes os ventos
Tornando endiabradas e mortíferas
As águas do Rio Mekong
Situadas ao largo do longínquo Cambodja!
Por aquele extenso curso do Sudeste Asiático
Está prestes a claudicar um navio.
A seu bordo, está o Príncipe dos Poetas,
Um homem que perdera o olho direito em Ceuta
Que tinha sido provedor-mor dos defuntos de Macau
E que tencionava regressar a Goa!
Endividado e já com experiência em cativeiro,
Camões enfrentava de novo o presente sombrio!

O rio adensa a sua raiva contra os estrangeiros,
Está disposto a sentenciar o fim da tripulação
E a enviar o poeta, bem como a sua obra,
Para os confins do esquecimento eterno!
Camões agarra-se à sua epopeia,
Ao seu manuscrito glorioso,
Emancipador do orgulho de um povo,
Ao maior tesouro lusitano da era das Descobertas,
Com versos que vulgarizam quaisquer lingotes de ouro!
Muito perto dele, está Dinamene,
Uma musa chinesa de elevada afectuosidade
Que conquistara o coração de Camões!

O mastro cede à intempérie,
O naufrágio sucede-se:
As correntes ferozes derrubam a embarcação
Camões tenta salvar a sua amada,
A mulher que o amparara no sofrimento,
Mas perde-a de vista,
O rio escolhera friamente o seu primeiro alvo,
Aprisionando aquela donzela chinesa,
A sua nova ninfa eterna,
Nas suas escabrosas profundezas!
À superfície, o poeta lusitano grita pelo seu nome,
Mas os deuses não atendem ao seu chamamento!

A Camões, só lhe resta lutar pela vida,
Sem abdicar do seu precioso manuscrito,
Resistindo assim às vagas adversas do rio,
Bem como às elites ignorantes do seu tempo
Que vacilavam em publicitar a sua obra,
Num claro menosprezo votado à arte literária!
Mas o poeta, mesmo só com o olho esquerdo,
Desafia o contexto que é o seu pior inimigo,
E a nado, começa a vencer as forças da escuridão,
Inspirando-se na audácia das proezas lusitanas,
E alcançando, em breve, as margens redentoras:
Guardiãs fiéis da sua genialidade intemporal!




Imagem Retirada do Google Imagens


Nota-Extra - Este poema visou recordar os momentos de aflição vividos por Luís Vaz de Camões, aquando do naufrágio do navio em que então seguia no rio Mekong, durante o ano de 1560. Entre salvar os "Lusíadas" e a sua nova amada (a chinesa Dinamene), Camões só conseguirá mesmo preservar a sua afamada obra, nadando contra as correntes temíveis daquele curso de água asiático.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Poema nº 194 - Coração Reprimido


Coração Reprimido
(Poema Livre da autoria de Laurentino Piçarra) 

Silencio o amor
Porque já é sádica a dor
Que trespassa o meu coração!
Em cada vazio do acordar madrugador
A saudade fulmina o meu espírito
Desertor e solitário,
Ocasionando a mais melindrosa das torturas!
A impotência cimenta a humilhação
O medo triunfa sobre a esperança,
E no fundo, sou como uma árvore,
Tristonha e desprovida de fruto,
Que reside isolada da floresta!
As recordações daquele rosto feminino
Adensam em mim uma expressão de ansiedade
Incompreendida aos olhos do mundo!
Mas quando agora contemplo em redor,
Vejo a escuridão a abater-se,
E a fantasia a desvanecer-se
Como uma flor que murcha
Sem que houvesse tempo para amadurecer!
E eu que sofro por um amor inalcançável,
Refugio-me nos últimos resquícios de coragem,
Para me digladiar num conflito interior
Onde tencionarei reprimir o coração,
Porque a ilusão platónica
É afinal uma droga pesada,
Uma mentira capaz de destruir a personalidade,
Ou até mesmo uma sentença fatal
Para quem fracassou no xadrez das paixões!




domingo, 4 de dezembro de 2016

Poema nº 193 - A Final do Monte Olimpo


A Final do Monte Olimpo
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Como estão eufóricos 
Os Deuses do Olimpo
Que banqueteiam com as glórias
Daquele desporto que seduziu os humanos!
Ali se achavam Eusébio, George Best, Crujff,
Príncipes entre os mais comuns mortais,
Todos desejosos de assistir à grande partida
Onde a entrada da Humanidade seria vetada
Decorrente dos seus limitados horizontes!


A noite chega, a hora é dourada,
O estádio do Além enche-se de almas!
De um lado, o grande Torino,
Penta-campeão da década de 40,
Clube príncipe da cidade de Turim,
Orgulho das divindades italianas!
Valentino Mazzola enverga a braçadeira
O capitão promete fazer balançar as redes,
Enobrecendo a distinta arte do futebol!


Do outro, uma equipa oriunda de Chapecó,
Símbolo da Humildade Brasileira
Espelho das ancestrais tradições indígenas, 
Que acaba de arribar à dimensão superior,
Para jogar agora a derradeira final diante dos Deuses
Perante aquele glorioso clube italiano.
Cléber Santana é o maestro da equipa,
O criativo que torna os sonhos possíveis,
E que faz desfilar o verde da esperança!


E nós, mundanos mortais, que hoje choramos
Por não assistir a tal epopeia futebolística,
Invejamos as divindades que o fazem,
Troçando das nossas imperfeições!
Restam-nos as lágrimas derretidas junto à Basílica de Superga
Ou espargidas pelas montanhas de Cerro Gordo,
Concebendo-se assim um rio de eterna saudade
Por aqueles mártires do desporto elevados aos Céus
Para servirem, na sua arte, os deuses egoístas do Olimpo.




Imagem nº 1 - Equipa maravilha do Torino durante a década de 1940. Em 1949, e já na viagem de regresso após um jogo amigável com o Benfica, a aeronave que transportava a equipa embateria fatalmente contra a Basílica de Superga, vitimando todos os seus tripulantes.




Imagem nº 2 - Equipa sensação da Associação Chapecoense que iria disputar, em 2016, a final da Copa Sul-Americana. No entanto, o avião que levava a equipa brasileira cairia em Cerro Gordo (Colômbia), terminando assim em tragédia o seu sonho (71 mortos registados, 6 sobreviventes).
Retirada de: http://www.goal.com/


Nota-Extra: Com este poema, pretendemos prestar a nossa homenagem a estas duas grandes equipas cujo percurso notável foi, em parte, silenciado pela ironia sádica do destino. Todos os jogadores (bem como os restantes tripulantes) que faleceram em ambos os desastres aéreos merecem ser por nós recordados para a eternidade. Viva o Torino, viva a Chapecoense!

Poema nº 192 - Não consegui despedir-me de ti


Não consegui despedir-me de ti
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Não consegui despedir-me de ti
De expressar a mais sincera devoção
Pelo teu sorriso, no qual floresci
Assimilando briosos raios de emoção!

Não logrei confiar sequer às estrelas,
Esta minha inspiração sonante,
Este sonho que embalo pelas vielas
Fruto de uma saudade contagiante!

Jamais nos cruzaremos no futuro
Seguiremos marcos diferenciados
Enredo cruel que me tornará impuro!

Mas à noite, quando mirar o Firmamento,
Desabafarei apenas para o meu íntimo:
Afortunado coração que viveu o teu advento!




Poema nº 191 - Aquela infame porta


Aquela infame porta
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Afonso
Com um semblante triunfante,
Galopava a cavalo
Carregando a cruz de Cristo
Pelas ruas estreitas de Badajoz.
Pelo caminho, derruba soldados mouros,
Abre luz às ambições lusitanas!
Nas suas ligeiras pausas, ora aos Céus, 
Esperando a aprovação divina
Para mais um feito glorioso!
O rei conquistador mostra-se confiante!
Após uma peleja intensa,
Os almóadas já mal resistem:
A praça está quase tomada!
Afonso prostra-se no chão,
E volta a estender as mãos para o alto,
Oferecendo a Deus mais uma vitória!
Ordena que se hasteie o orgulho lusitano
No topo das imponentes muralhas de Badajoz.
Mas a tarde escurece subitamente,
Os guerreiros portugueses embebedam-se,
Desentendem-se na partilha do saque,
Envolvem-se com prostitutas,
Violam donzelas muçulmanas,
Tornando-se indignos da vitória
E de servir a seu ilustre rei. 
A euforia descontrolada e diabolizada
Torna-se num ultraje aos desígnios supremos,
Os risos mordazes ecoam pelas calçadas,
Subestimam todos a imprevisibilidade
Que o destino equaciona reservar!
Oh! Pobres ignorantes
Que nem respeitais o vosso rei,
Nem olhais sequer pela sua segurança!
Ignorais que um novo perigo
Provém do exterior,
Que algumas horas depois
Se ouvirão as trompas ensurdecedoras
Do poderoso exército do rei Fernando II de Leão!!!
Esse soberano cristão,
Qual vassalo da Santa Sé, 
Virá em auxílio do governador mouro,
Em nome de um amaldiçoado pacto!
Esse rei indigno da sua fé
Jamais admitiria que Badajoz
Caísse nas mãos lusitanas
Visto que seria uma afronta
Às ambições territoriais leonesas!
Oh! A chegada dos falsos cruzados
Desencadeia o terror nos portugueses,
Entrincheirados em Badajoz.
Muitos tentam fugir pelas muralhas,
Outros são surpreendidos pelo ataque!
Como é que um exército bêbado e vadio
Poderia resistir a uma força disciplinada
Que os cercava a partir do exterior?
Afonso, esse, tenta sozinho
Escapulir-se no meio da anarquia,
Apesar dos seus sessenta anos,
Derruba um primeiro cavaleiro leonês,
E consegue iludir dois que o perseguiam,
Mas é condicionado pelo peso da armadura:
A sua idade limita-lhe os movimentos.
E Badajoz, labirinto de manhas, 
Esconde dos seus ocupantes “estrangeiros”
Vias confinadas,
Becos sem saída,
Fantasmas maquiavélicos!
Afonso sente que está perto de lograr a fuga,
Mas quando tenta esgueirar-se
Por uma das portas da muralha exterior,
Colide contra o traiçoeiro ferrolho desta,
Cai de seu cavalo,
Cai da sua epopeia vitoriosa,
Para embater no solo frio,
Na realidade de que tudo tem um fim!
O rei fractura a perna direita,
Agarra-se a ela em lágrimas,
E sofrerá com ela para o resto da vida!
É feito prisioneiro do rei leonês, 
E pouco tempo depois libertado!
Afonso, o Pai da lendária Portugalidade,
Jamais se esquecera daquela infame porta,
Fora ela, e não um rei ou imperador,
Que colocara fim à sua hegemonia,
À sua categórica carreira militar.
Fora ela que o destronaria do seu auge bélico
Do seu estatuto mítico imaculado
Para o devolver à mais vulgar condição humana!








Nota-Extra: Poema que tenta retratar o desastre português de Badajoz em 1169. O rei português decidiu ir em auxílio do salteador Geraldo Sem Pavor que já se tinha introduzido no interior das muralhas. Os mouros/almóadas estão prestes a capitular - apenas resistem na alcáçova da cidade. A chegada inesperada das forças de Fernando II de Leão em auxílio do soberano mouro impede que os portugueses possam materializar o triunfo definitivo (o qual estaria iminente). As forças lusas, completamente desorganizadas e indisciplinadas, tornam-se num alvo fácil do inimigo. O rei português tenta fugir por uma das portas da muralha, mas embate contra o ferrolho desta, caindo do cavalo e partindo a perna direita, mazela grave que o acompanhará para o resto da vida. Detido, foi presente diante de Fernando II de Leão (curiosamente seu genro) que tratou de lhe assegurar os cuidados médicos de que necessitava. Não obstante, o rei português só foi libertado mediante o pagamento de um resgate e a devolução de algumas praças ao rei de Leão.

Poema nº 190 - Reabre os teus olhos, Inês


Reabre os teus olhos, Inês 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Reabre os teus olhos, Inês,
Que despontam um azul vivo
Pintado pelos anjos do céu!
Levanta-te desse túmulo
Como uma verdadeira rainha,
Projectando os teus cabelos dourados
Que reluzem loucamente como o Sol!
Liberta-te das rédeas da tenebrosa morte,
Perdoa a infâmia dos teus assassinos
E a cobardia d’el rei D. Afonso IV
Que ousaram derramar teu sangue inocente
No paço do consagrado Mosteiro de Santa Clara!


Reabre os teus olhos, Inês,
Lembra-te daquele dia soalheiro
Em que D. Pedro, o jovem príncipe,
Te mirou pela primeira vez
Com uma veemência vibrante,
Rendido ao teu perfume corporal de jasmim!
Eras apenas uma aia de D. Constança,
Mas a beleza e a nobreza de carácter
Não eram exclusividade dos magnatas
Como muitos se atreveram a insinuar.
Fizeste com que D. Pedro acreditasse no amor,
Insurgindo-se contra a viciação matrimonial.


Reabre os teus olhos, Inês,
É altura de abraçares de novo os teus quatro filhos,
De seres a mãe presente que não te deixaram ser,
De devolveres paz ao rio Mondego que viu a tua dor!
E com essa tua expressão singela,
Ergue-te desse túmulo de mármore,
Beija o rosto do homem que está sepultado à tua frente:
Esse teu amado rei que padeceu da tua saudade:
D. Pedro que, aguardando pelo dia do Juízo Final,
Fez questão de partilhar o sono da morte contigo,
Desejando contemplar, na ressurreição, como primeira imagem,
A tua afável face, o paraíso do teu regaço!




Imagem nº 1 - A paixão de D. Pedro e D. Inês de Castro em pintura.




Imagem nº 2 - Túmulos de Inês de Castro e D. Pedro em Alcobaça (sepultados frente-a-frente).

Poema nº 189 - Al-Mutâmide, o rei-Poeta de Sevilha


Al-Mutâmide, o rei-Poeta de Sevilha
(Crónica, em moldes poéticos, da autoria de Laurentino Piçarra)

Na Beja outrora muçulmana,
Nascia um príncipe,
Um homem que fez da poesia
A sua própria arte de expressão!
O seu nome era Al-Mutâmide,
Era filho do rei mouro de Sevilha.
Elegante, esbelto e determinado,
Partiria imensos corações femininos
Sempre que se deslocava à praceta!
Ainda jovem, foi nomeado governador de Silves!!!
Oh Silves - essa terra da qual diziam maravilhas:
Um pólo cultural que congregava eruditos,
Uma universidade de virtudes do al-Andalus!
Foi ali que Al-Mutâmide conhecera Ibn Ammar,
O seu poeta-tutor que amara perdidamente,
Numa admiração mútua de intelectualidade!
Foi também ali no Palácio das Varandas,
Citado no seu poema evocatório de Silves,
Que Al-Mutâmide se envolvera com as musas
Mais irresistíveis do seu tempo,
Em noites ardentes repletas de música, dança e poesia!
Oh! Al-Mutâmide amava o seu mestre
Mas também bebia do erotismo feminino.
Revelando o ardor típico da juventude!
Descontente com os acontecimentos,
O progenitor de Al-Mutâmide decidiu exilar Ibn Ammar,
Porque censurava a sua influência íntima
Que desencaminhava o seu filho!
Os anos foram passando,
Al-Mutâmide sucederia a seu pai em Sevilha,
Nomearia o seu amigo preferido como vizir
Que assim regressaria para o servir!
Ibn Ammar conquistaria Múrcia
E venceria Afonso VI numa insólita partida de xadrez,
Demovendo o monarca cristão de uma potencial ofensiva
Aos territórios integrantes da taifa!
O rei Al-Mutâmide promoveria o mecenato em Sevilha,
Reunindo poetas, geógrafos e astrónomos!
As cortes repletas de luxo,
Assistiam ao consumo desmesurado do vinho,
À imoderação sexual,
E à lassidão dos costumes!
O próprio soberano não se negava aos prazeres!
Pareciam ser tempos áureos!
Mas a política tende a arruinar homens cultos,
E a maldita sede de poder e protagonismo
Traz ao de cima os piores instintos.
Al-Mutâmide, então enamorado de Itimad,
Uma concubina graciosa que também recitava poesia,
Começou a desconfiar de Ibn Ammar,
Diziam que o seu amigo conspirava contra ele,
Lavrando versos depreciativos contra o casal reinante!
Ibn Ammar estaria ainda a ultimar a independência de Múrcia,
Rebelando-se assim contra o seu soberano,
Aquele que sempre o tratara com nobreza!
Oh!!! Quantos tremores se sentiram no palácio de Sevilha!
O rei-poeta temia ser atraiçoado por quem mais admirava!
Como Ibn Ammar mudara!
Teria ciúmes daquele relacionamento frutuoso?
Inveja do rei a que servia?
Estaria o seu coração cegado pela sede de poder?
Também al-Mutâmide deixara afectar-se pelo ódio,
Tornara-se frio e impaciente,
Deixara-se levar pelos ventos de rancor,
Ordenando mesmo a prisão do seu antigo amigo.
E num dia amaldiçoado pelo destino,
Saturado de tanta intriga,
Decidiu entrar na cela de Ibn Ammar,
E com um machado,
Desferiu o verso mais negro da sua vida,
Provando que a barreira entre o amor e ódio
Será eternamente ténue,
Não teria ele sentido remorsos do que fizera?
Mas o fim de Al-Mutâmide também estava próximo,
Os cristãos avançavam na sua cruzada peninsular,
Cenário que exigia uma resistência vincada!
Iúçufe ibn Texufine, emir de Marraquexe,
Partiu de Marrocos com uma força poderosa,
Derrotou o rei leonês Afonso VI em Zalaca,
E quatro anos depois, numa nova iniciativa almorávida,
Tomaria vários reinos-taifas.
Sevilha cairia e o seu rei também.
Al-Mutâmide e a sua mulher acabariam por ser desterrados
Para Aghmat, onde viveriam os últimos dias!
Em solo marroquino, e sob o manto da discrição,
E ao abrigo de condições miseráveis,
O filho de Beja criou poemas repletos de sentimentalidade,
Nutrindo saudades de Sevilha,
Dos seus palácios, jardins e olivais,
Dos seus amores e desamores!
E Aghmat, terra humilde que acolhera as suas lamurias,
Tornar-se-ia num centro de peregrinação poética,
Num dos exemplos vivos da herança do al-Andalus!







Nota-Extra: Al-Mutâmide viveu entre 1040 e 1095. Nasceu em Beja e viria a ser rei-poeta de Sevilha. Teve uma amizade (muito) colorida com o poeta Ibn Ammar (natural de Estômbar; especula-se que houve inclusive um relacionamento de cariz homossexual). Mas Al-Mutâmide também se envolveu com várias mulheres na juventude, acabando por se apaixonar mais tarde por Itimad, uma concubina muito bonita que sabia declamar poesia popular em público. O relacionamento entre Al-Mutâmide e Ibn Ammar terminou em tragédia, por causa das intrigas do poder político no próprio reino muçulmano de Sevilha. O rei matou friamente o seu vizir na cela onde este estava detido... Teria demonstrado mais tarde arrependimento pelo que fizera?
Tanto Al-Mutâmide e Ibn Ammar foram poetas muçulmanos que nasceram no "Portugal Árabe" mas que assumiriam cargos políticos prestigiantes no al-Andalus. Este poema pretendeu recordar a sua existência.

Poema nº 188 - Aimar, o Ulisses Argentino da bola


Aimar, o Ulisses Argentino da bola
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Quem é aquele prodígio 
Que faz maravilhas com a bola
Em plena catedral do futebol?
Quem é esse artista 
Que faz levantar um estádio inteiro,
Tratando a bola com classe
Com a mesma ternura de um poeta
Que, apaixonado, declama versos à sua musa?!
De pequena estatura,
Mas com um cabelo comprido,
Dizem que é natural da Argentina
E que se chama Pablito Aimar,
Para muitos um deus do futebol,
Um mago contra a ciência regrada dos relvados 
Que já estivera no River Plate e no Valência
E que seria glorificado pelos benfiquistas.
Oh! Que miscelânea de míticas recordações!
Quantas pinturas ele nos deixou nos relvados?
Quanta nostalgia depositou nos amantes do futebol?
Quanta euforia causou pelos clubes por onde passou?
Aimar fantasiou o futebol,
Reinventou-o com a sua originalidade e mestria,
Com uma visão de jogo peculiar,
Com um raro dom de se imaginar,
E eu, na qualidade de vulgo mortal,
Admito que Aimar sempre me inspirou
Enquanto profissional,
Enquanto criativo,
E hoje faço uma vénia
Ao Ulisses Argentino
Que derrubou várias muralhas do mau futebol,
Para evidenciar o seu génio,
O seu poema inesquecível para a modalidade,
O seu contributo para os deuses do Olimpo:
Estes igualmente rendidos ao seu talento,
Ao primor da sua técnica celestial.




Foto - Getty Images

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Poema nº 187 - Marés da Vida


Marés da Vida
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Desencontros
E mais desencontros,
São aos milhares
Neste tabuleiro fugaz
Que é a vida humana.
Amizades que se perdem,
Amores que se apagam,
Sorrisos que se dissipam
Só porque o tempo foi impaciente,
E a ilusão, um sufoco permanente!
E essa ingratidão agregada ao destino
Torna-me refém do saudosismo,
Do passado que adorava redesenhar,
Tornando-o num arco-íris radiante
Capaz de transmitir sensações únicas
Encantos primaveris inolvidáveis!
Mas não há tempo para lamentos,
Porque o destino é imperador,
E nós, meros mortais,
Somos navegadores em alto mar,
Enfrentando as mais ousadas marés,
Para assim cumprir os desígnios vitais
Até ao derradeiro suspiro!





Poema nº 186 - Folhas Caídas


Folhas Caídas
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Naquela tarde de Novembro,
Uma turba de folhas caídas
Populava pelas ruelas e calçadas
Despidas de entusiasmo e alegria.
As árvores sacudidas pelo vento,
Não resistiam a perder a sua verdura,
A pujança de outros tempos!
Cada folha voava anarquicamente
Rumo ao desaparecimento repentino,
Àquilo que dizem ser o nada.
Uma a uma esfumavam-se no horizonte,
Sobrevoando diante de um sol tímido
Numa solidão lúgubre que antecipa a partida final!
E cada folha abraçava o seu destino
Para se perder no esquecimento universal!
A última que observei emergiu diante da neblina
De tal forma, que senti a sua despedida
A amargura que aparentava nutrir
Antes de ser engolida por um rio próximo!
Quem é que se lembrará daquela folha?
E da sua árvore-mãe?
Quem se recordará do seu galho de residência
Onde convivia com as suas irmãs e amantes?
Não terá sido ela feliz?
E assim, naquela tarde nostálgica de Outono,
Convenci-me de que nós também somos folhas caídas
Libertadas por um céu enigmático,
Motivadas por sentimentos de pertença,
Mas destinadas a abraçar sozinhas
Um fim inglório.




Imagem retirada do Google

Poema nº 185 - A Fúria Romântica do Deus Neptuno


A Fúria Romântica do Deus Neptuno 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Neptuno,
Juro que nunca percebi a tua fúria,
Essa tua raiva que despoletas a cada Inverno,
Fazendo levantar as ondas do Furadouro,
Através do tridente que ostentas na mão!
Porque levas vários pescadores ao desespero?
Porque semeias a aflição em diversas famílias?
Porque não proteges tu a costa do concelho de Ovar?
Não serás tu o deus dos mares e das nereidas?
Não gostas da escultura que te dedicaram naquela cidade?
O que faz colapsar a tua sensatez?
Divaguei por entre estradas, ruelas e calçadas
Para encontrar uma resposta a estes dilemas,
Mas a chave do enigma se achava numa praia,
Num areal banhado pela ria de Aveiro,
Num lugar pacato a que chamam Praia do Areinho:
Ali residia a nova paixoneta do deus romano,
Uma musa que, a cada noite, emergia de entre o lodo da ria
Para depois se enrolar nua pelo areal
Liberando um olhar doce às estrelas do Universo!
De olhos verdes, ela era a perdição do Deus Neptuno,
Era o verbo que apoquentava o seu coração
Mas ela resistira às malogradas intenções de Neptuno
Que sofreria um tremendo desgosto amoroso,
Uma paixão não correspondida,
E por isso, desde então,
Este novo deus-poeta revoltado com tudo e todos,
Versa em alto mar ondas enormes de frustração!
Percebera finalmente após milénios de existência
Que o amor é mais importante do que o poder,
Podendo salvar o rumo de várias vidas
Ou enviá-las, em caso de ilusão, para um abismo sem fim!




Foto antiga do Chafariz Neptuno em Ovar 
Retirada do Jornal-Blogue "João Semana"

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Poema nº 184 - Passagem Misteriosa


Passagem Misteriosa
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Nada sei sobre a nossa passagem misteriosa
Por este estranho mundo,
Sei que sou mais um caminhante
Que por aí deambula 
À procura de uma verdade ou teorema
Que confira lógica à existência!
E neste adensar de reflexões,
Quando olho à noite para o céu
Observo todo um agrupamento de estrelas,
Esses diamantes do Universo
Que nos são inalcançáveis
E que cintilam diante da escuridão,
E para mim postulo com convicção:
Que privilégio único do nosso viver:
Visionar as pinturas em aguarela do nosso Firmamento,
Ser parte integrante dos seus infindáveis mistérios
Sem que saibamos o que nos está reservado! 
Entretanto, e no silêncio do meu olhar,
Descortino por algures na minha agenda 
Uma rubaiata exemplar de Omar Khayyam
Que nos insta a cultivar a rosa do amor
Nos nossos piedosos corações, 
De modo a que a nossa curta vida não seja em vão!
Direi inclusive mais:
Se enchermos a terra de afectos e ternura,
Então nos tornaremos também estrelas desse Universo
Porque a nossa luz perdurará nos tempos vindouros,
Mesmo após a nossa partida,
E contaminará todos os outros 
No caminho do amor e da paz.




Poema nº 183 - Ovar, dizem-me que és...


Ovar, dizem-me que és...
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Ovar,
Dizem-me que és... 
Berço-mãe das formosas varinas,
Pintora de azulejos coloridos,
Arquitecta de rústicos palheiros,
Produtora de um insigne pão de ló,
E ainda figurante de proa em cada cortejo carnavalesco!
Tudo em ti, Ovar, são devaneios artísticos,
Ventos de emoções 
Expelidos pelo tridente do Deus Neptuno
Que assim populam pelas calçadas,
Convertendo as gentes à sua identidade.

Ovar,
Dizem-me que és... 
Pescadora e mestre da Arte Xávega,
Musa sedutora de um vasto areal,
Princesa de um castelo esquecido,
Fiel protectora das genuínas lavadeiras,
Fonte angelical que sacia a turba popular!
E se o silêncio dos teus antepassados 
Repousa no seio dessa tua paisagem discreta
Então o seu exemplo perdura pelos mortais,
Teus filhos, teus príncipes,
Teus infatigáveis guerreiros
Que farão renascer a tua mística a cada alvorada.




Foto da autoria de José Pinto (Olhares - Sapo)

Poema nº 182 - O Cativeiro do Nada



O Cativeiro do Nada
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Que será de mim
Quando for parte do nada?
E como será inglório esse nada
Quando outrora já fui vida?
Que amei e deixei de amar,
Que sonhei e deixei de sonhar,
Que criei e deixei de criar!
Como é que o principal capítulo,
O da existência,
Se resume apenas a três quartos de século,
Quando a realidade física é eterna?
Como é imparável esse nada
Que nos arrasta para o seu vazio
Que nos vulgariza aos olhos do Universo
Que transforma tudo o que fomos
Numa história sem conteúdo,
Numa palavra sem significado,
Num arquivo sem documentos!
É esse nada que nos espera,
Que nos aprisionou antes do advento da existência
E que não poupará ninguém à sua saga!
Mas há algo que não me posso lamuriar,
É que tive o privilégio singular
De ter escapado, nem que por instantes,
Das profundezas desse poço da inexistência.
E se tal aconteceu,
Contra toda a lógica e filosofia,
Então devo-o a Deus 
Ou à Mãe Natureza!



Imagem retirada algures da Internet

Poema nº 181 - A tua fragrância



A tua fragrância
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


A tua fragrância é um enigma
Que faz reacender o meu coração
Rumo a um auspicioso paradigma
Onde será antagonizada a privação!

E quando te miro, adensa-se o mistério:
Esse odor advém afinal do teu interior
Do teu coração que é o maior império
Que silencia nos outros a tortuosa dor!

E bem sei que a pureza do teu espírito 
Não se equipara aos dos comuns mortais
Desconhecedores do teu enclave restrito!

Resta-me portanto perder-me na certeza
De que a tua vida é a junção de todas as rosas 
Que transformam a tua simplicidade em realeza!




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Poema nº 180 - O Visionário de Lagos


O Visionário de Lagos (ou "O Visionário da Praia de Lagos")
(Poema de 4 estrofes da autoria de Laurentino Piçarra)

Como correm suaves as ondas em Lagos
Aos olhos daquele menino
Que almeja no mar o horizonte
Quiçá inalcançável para as mentes humanas.
O seu nome é Gil,
Tem ainda dez anos, 
E já brinca à apanha de búzios,
Esmerando-se em ouvir os seus prodígios!
A criança sonha em alcançar proezas,
Quer ser príncipe dos oceanos,
Quer decifrar todos os seus segredos!

Como correm cambaleantes as ondas em Lagos,
Aos olhos daquele jovem adulto,
Que almeja no mar o horizonte
Quiçá insuperável para as mentes humanas.
O seu nome é Gil,
Tem agora vinte anos,
É escudeiro do Sábio da Arte Náutica,
É servidor do Infante-Mar,
Escuta os prudentes conselhos de D. Henrique,
Antes de interpretar o rol de mapas
E demais instrumentos orientadores!

Como correm encrespadas as ondas em Lagos,
Aos olhos daquele adulto amadurecido,
Que almeja no mar o horizonte
Apenas atingível para as mais inspiradas mentes humanas!
O seu nome é Gil,
Tem já trinta anos, 
É navegador em pleno Oceano Atlântico,
É marinheiro que engole água salgada
Quando as ondas gigantes assediam a sua barca,
É visionário que se impõe entre as brumas
E que doma as míticas tempestades!

Como correm endiabradas as ondas em Lagos,
Aos olhos daquele veterano,
Que almeja no mar o horizonte
Apenas expectável para as mais geniais mentes humanas!
O seu nome é Gil, Gil Eanes,
Tem já os seus quarenta anos,
Conserva intacta a sua fantasia de criança,
E aventura-se agora na tenebrosa costa africana,
Orando ao céu, e lendo as estrelas do Firmamento,
Para assim dobrar o Cabo do Medo,
E lavrar em letras de ouro o seu épico momento!





Imagem de uma moeda cunhada com a imagem do navegador.



Nota-Extra: No ano de 1434, Gil Eanes (homem de confiança do Infante D. Henrique - é a esse "D. Henrique" que o poema faz alusão) dobra o Cabo Bojador com recurso a uma barca, após várias expedições fracassadas. Chamamos à atenção para as tipologias das embarcações. Ao contrário de Bartolomeu Dias (que recorreria a duas caravelas para dobrar o Cabo da Boa Esperança em 1488 - ver poema e respectiva nota de rodapé da publicação anterior), Gil Eanes teria utilizado uma embarcação diferente ("uma barca", como já o dissemos) para contornar o Cabo Bojador.
Gil Eanes seria natural de Lagos (Algarve), o que fez com que nós propuséssemos dois potenciais títulos para este poema ("O visionário de Lagos" ou "O visionário da Praia de Lagos"). Este poema tenta ilustrar um pouco da biografia do navegador, embora não seja fácil uma reconstituição precisa. O poema segue ainda uma lógica - à medida que a vida do navegador avança, o mar assume fases mais atribuladas porque as adversidades vão aumentando, mas a vitória final de Gil Eanes tornará o objectivo, antes inatingível para a Humanidade, perfeitamente concretizável a partir daquele ano de 1434. 

Poema nº 179 - Navegador Valente


Navegador Valente 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Quem é aquele marinheiro
Que ousa contornar o cabo da Morte,
Desafiando a vontade dos deuses do mar?
Não conhecerá ele a fúria do Adamastor
E de outros monstros marinhos
Que devoram todas as embarcações
Que por ali passam?
Desejará ele conhecer os mausoléus náuticos
Que se ocultam nas profundezas marítimas?
Ou quererá antes embater nos fatais rochedos,
Com o seu corpo a desembocar numa praia deserta
Partilhando do destino de muitos náufragos
Abandonados pelas ninfas da glória?!
Bartolomeu, porque procuras então o suicídio?
Não terás familiares e amigos?

Mas o pessimismo é algo que não te demove:
Não, tu não és um aventureiro qualquer,
As tuas origens não te desmentem,
Tens os genes desse destemido povo
Que de pequeno se fez colosso,
Destruindo mitos e abrindo novos horizontes!
Às tormentas, Bartolomeu impôs a boa esperança,
Às incertezas, Bartolomeu contrapôs com a fidúcia,
À escuridão, Bartolomeu avocou a luz.
E naquele dia vitorioso,
Em que o cabo foi dobrado
O então almirante da caravela “São Cristóvão“
Subiu eufórico ao mastro
E clamou por fim:
“Não há gigante algum que derrube a alma lusitana”!




Retrato retirado de: http://www.marinha.pt/



Nota-Extra: As caravelas São Cristóvão e São Pantaleão dobraram o Cabo da Boa Esperança em 1488. A façanha de Bartolomeu Dias permitiu descobrir novas terras e mares, acabando igualmente por garantir acesso ao Oceano Índico (embora este ainda situado um pouco mais a leste). Todavia, ironicamente Bartolomeu Dias, após alcançar tal tremendo êxito, teria acabado por sucumbir nas proximidades do cabo numa expedição posterior ocorrida em 1500, quando os portugueses tentavam dirigir-se à Índia. Não obstante, isso não lhe retira o mérito do feito então alcançado em 1488 e que merece o nosso reconhecimento.

Poema nº 178 - Falta-nos ser como as crianças


Falta-nos ser como as crianças
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

As crianças são prodígios da Natureza,
Que mesclam a inocência do seu pensamento
Com a fantasia dos seus sonhos.
Elas são cascatas de água cristalina
Que purificam os rios maduros já poluídos
Pelas arremetidas da mentira humana!
Sim, todos nós deveríamos ser como as crianças,
Comungar da sua candidez
Para quebrantar o rancor e o ódio
Que apenas germinam conflitos fúteis!
Na verdade, “nós” adultos não sabemos velar por elas,
Não logramos preservar o seu tesouro encantador,
E, através da nossa medíocre negligência,
Arrastamo-las para as ruas da mortandade,
Seja na Síria, em África ou noutras regiões destroçadas!
“Nós” adultos não sabemos partilhar
Como as crianças o fazem genuinamente,
Egoístas, queremos tudo para o nosso conforto,
E nos olvidamos de todos os que sofrem
Porque não têm leite e pão
Porque não dispõem de médicos,
Porque choram a perda atroz das suas famílias!
Mas o maquiavelismo adulto não se fica por aqui:
“Nós” lançamos bombas que arrasam aldeias e vilas,
Minamos terrenos onde as crianças jogam à bola,
Destruímos os seus belos sonhos pela obsessão do poder!
E nós do Ocidente,
Que nascemos num berço capitalista,
É-nos logo ensinado a aceitar as injustiças do mundo,
Somos desencorajados na esperança
Por um mundo mais justo e fraterno
Porque simplesmente renegamos as nossas origens,
As nossas almas humildes dos tempos de criança,
E deixamo-nos silenciar ou até corromper
Pelos pecados enraizados das sociedades adultas,
Permitindo que a tirania triunfe sobre a fantasia!
Mas desenganem-se todos aqueles
Que julgam que o Sol apenas nasce para os poderosos:
O Sol não é hipócrita
Nem tampouco se acomoda,
Porque “ele” bem sabe
Que é a alegria das crianças
Que é o seu companheiro de esperança
Para que a Humanidade possa acordar para um novo dia,
Um dia em que todas as crianças sejam tratadas como “príncipes”!








Nota-Extra: Poema escrito após ter lido uma notícia que relatava o caos reinante em Alepo, a segunda cidade mais importante da Síria, sendo que esta urbe tinha inclusive ficado sem o seu último pediatra...

Poema nº 177 - Pelourinho da Consciência


Pelourinho da Consciência
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Tudo o que fazemos
Ou que fica por fazer
É motivo de julgamento
Seja num plano metafísico,
Seja somente na nossa consciência!
Cada ser humano
Conhece nas profundezas do seu interior,
Um pelourinho,
Um pelourinho que é antigo,
Que nos exige responsabilidades,
Que nos pode transmitir paz interior,
Ou que, pelo contrário,
Nos votará ao inferno dos remorsos!
Nem a justiça terrena logra equiparar-se
A esse pelourinho da consciência
Que consegue ser mais penalizador
Mais tortuoso, mais eficaz
Porque visa a alma, e não o corpo!
Somos nós próprios que o erigimos
Num sentido orientado para o Céu,
Mas numa abordagem centrada em Terra,
Onde todos os actos são auto-avaliados!
Esse pelourinho da justiça interior
Expõe as nossas falhas, as nossas culpas,
Denunciando o orgulho negligente
E até o egoísmo deprimente!
Se o soubermos ter em consideração,
O nosso pelourinho será apenas um monumento
Para fins ornamentais,
Sem qualquer funcionalidade relevante;
Caso contrário,
Ele ficará manchado de sangue,
De humilhação e de vergonha,
Porque a auto-consciência é o tribunal mais rígido
Que exerce os poderes da nossa existência
E ainda bem que assim o é!
Pois é esse pelourinho que nos incute discernimento
Que separa os verdadeiros humanos dos "animais",
Que nos impõe limites à nossa conduta,
Para que possamos todos contornar as muralhas de ódio,
Penetrando assim no coração puro da Humanidade!




Foto - Daniel Jorge (Pelourinho de Bragança)

Poema nº 176 - Poema à minha amiga Isaura


Poema à minha amiga Isaura

Isaura,
Contaram-me os pássaros do meu quintal,
Que quem te conhece jamais te esquece,
Que és uma mulher além da explicação científica
Ou da lógica racional da filosofia!
Guardas em ti uma fonte recheada de encanto,
Um olhar singelo que propaga entusiasmo!
As tuas pálpebras que pintas de azul
São a mais bela expressão do mar,
Das ondas desse teu mar revolto
Perante as injustiças cometidas em terra!
O teu nariz é uma vetusta pirâmide do Egipto,
Situada mesmo junto ao Rio Nilo,
Onde tu guardas os teus incalculáveis segredos
E os teus tesouros de invulgar sentimentalidade!
Sei ainda que esse teu cabelo dourado
É o ninho de toda a inteligência e frontalidade:
Ali pousam as cegonhas graciosas
Que distribuem o saber pelo mundo
Quando sobrevoam as comunidades!
No teu coração, sei que ostentas uma flor da Tunísia,
Que te transmite felicidade e boas energias,
Um optimismo renovado perante o deserto envolvente!
Com tantas e infindáveis virtudes
Logo percebi porque alcançaste tantas amizades,
Mas continuava a não compreender a tua nobreza singular,
Essa equação quântica perfeita que te personalizava,
Essa tua insuperável devoção pela liberdade!
Só mais tarde, descobriria a verdade:
Tudo acontecera num certo dia
Em que o sol acordara alegre,
Tendo vestido de cor os campos da região,
E ali um cravo expedito me contou
Que havias nascido numa das datas mais bonitas,
Sem nunca te teres deixado corromper,
Mantendo a integridade do teu ser!
Sim ,esse cravo me confidenciou:
"A Isaura floresceu no dia 25 de Abril,
Fiel à pureza dos seus ideais,
Incondicional defensora dos oprimidos,
Mulher-guerreira sedenta por justiça,
Mulher-poema repleta de compaixão,
Mulher-liberdade com asas de borboleta"!




Foto da minha amiga Isaura que sempre se revelou como uma pessoa sincera, simpática e atenciosa na nossa relação de amizade.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nova presença no Programa "O Correr das Águas" (Rádio Clube da Feira)

No passado dia 19 de Junho, tive o prazer de voltar a estar presente no programa "O Correr das Águas" conduzido exemplarmente por Dinis Silva na Rádio Clube da Feira (104.7 FM; concelho - Santa Maria da Feira). Connosco esteve igualmente o poeta e músico Reinaldo Santos. O diálogo foi bastante construtivo, tendo sido abordadas diversas questões relacionadas com o meio-ambiente (debatemos em particular a situação da Barrinha de Esmoriz que finalmente poderá ser reabilitada em breve), com a música clássica e com o panorama geral da cultura em Portugal. Como é natural, desfrutamos ainda da oportunidade de recitarmos quatro poemas perante os ouvintes. No meu caso, recitei os sonetos "Saudoso Apeadeiro" (nº 159) , "Paixão Natural" (nº 151), "O Dilema do teu Moinho" (nº 155) e "O teu chão" (nº 136), todos eles da minha autoria e que podem ser aqui encontrados no blogue. 
Para nós, foi uma honra regressar àquele estúdio que tanto tem feito para divulgar o melhor da cultura nacional. Senti-me lisonjeado pelo convite endereçado pelo senhor Dinis Silva, e da minha parte, posso garantir que continuarei a partilhar, nesta página, novos versos. A poesia é para mim uma forma de estar na vida e de expressar tudo aquilo que sinto ou que me vem à memória.




Imagem nº 1 - Reinaldo Santos (à direita) e Laurentino Piçarra (à esquerda) deram um pouco do seu próprio contributo para a cultura portuguesa, no passado dia 19 de Junho.
Foto - Dinis Silva - Rádio Clube da Feira

terça-feira, 28 de junho de 2016

Poema nº 175 - Se Portugal fosse apenas uma pessoa


Se Portugal fosse apenas uma pessoa
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Se Portugal fosse apenas uma pessoa:
Teria a alma guerreira de D. Afonso Henriques,
Faria poesia trovadoresca como D. Dinis,
Amaria Inês de Castro com o coração de D. Pedro,
Partilharia da infindável crença de D. João I,
E seria, por fim, na conjugação das suas virtudes
Um valente marinheiro ao serviço de D. Manuel
E de todos os seus herdeiros!
As crónicas narram-nos a biografia desse Portugal
Um ser lendário de pequena estatura
Mas portador de uma energia surpreendente,
Que seguiria Vasco da Gama até à Índia,
A afamada terra das Especiarias,
Para depois juntamente com Pedro Álvares Cabral
Descortinar as belas indígenas do Brasil
Apreciadas então por Pero Vaz de Caminha!
Contaram-me também que Portugal já foi poliglota
Dominou o latim, o árabe e o galaico
Até recriar a sua própria língua
Tão reverenciada pelos seus camaradas de viagem
Que logo a semearam pelos gentios!
Do que depreendi a partir de outras fontes
Sei também que Portugal foi um valoroso combatente,
Com predisposição para a batalha,
Para o embate contra os inimigos,
E assim se aprontava a correr para os canhões,
Sem antes olhar para as velas do mastro
Que exibiam a Cruz de Cristo,
"Escudo" protector dos seus intentos!
Mas tal como o Infante Santo D. Fernando,
Portugal também está preparado para o martírio,
Para o sofrimento que a glória exige,
Porque o mérito não surge sem sacrifício!
Nessa sua caravela, Portugal revela argúcia:
O seu compartimento acha-se repleto de mapas
E numa mesa, a bússola do Infante D. Henrique
Torna-se o segredo desse eterno e mítico Portugal
Que não se perde no seu oceano de virtudes,
Que salvaguarda a imensidão do seu prestígio!
Depois de acender uma pequena vela,
O nosso biografado senta-se junto à mesa,
E com uma pena e um pergaminho,
Regista os feitos prodigiosos das suas viagens,
Através da inspiração conjunta do seu camarada
Ao qual dão o nome de Luís Vaz de Camões,
Um homem pobre que perderia o olho direito,
Mas cuja cultura ímpar o faria amigo
Do nosso destemido Portugal.
Oh! E assim nascia o sonho do Quinto Império
Tão badalado por um Fernando Pessoa!
Mas hoje bem sabemos que a realidade é outra,
E o passado não mata as agruras do presente,
Contudo, tenho de o afirmar veementemente
Para que a verdade perdure pelo universo:
Esse Portugal, esse nosso Portugal,
Vulto imaterial e omnipresente,
Cometa de feitos luminosos,
Foi tudo aquilo
Que todos os outros,
Mesmo atolados hoje em rios de dinheiro,
Jamais o serão!
E junto à Torre de Belém,
Onde redigi estes versos,
A todo o mundo perguntei
Sem obter até então resposta:
Quem de vós ousará colocar em causa
A inusitada coragem dos filhos de Portugal
Que deram o mundo a conhecer?


Poema escrito a 10 de Junho, Dia de Portugal e de Camões.




Foto retirada de: turmadivertida.blogs.sapo.pt

Poema nº 174 - Tempo Divino


Tempo Divino
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Não discutas com o tempo,
Não o aborreças com as tuas inquietações,
Não o tornes refém da futilidade
Ou das tuas tortuosas cismas pagãs.
O tempo é o maior tesouro
O maior privilégio que nos foi emprestado
Sem que tivéssemos feito nada para o merecer!
O tempo é a divindade suprema,
O inalcançável guardião do passado,
O único ancião vaticinador do futuro
Que tudo sabe, que tudo antecipa!
E esse tempo, que muitos julgam indiferente,
Sem princípios ou moldes de conduta,
É a mais alta fonte da inspiração humana,
É um deus desprovido de elegância
Que dispensa qualquer veneração,
E cujo seu único mandamento 
Incrustou numa rocha à beira-mar
Perfilada pelas virgens ondas do mar
Que logo transmitem aos búzios
A mais selvagem das verdades:
"Carpe Diem".





domingo, 19 de junho de 2016

Poema nº 173 - Braço de Rio



Braço de Rio
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Corre, corre para visitar o teu irmão,
Desfruta do dealbar de um novo dia,
Para desvaneceres a solitária crispação
Nessa tua busca pela sereia da alegria!

O teu irmão, o rio maior, também a quer,
Evocando a sua ascendência sagrada
E os domínios que tomou pela alvorada,
Agora oferecidos à almejada mulher!

E tu braço de rio, nada tens para o dote,
Apenas o conselho do Sol para que a olvides
Porque em ti jamais renascerá a sorte!

Mas não desistas do sonho, riacho pobre,
Porque é ele que alimenta o teu viver,
A tua paixão floreada pelos guarda-rios!




Foto retirada de: wallpapermanix.blogspot.com

Poema nº 172 - Pavões Lusitanos


Pavões Lusitanos 
(Soneto irregular da autoria de Laurentino Piçarra)


Na região onde vivo, há tantos pavões 
Que propalam uma recorrente vaidade,
Iludindo o povo com fúteis distracções
Enquanto vagueiam pela ociosidade.

As penas multicolores que patenteiam
São arcos-íris de cores apagadas
Atalhos vis que nos desnorteiam
Apostas em directrizes fracassadas.

Esses pavões também têm muitos olhos 
Não lhes faltará assim uma boa visão,
Visão essa que turvará a sabedoria popular.

Pelos vistos, adoram ser fotografados 
Aparecer nos jornais com total distinção
Com sorrisos e andamentos refinados.

E agora perguntam-me: onde estão eles?
Eu nunca vi nenhum, mas sei que existem.
Pelo menos, há-os em todas as povoações.




Direitos da Foto - Shemai.com