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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 21 de setembro de 2019

Poema nº 365 - O teu Chá


O teu chá
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

O teu chá
Leva-me até ao Oriente
Aos sonhos de porcelana
Aonde me transfiguro
Pairando sob o inédito,
Os meus olhos estão cerrados,
Mas vejo o que ninguém vê,
Sou o espelho de mim mesmo
Carrego a energia de um elefante
As garras de uma águia
O revestimento colorido das carpas koi,
Sou o que nunca fui,
Viajante da transcendência,
Todo o meu ego suprime-se
Em avalanches de ambições extintas,
Tornei-me num incógnito corpo astral
Acoplado pela órbita universal.
Já não me sei definir
Não há um padrão,
Regresso aos sonhos terrenos
Sou um samurai do Japão ancestral
Sou um mercador pobre de Bengala
Sou um monge abnegado do Tibete,
Sou tudo e sinto essa pluralidade na pele
E os minutos passam
Até que abro os olhos:
A xícara de Masala chai
Que me serviste
Viu o seu efeito chegar ao fim,
Esqueceste-te do açúcar!




Imagem meramente exemplificativa retirada da Página: https://chasorganics.com/
("Cha Organics")


Nota-Adicional: O poema procura fazer alusão directa ou indirecta a diversos territórios orientais (nomeadamente a Índia, China, Japão...) e a animais característicos (o elefante indiano, a águia cazaque e as carpas koi - carpas coloridas japonesas). Outra surpresa é a referência ao masala chai - chá de especiarias que conjuga inúmeros aromas - que é produzido no subcontinente indiano.

Poema nº 364 - A Saia da Lua


A Saia da Lua
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


A saia gira indiscreta tecida de névoa
Fintando Ah Puch, deus maia da morte.
Que definiu destinos com uma régua
Mas que da Lua não celebrou consorte!

O modelo gótico da dama do Universo
Faz perfilar a sua diluvial presença
Imaculada diante do sonho perverso
Dançarina e juíza da nocturna sentença!

A saia é transparente, o rosto é branco
Mas o vestido que a camufla é negro
Ela assim se traja na alegria e no pranto.

A Lua já teve valentes apaixonados
A sua saia eleva a libido dos mortais
Converge e une amores destinados.




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://wallhere.com/

Poema nº 363 - O Luto da Amazónia


O Luto da Amazónia
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Arderam hectares incontáveis
Mentiram ao mundo
Aligeirando o caos
Zebras políticas fúteis!
Ó humanidade acordai
Neste dia que ainda é vosso
Imaculada luz que resiste
Até que um dia, tudo seja pernicioso!

Amar a floresta, é amar as origens,
Melindrar os arautos da tecnologia
Aclamar os índios na sua pureza
Zombar das elites modernas hipócritas!
Oremos agora pela catedral do oxigénio,
Ninguém pode proibir o nosso culto,
Intentaremos amaldiçoar os poluidores
Animais do lucro a todo o custo.

E eu, do meu país, grito:
Salvai a Amazónia,
Mas primeiro, sejamos sérios
Cuidemos do nosso jardim
Que também tem sido agredido
Como se fosse um estorvo,
Sei o que vejo
E o que é silenciado,
Os interesses sujos coexistem,
E a natureza como não tem voz,
Sofre de uma doença incurável:
A peste da ignorância humana!





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.latam.com/.../uma-viagem-a-Amazonia-brasileira

Poema nº 362 - O Politiquês


O Politiquês
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Ó povo já conheceis a nova arte?
Uma nova língua intrujona?
Liguem a televisão!
Ouçam, deixem-se levar:
Os linguistas do politiquês
São boa gente!
Prometem mais que o Pai Natal
Eles não vendem ideias,
Apenas as doam
São esmolas intelectuais!
Que solidários!
Até já têm universidades
E cátedras de excelência
Para leccionar a nova língua
Quer esta se amarfanhe
Para a direita
Ou para a esquerda.
Mas este idioma retalhado
Requer representação, teatro!
Eles têm de ser durões para os rivais,
Autênticos furacões de ideias
Que façam dos outros os idiotas!
Quando interpretam o papel de vítimas
Choram como as carpideiras orientais,
O povo ainda lhes dá afectos
Porque adora novelas,
Mas os figurantes nada recebem
Apenas pagam as asneiras
Da encenação do politiquês
Também em desacordo ortográfico!




Direitos da Imagem: KEMP

Poema nº 361 - Sonhos Taumatúrgicos


Sonhos Taumatúrgicos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O sonho é a expressão do milagre aleatório
É um mundo que faz renascer quem já partiu
Que finta os ditames lúgubres de cada velório
Camarinha que cura a morte, o tempo que ruiu!

Divaguei, atraído pelos seus insondáveis mistérios
Não sei se vi Deus, talvez seja Ele a soma de tudo,
Mas aqui não há lugar para os triviais magistérios
O saber sonhado não se decifra, é ilógico no conteúdo!

O nada deixa de ser um cativeiro do silêncio
Os entes queridos viajam pelo nevoeiro cerrado
Até à luz ao fundo do túnel, lar da nossa mente!

Eles mergulham na casualidade do subconsciente
Para desempenhar o papel principal da vida oculta,
Num enredo sem leis ou limites, e da dor ausente!





Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google

Poema nº 360 - O Padre-Pescador


O Padre-Pescador
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Ouvi peixes,
O sermão que levantará o Maranhão
Em dia de Santo António!

Como se atreve aquele jesuíta barbudo?!
Acabar com a escravatura indígena?!
Ele inquieta-se, ele salta, ele galvaniza
Dança com as metáforas estrelares
O seu Firmamento é uma valsa perfeita
Todos que o admiram são pares instruídos
Planetas que giram em torno de si,
Libertos da opressão, da ambição promíscua!

Ouvi peixes,
O sermão que levantará o Maranhão
Em dia de Santo António!

Com argumentação sofisticada, prega aos rios,
Repletos de peixes que não falam
Mas que o podem ouvir, se quiserem!
Ele afronta o sistema putrefacto
A mentira, a hipocrisia e a injustiça!
O cardume social segue a sinfonia do vocalista,
Hipnotizado pela sua eloquência,
Pela sua espontânea humanidade!

Ouvi peixes,
O sermão que levantará o Maranhão
Em dia de Santo António!

Tudo evolui, ninguém cá fica,
As caravelas são hoje aguarelas da história,
Mas as palavras ainda são o sal da vida
E o padre-pescador já partiu em paz,
Deixou-nos o seu barco e o seu tresmalho
Para resgatar pobres e oprimidos
Dos desmandos das elites cruéis,
Haverá sempre um peixe contra a corrente!





Imagem meramente exemplificativa retirada da Página RTP Ensina


Nota-Extra: Poema de homenagem ao Padre António Vieira (1608-1697).

Poema nº 359 - Palácio dos sonhos destronados


Palácio dos sonhos destronados
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Num dia vi o teu magistral palácio
Mas não me quiseste na tua corte
Decidiste isso no teu ominoso prefácio
Porque não validaste a minha sorte.

Sorte de te sentir como uma planície
Onde poderia desafiar o tédio mundano
Respirando amor em vez de imundície
Acreditando no dom do teu planeta plano.

Mas esse fascínio logo se revelou infértil
Tu me deportaste para o reino da sombra
Cada palavra tua foi como um letal projéctil.

Chorei rios de mágoa, cedi à depressão
E tu continuaste fiel aos teus desígnios
Porque queres o que eu perdi na criação.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.uckg.org/pt/trono-de-justica/

Poema nº 358 - Não dou graças


Não dou graças
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não dou graças à vida
Porque iludo-me na claridão
Dos formosos horizontes
Deixando-me encantar
Pela aurora despertante
Que nasce no berço da esperança!
Mas o meu mundo desaba
Logo que emerge o receoso escurecer,
Uma nuvem assombra o espírito
Enclausurando-o num poço profundo
Onde a água turva me provoca amnésia,
Talvez para que me esqueça deste Universo.
O que eu faço aqui,
Não o poderei saber
Luz e escuridão combatem entre si
A cada dia que passa.
E eu sou um peão no meio da guerra
Mas não sei a quem sirvo,
Vivo na incerteza
Que só me alimenta
Porque ainda não fui sacrificado
Pelas forças do destino.

Não dou graças ao raciocínio
Porque impõe-nos regras
A obediência ao oculto
Ao celibato dos instintos selvagens
E nisto tem o meu senso comum cedido
Sem saber se ando perdido
Nesta criação confusa e complexa,
Neste labirinto de dialectos imperceptíveis
Impossíveis de decifrar.
Prometi a mim mesmo
Que não vos iria mentir
Estivesse eu no poço da escuridão
Ou na planície primogénita do Sol,
E por isso vos confesso:
Como invejo o vento
Que nada sente ou pensa
E que vai para todo o lado
Sem pedir justificações
Sem introspecções místicas.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: universalprudentopolis.blogspot.com

Poema nº 357 - Frente ao Mar


Frente ao Mar
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Perscruto o Mar
Vejo a minha vida
Cada onda que bate no areal
É uma máquina do tempo
Cada gota, uma memória renascida
E os meus olhos voltam à adolescência
Não porque havia pedido
Mas apenas intuído
Que chegara o momento
De desenterrar o que naufragou
Num ciclo passado.
A espuma das ondas é arte oculta
Vejo o esboçar de semicírculos na praia,
Os meus pés são refrescados
Sinto agora que talvez nunca caminhara,
Ou que talvez, seja mais uma onda do mar
Perdida no epicentro do incógnito.
E não sei mais em que pensar
O futuro é um filho que ainda não nasceu,
E eu, uma compilação de recordações
Cujo mar me brinda com uma poção
Que sempre que nos achamos
Frente a frente,
Faz cessar a minha sede espiritual.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.pinterest.de/pin/528398968749598419/

Poema nº 356 - Verdades Distantes


Verdades Distantes
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Se a verdade é uma meta fútil
Para ti
Que queres o mundo
Por favor,
Não vás para a política
Ludibriar a arraia-miúda,
Não vás para a banca
Ajudar os teus amigos
À custa do erário público,
Não vás para juiz
Ou detective
Porque a falsa imparcialidade
Sentencia pobres inocentes.
Distancia-te das decisões,
Monta antes uma loja
Aprende o que a vida custa,
E dessa lição,
Verás que o povo tudo merece,
Incluindo a verdade.
Não venhas com a demagogia
E todo o tipo de artifícios
Aviso-te que a mentira fácil
Nem sempre camufla eternamente
As intenções caprichosas que te guiam!
Se estiveres descontente,
Tens ainda a agricultura,
Ao menos, cultivarás algo
E a enxada te fará bom homem.
Nunca te consideres especial
Porque como tu há milhões,
Mas também não queiras ser sósia
Ou imitação barata de alguém,
Tenta fazer o teu caminho.
Mas na hora da verdade,
Junta-te ao povo,
Mistura-te com ele,
Brinda à saúde de todos,
A moralidade popular prevalece
Sobre qualquer curso académico
Ou amizade estratégica.
Não podemos escolher os nossos rostos
Nem as origens,
Mas podemos sempre definir:
Os espelhos interiores do nosso carácter
E as camas em que nos deitamos!