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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Poema nº 221 - A melodia singular do teu bosque



A melodia singular do teu bosque
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Achado no bosque da brandura
Escuto as notas da tua harpa
Que irradiam uma suave ternura
Um dócil alento que, de ti, zarpa!

Fisicamente, não te consigo ver,
Mas pressinto o teu aroma rosado,
A verdura espiritual do teu saber
Em forma de arbusto indomado!

Ausculto o ruído da ventania anciã
Que reproduz a tua voz aprazível
Dom que supera qualquer distância!

E por entre a dança viva dos eucaliptos
Descortino aquele sol de cor reluzente
É dele o teu sorriso, do qual sou crente!




 Imagem da autoria de Igor Plotnikov


Poema nº 220 - A crença no seio da descrença


A crença no seio da descrença
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Não vejo Deus, nem a bonança
Aguardo pelo sopro da mortandade
Porque a vida é uma soturna dança
Uma valsa renegada pela orfandade.

Visiono os astros do Firmamento
Filhos da absoluta escuridão eterna,
Desapaixonados pelo nosso sofrimento
Serão eles os corvos da Primavera!

Os prados se converterão em rochedos,
A Lua tratará de eclipsar o brilho do Sol,
A ilusão-mor será o paliativo dos medos!

Mas ainda assim, não abdicarei da crença
De uma luz superior que nunca desvanece
Mesmo não enxergando a sua omnipresença!




Gravura retirada algures do Google Imagens.

Poema nº 219 - Abutres do nosso Mundo



Abutres do nosso Mundo
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Onde subsiste a carnificina 
Militam os abutres por perto
Promotores da fatídica sina
Em que a morte é o deserto.

No silêncio forçado das vítimas 
Reside a sua hegemonia nefasta
Traduzida em investidas ilegítimas
Sentenças de uma sorte madrasta!

Eles desvelam uma perspicácia atroz
Secundados pela teia de carrascos
Que exorta à perseguição feroz!

Embora se alimentem da repressão
E das suas dissimuladas aparências,
O seu interior é lotado pela erosão.







Nota-Extra - A crítica é essencialmente direccionada, não às aves, mas aos abutres humanos que não teimam em largar o poder, não respeitando os direitos do povo ao qual deveriam servir.

Poema nº 218 - Levar-te-ia a uma velha ponte



Levar-te-ia a uma velha ponte
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Levar-te-ia a uma velha ponte
Para mirarmos os guarda-rios
Que sobrevoam no horizonte
Saciando os sentires vazios.

Observaremos as cegonhas 
Que nidificam nos choupos,
Exibindo suas garbosas fronhas
Perante os agires abruptos. 

E nós parte integrante da paisagem,
Partilharemos do afecto dessas aves,
Porque somos fórmula selvagem!

Voaremos por entre os arcos romanos
Com as asas dadas para a eternidade,
E com uma paixão que vence oceanos!




Imagem de uma ponte antiga situada no Marvão
Créditos da Foto - Daniel Jorge

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Poema nº 217 - Aleixo, o Poeta Genuíno


Aleixo, o Poeta Genuíno
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Leio e mergulho nos teus versos 
Esculpidos de sentimentos genuínos 
Que denunciam os vícios submersos
De uma sociedade sem desígnios.

Tens a perspicácia de um falcão
As garras afiadas de uma águia 
A autoridade temida de um sultão 
Cujo eco arriba às serras da Calábria.

És, na verdade, o poeta do povo!
Não vestes o manto da hipocrisia 
Só para agradares aos poderosos.

Essa tua poesia é a janela do porvir 
Porque nesse teu jogo de palavras 
Contas-nos sempre as verdades a rir.





Poema nº 216 - Não ficarei cá


Não ficarei cá
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Não ficarei cá
O desconhecido chama-me,
O anjo da morte já me escreveu
Uma longa missiva
Antecipando em breve
O nosso derradeiro reencontro!
Não tenho muitas esperanças,
Serei ilusão de um passado distante
Pó de um futuro sem narrativa!
Mas elas, as minhas ninfas,
Conhecerão uma sorte diferente:
Encontrarão nos meus versos
O bastião para a sua imortalidade!
Continuarão a viver nos meus poemas
Abrigadas pelas muralhas do anonimato
Que as resguardarão dos vilões
E dos demais mal-intencionados!
Elas, flores de aroma curandeiro,
Permanecerão sempre esbeltas,
Tal e qual as visionara
Pela primeira vez!
Cá ficarão a sarar as feridas
De muitos leitores vindouros
E inspirarão outros poetas, mais tímidos,
A escalar a torre da felicidade!
Elas nunca envelhecerão,
Serão imunes ao tempo,
Se tornarão música em papel!
Partilharão até da majestosidade
Da rainha Tamara
Idolatrada pelos poetas georgianos!
E eu, Laurentino,
Protótipo de Shota Rustaveli,
Pintarei os seus retratos nas paredes
Do meu templo gótico
Consagrado às paixões impossíveis!
E em cima do meu altar de pedra
Repousará um livro sagrado,
Rasurado por inúmeros versos
Onde relatarei as epopeias
Das mulheres mais chamejantes
Que cativaram o meu coração!
E quando chegar o final do meu existir,
Espero que as minhas cinzas
Sejam depositadas junto aos carvalhos
Que envolvem o santuário
Onde já não poderei reentrar,
Mas do qual saí
Depois de plantar o amor!








Nota-Extra - A rainha Tamara e o poeta (e ainda pintor) Shota Rustaveli foram figuras de relevo da Geórgia Medieval. A primeira foi venerada pelo seu povo (devido às suas capacidades políticas e à sua beleza), enquanto o segundo escreveu uma epopeia em versos. Entre os séculos XII e XIII, este reino do Cáucaso alcançou o seu apogeu político, comercial e cultural.

Poema nº 215 - O homem do contentor


O homem do contentor
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Remexe nesse contentor
Homem de bem
Que foste traído pelos azares da vida!
Consome esses restos
Que irradiam um cheiro nauseabundo.
Se caíres para o chão,
Ninguém te acudirá,
Mas pelo menos,
Sabes no teu íntimo
Que não perecerás de fome!
Admiro a tua coragem
Que muitos pensam ser clandestina
Mas que eu acho valorosa!
Nunca deixes de resistir a esse frio invernal
Que paralisa o teu corpo desnutrido,
Nunca te rebaixes diante dessa sociedade
Sequestrada por falsos moralismos,
E não, não abandones a esperança
De um amanhã melhor!
Não és um cão ou um rato,
Nem sequer um criminoso,
És um ser humano
Apenas vítima de um silêncio cúmplice,
De um cancro que é social
E que corrói o teu interior!
Nesse putrefacto contentor,
Não estão apenas as tuas necessidades,
Ali reside também o sistema manipulado
Por lobbies, mentiras e conluios
Que se regozija da receita
De um milionário por mil sem-abrigos!
E a ti, meu homem de bem,
Te confidencio uma última verdade:
Muita dessa sociedade que hoje te ignora
Ou que até te solta risos mordazes,
Mal sabe...
Que para lá caminha,
A passos largos,
Vendada por forjadas ilusões!





Foto - Depositphotos

Poema nº 214 - Vila de Frades, mecenas das artes


Vila de Frades, mecenas das artes
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Vila de Frades,
Em ti observo
Um copo de vinho de talha,
Uma miniatura de um soldado romano,
Um frade capucho a praticar caridade,
Uma musa árabe no alto de um outeiro,
Um Fialho a denunciar a podridão nacional!
Através da tua torre do relógio,
Redescubro o teu passado,
Sigo os teus ponteiros:
Descortino o afinco dos monges de São Cucufate
Que te atribuíram o primeiro foral!
Oh! Vejo os paços do teu concelho,
A azáfama junto ao pelourinho,
Onde carrascos impiedosos
Puniam os malfeitores!
A essa tua distinta ruralidade
Aditavas o teu povo genuíno e laborioso
Que vertia avalanches de suor
Em cada Verão asfixiante
Para no fim mendigar parcas esmolas!
Mas Vila de Frades não é filha do acaso,
Nem é bastarda de magnatas!
É sim uma terra talismã,
Um verdadeiro mecenato das artes,
Um berço das mais criativas pinturas murais
Que decoram os templos cristãos!
E a sua paisagem que habita nas vinhas
Não serve apenas para produzir uvas,
Dissemina também uma bênção singular
Talhada a inspirar poetas e pintores!
E eu que ali nasci para a escrita
Rendido ainda às calçadas da liberdade,
Por onde passaram um Conceição Silva
Ou até um Humberto Delgado,
Remato com o meu coração:
Vila de Frades não pode ser real,
Como é que uma terra tão pequena
Consegue concentrar todas as virtudes
Que parecem extraviadas deste mundo?





Foto da minha autoria

Poema nº 213 - Até sempre princesa!


Até sempre princesa!
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Nunca mais te verei
Nem te confessarei o que senti por ti
Porque os nossos rumos se desviaram
Impossibilitando o reencontro futuro!
Sei que seguiste o caminho da felicidade,
E eu o da resignação!
E se os ventos nos levaram
Para sortes diferentes
Juro-te na mais vã das promessas
Que não esquecerei a nossa antiga amizade
Nem o teu olhar traquina,
A lisura da tua alma.
Tudo isso permanecerá bem vivo
No meu castelo de memórias
Onde no palacete da minha imaginação
Foste princesa das minhas virtudes
E eu teu amante ilegítimo,
Um mero pedinte itinerante
Que por ti fui acarinhado!
Mas da ilusão não reza a história,
E a realidade é ditadora!
Chorei pela tua ausência
Mas não tive coragem de te visitar
E como sei que nunca o farei
Por timidez de espírito
Me despeço agora de ti
Com um abraço apertado
Com aquele sorriso que sempre te esbocei
Da forma mais genuína e meiga
Desejando a tua felicidade
Porque a mereces
Mais do que todos nós
Que não chegamos ao teu pedestal!
Adeus, princesa dos meus sonhos!
Até sempre!