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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 11 de janeiro de 2020

Poema nº 385 - O Jardim de Confúcio


O Jardim de Confúcio
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Os olhos lívidos do jovem chinês
Manifestam-se na hora do luto
Confúcio chora pelo pai
Confúcio chora pela mãe
Confúcio chora pelo seu torrão natal
Ele vê a morte em todo o lado
Mas resiste ao jogo do poder
E à raiva dos guerreiros
Que ensombram a sua era!
A dor transforma-se em labor:
Apesar de correrem rios de desgosto
Nas suas veias impolutas
A natureza humana é ainda a sua fé!
Quando retorna à sua rotina
Ele cuida de um jardim
Preenchido por flores raras:
Uma chama-se integridade
Outra lealdade
A terceira, honradez!
Dizem que é um jardineiro social,
Um filósofo da moralidade
Que desafia as nuvens
Inimigas das plantações pacíficas!
Resta-nos aprender
Pegar numa simples pá
E cultivar as nossas flores.
O nosso jardim nunca será tão belo
Como o de Confúcio,
Mas isso pouco importa
As maiores estrelas do Firmamento
Não retiram brilho às demais!





Imagem retirada algures do Google 

Poema nº 384 - O Elefante de Aníbal


O Elefante de Aníbal
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Plasma-se no horizonte
A glória de Cartago
O estandarte do ancestral Magrebe
Que desafia a hegemonia romana.
Não é uma bandeira
Não é uma miragem
Mas sim o vigoroso elefante
Que carrega o supremo general
O filho de Amílcar Barca:
Aníbal, o estratega singular
Que destemido
Cruzou montes, serras e rios
Derrubando mitos e fantasmas!
Varrão, cônsul romano,
Ordena um ataque vasto
Na planície de Canas
Mas o elefante nada teme
Com as suas extensas presas de marfim
Varre a cavalaria romana
Esmaga a infantaria desnorteada
E eleva o seu senhor até à glória!
Guarda de honra fiel
Muralha móvel do sucesso,
Forçado a combater pelos homens
Sabe apenas que o anjo da morte o libertará
Do seu compromisso!
Em Zama, o céu chorará
O seu sangue derramado
E o de outros elefantes
Quando cem mil romanos
Liderados por Cipião
O cercarem,
Mas antes disso
Cederá
A cobertura final para que Aníbal
Se retire com vida
Primeiro para Cartago
E depois para a Ásia Menor.
Quem disse que a glória é só para os vitoriosos?
Aníbal e o seu elefante
Heróis improváveis da sua história
Como muitos outros anónimos
Então apagados dos manuscritos
Todos eles preferiram ser leões por um dia
Do que ovelhas para sempre.





Fresco do século XVI presente no Musei Capitolini em Roma. A imagem foi tratada por obtida e tratada por José Luiz Bernardes Ribeiro.

Poema nº 383 - Poema da Chuva


Poema da Chuva
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)

Todo o infortúnio será dirimido
Se me cantares
O poema da chuva
Enquanto eu durmo
Aposentado nas lides do Além.
Não quero rebrotar para a realidade
A tua melodia me basta
O teu beijo invisível é o cometa
Que percorre os céus
Da outra dimensão titânica
Onde me encontro.
Dirão que sonho sem limites
E me deixo levar pelos delírios
Ou pelo recanto misterioso.
Talvez tenha duas vidas
Uma de dia
Outra de noite
Mas isso pouco importa
Prefiro ser desatinado e alegre
Do que sóbrio e depressivo,
Afinal,
Somos nós que pintamos o mundo
Basta saber se temos a vocação
De o colorir
De viajar nele
Sem sairmos de nós próprios.





Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google

Poema nº 382 - Amparem o Rodolfo


Amparem o Rodolfo
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Amparem o Rodolfo
Um sem-abrigo de Lisboa
Por todos esquecido.
Já foi criança
Mas a realidade engoliu seus sonhos
Furtou-lhe os filhos
Tirou-lhe a esperança de viver.

Quem é o Rodolfo?
Os deputados santarrões respondem:
Um sem-abrigo de identidade renegada
Um testemunho que não importa citar
Uma nuvem social que devemos consentir
Como se fosse uma inevitabilidade natural
Um mal menor!

O Presidente vem para a televisão
Apela ao fim do seu drama,
Mas o que os governos fazem?
Debitam discursos floreados
De consequências poeirentas;
Podiam trabalhar no deserto
Já que atiram tanta areia para os olhos!

Amparem o Rodolfo
Um sem-abrigo de Lisboa
Por todos esquecido.
E amparem o político português
Porque se resigna na omissão
Não conhece o seu povo
Não sabe o que é fome!








Nota-Adicional: Poema que lamenta a reprovação parlamentar de um documento identificativo proposto para cada sem-abrigo. Ainda não é desta que os homens da rua (esquecidos pela sociedade) têm sequer direito à sua identidade.

Poema nº 381 - A utopia do homem industrial



A utopia do homem industrial
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Embaciam-se os horizontes da existência
Transformam-se os riscos em tosca mitologia
O homem industrial acomodou-se à excelência
Ao capitalismo sem limites, a sua nova ideologia.

Egoísta, benze-se diante dos profetas do lucro
Estigmatiza os ambientalistas impotentes
Como se estes pudessem inverter o esturro
Causado pelos delírios dos prepotentes.

Uma jovem activista veio para o afrontar
Logo a apelidou de maluca e de patética
Ansiando pelo dia em que a possam calar!

Ele e o seu governo temem a lídima rapariga
Porque não é dada a vénias ou elogios hipócritas:
A Joana D'Arc sueca, que os ignóbeis fustiga!





Imagem meramente exemplificativa retirada de: http://geografiacomjoao.blogspot.com/.../relacoes-homem



Nota Adicional: Poema em defesa de Greta Thunberg, jovem sueca que luta pelo equilíbrio ambiental e por uma maior responsabilidade humana diante das questões da Natureza. O "homem industrial" tem de perceber que há limites a respeitar.

Poema nº 380 - Vejo nela


Vejo nela
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Vejo nela
A audácia de Joana D'Arc
A magnanimidade de Dorcas
A escultura perfeita de Miguel Ângelo
E não sei o que sou
Quando me confronto com uma estrela
Sob a forma humana.

Vejo nela
A formosura de Maria Pais Ribeirinha
Os olhos rasgados de Cleópatra
A sabedoria de Florbela Espanca
A sua música ecoa pelas aldeias
Os meus ouvidos replicam os sons:
Ainda sou senhor de mim mesmo!

Vejo nela
A solidariedade de Teresa de Calcutá
A pureza da Rainha Isabel
O sofrimento de Inês de Castro
Ao início, não quis acreditar
Mas a paixão é mesmo isto:
A flor do endeusamento feminino.

Vejo nela
O nascimento do Universo
A última pintura de Deus
O resto são imperfeições do tempo
Eu já estou morto
Mas ela não
Revive intocavelmente
Como as luas de Saturno.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://pxhere.com/es/photo/1360885

Poema nº 379 - Ninguém te dirá


Ninguém te dirá
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Ninguém te dirá
Que o céu contigo é limpo
Plasmando um azul intenso
Que pinta os mares sentimentais.
A tua aura dulcifica corações
Sarando vulnerabilidades!
E da galilé do meu templo
Eu vejo-te
Mesmo que estejas a léguas!
Eu ouço-te
Mesmo quando não me falas!
Eu recordo-te
Mesmo quando não te vejo há anos!
E sei disto
Porque não quero acordar do sonho
Que resiste às intempéries da realidade.
Lá subi aos teus céus
Sou o teu querubim omnipresente
Que toca as músicas clássicas
Anestesiantes das tuas dores!
Quando a noite chega
Acomodas-te em cima do berço da lua
Talvez à espera do meu eclipse
E de uma infinda constelação de beijos!
Ninguém te dirá
A cada aurora, virgem e inocente,
Que expugnaste os cometas do Firmamento!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: 

Poema nº 378 - Ode a D. Pedro V


Ode a D. Pedro V
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Como pode ser tão jovem
E determinado,
O rei que exorta à franqueza
E ama o seu povo!
Que alma incorruptível
Figura nos anais da história
Como construtor de laços fraternos
De um Portugal até então turbulento!
Chamava-se D. Pedro
O quinto da sucessão,
Enamorado por D. Estefânia,
Juntos construíram hospitais
Instituições de caridade,
Projectaram um belo arco-íris
Depois da chuva agitada,
E cuidaram dos jardins morais
Que tanto escasseavam!
Dois corações jovens
Que partiram cedo
Legando flores de virtudes
A todas as casas portuguesas!
Rei que é rei
Não usa apenas uma coroa
Ou se senta somente no trono
Para dar audiência aos poderosos!
Rei que é rei
Sai à rua
Conhece as agruras do seu povo
E estuda os remédios sociais
Para que o progresso,
Não seja só de alguns,
Mas de todos!





Imagem retirada da Wikipédia

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Pensamentos Avulsos de I a XX


I

O Oásis. Encontrei o oásis depois de uma caminhada longa no deserto. Agora é altura de descansar junto a uma tamareira. Descansar o meu corpo agastado e ensombrado pela longa travessia, bem como a minha alma ingénua coberta pelo véu da consciência. Não, não quero sair deste refúgio. A natureza é mais benemérita e generosa do que os próprios humanos.


II

Nos bastidores, dizem agora que sou de luas, ou que até padeço de algum desequilíbrio psicológico. Não sei se isso será verdade porque não sou médico de mim mesmo, mas sei sim que há mais transparência e inocência num louco do que, por exemplo, num político hipócrita que se cinge a manobras obscuras. 
A astúcia, a arte de conhecer as manhas, não está reservada aos verdadeiros detractores do sistema, mas antes aos que, sedentos de ganância e ambição, desejam ainda acumular mais poder para desnorte dos que têm o azar de depender deles.



III

Penso muito na vida além da morte, mas é tudo perda de tempo. A morte só existe enquanto vivemos, e eu nela tenho vivido desde que nasci!



IV 

Perguntaram-me um dia se a honestidade compensa? E eu respondi - se anseias pela compensação material, digo-te que perdes o teu tempo! Se te preocupas com as coisas do espírito, serás então uma rosa pura a desabrochar na planície.



V

Um dia, pensei em iniciar-me na vida política. Depois cheguei à conclusão que não tinha jeito para lavar roupa suja ou para prostituir a mente diante dos seus deuses partidários. Com todo o respeito, e que me desculpem as excepções à regra, mas não aprecio bordéis do pensamento.



VI 

A obsessão em torno de um amor não-correspondido pode tornar-se numa droga ainda mais letal do que aquelas que fisicamente são contrabandeadas pelas favelas da perdição. A ilusão da paixão tortura e o desgosto final poderá traduzir-se num fardo demasiado pesado e angustiante para o coração!



VII

Um dia, o meu antigo professor de português contou-me que havia atribuído nota 20 a um aluno que tinha apresentado um trabalho com apenas uma folha em branco. O tema do trabalho incidia sobre o vácuo...



VIII

Quando li numa notícia que nas eleições legislativas cada voto num partido permitia a este a recepção de uma quantia a rondar os três euros, decidi então depositar as minhas esmolas no partido dos Animais. Ao menos que o dinheiro sirva para os animais, já que os homens não se sabem governar. Aliás, nunca souberam!



IX

Diz o povo que quantidade não é qualidade. Mas se não houver o mínimo de quantidade, não será na nulidade numérica que surgirá a qualidade teórica. E a matemática sempre foi madrinha dos bons frutos.



X

Omar Khayyam, quem me dera mirar os astros a partir do teu observatório em Merv. Não vês que as estrelas desenham os rostos de mulheres belas que, encobertas pelo véu do Universo, outrora dançaram como cometas indomáveis, jorrando o vinho pelas suas cascatas e matando a sede amorosa de príncipes e sultões?



XI

Por vezes, vejo uma certa mulher a olhar fixamente para mim. Não sei porque o faz já que rejeita todas as minhas tentativas de aproximação. Não sou perito em ler manuais de regulamentos femininos, nem tampouco serei filósofo intérprete dos olhares. Apenas sei que não te quero para minha sombra.


XII

As redes sociais daqui a quinhentos anos serão, em grande parte, mausoléus de utilizadores que o tempo já sepultou, mesmo que eternamente preservados pelas tecnologias. 


XIII

A igualdade de uns implica, muitas vezes, a desigualdade para outros. Mesmo que o legislador enfeite a medida com um rol de palavras transparentes.



XIV

Também eu seria comunista se os seus princípios fossem perfeitamente concretizáveis, mas quando olho para a realidade, encaro a utopia e o pesadelo, de mãos dadas, que encarnam algumas ditaduras déspotas em que a fome grassa nas multidões. Como eu gostava de estar enganado!



XV

E o capitalismo? Uma máquina de fazer dinheiro e vender em nome da qualidade, escondendo que o seu segredo provém afinal dos sacrifícios da mão-de-obra muitas vezes ignorada como esta se fosse uma compilação de meros registos individuais.



XVI

Um amigo meu contou-me uma vez que foi atacado por um lobisomem à noite. Perguntei-lhe se não teria sido antes uma partida de Carnaval!



XVII

Disse uma vez o padre - "quem for contra este casamento fale agora ou cale-se para sempre". Felizmente, a mensagem era dirigida para a plateia que até cumpriu o prometido. Por seu turno, os noivos logo andaram às turras ao fim de dois meses. Mas não podem acusar todos os outros de faltar à palavra naquele instante. Afinal, os padres dirigiam-se mais aos convidados que tinham investido balúrdios de dinheiro naquele dia festivo. Até mesmo em esmolas!


XVIII

Não queiras o mundo. Abraça o suficiente. Poucos nasceram para ser reis.


XIX

Um animal de estimação: a cura da solidão!


XX

Jovem, não queiras apenas ganhar e viver do efeito amuleto. No desporto, nas artes ou como em tudo, importa primeiro fazer bem e assimilar a qualidade. Ganhar é apenas a mentalidade da etapa adulta.




Pensamentos da autoria de Laurentino Piçarra




Imagem meramente exemplificativa retirada de: http://blogdamaramoura.blogspot.com/2017/09/



Nota-Extra: Os pensamentos do autor foram fruto de momentos particulares, não pretendendo ser deselegantes ou faltar ao respeito de alguém em concreto. Todos temos afinal direito aos nossos pensamentos, podendo ou não ser partilhados por quem nos lê. A maior parte dos pensamentos aqui exibidos pretendem transmitir lições de vida.