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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

domingo, 2 de abril de 2017

Poema nº 235 - Criança Adormecida



Criança Adormecida
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Pergunto-me:
Porque deixei de ser criança?
Porque vendi a minha ingenuidade?
Porque abdiquei dos sonhos?
Cresci para ser alguém
Mas ser alguém não é ser criança,
Não é desfrutar da sua pureza
E do seu altruísmo incondicional.
Se pudesse ingerir uma poção mágica
Para regressar ao limbo da fantasia
Faria-o na crença da inocência eterna
E no cessar desta vida condicionada!
Rejuvenescido diante do tempo 
Pintaria um vigoroso arco-íris
Para que este florisse o céu monótono,
E quando finalmente mergulhado 
Nesse cortejo de cores,
Voltaria a sonhar
Voltaria a esboçar um sorriso,
Voltaria a ser eu mesmo
Sem segundas intenções
Exclusivas da era adulta!
Agora resta-me apenas ser pai um dia
Para voltar a fazer renascer 
Parte dessa criança
Que ainda não morreu em mim,
Mas que jaze adormecida
À espera de ser acordada 
Por uma outra alma infantil 
Que partilha da mesma linguagem,
Do mesmo sentir genuíno!





Direitos da Imagem - Maktub Facebook

Poema nº 234 - Mulher da Humanidade


Mulher da Humanidade
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


A vida sem ti
Seria uma morte iludida,
Um prado sem flores,
Um oásis sem água potável!
Tudo seria em vão
Porque o meu débil coração
Apenas mora em ti
Recusando outros abrigos!
E se não o sentisse
Seria um ateu do amor,
Deixaria derrotar-me pela frieza,
Pela morbidez celibatária!
Não gozaria sequer de inspiração
Nem para a escrita,
Nem para o mundo!
Seria órfão da tua ausência
E cativo de um destino obscuro!
Mas fui bafejado pela sorte
E desfrutei da benesse de te ver,
De me cruzar contigo
De agradecer a tua generosidade
De te amar até em segredo
E de acreditar que mulheres como tu
Fazem falta, não a mim,
Alienado pelo meu sentimento egoísta,
Mas antes à carenciada Humanidade!






Poema nº 233 - A Flor dos Ventos



A Flor dos Ventos 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Recitem-se os salmos da natureza,
Porque dos montes áridos alentejanos
Irrompem rajadas de sonetos
Que convergem rumo ao Norte,
Fretando vivências singulares
De angústias incessantes
De amores frustrados
De sonhos por desvendar!
Os ventos dessa sua inspiração
Eclipsaram-se do interior adormecido
Para agora se dispersarem pela costa, 
Penteando o mar virgem
E acarinhando o areal macio,
Na certeza de que o afecto,
A terapia imprescindível da humanidade,
Poderia erigir novos castelos de paixão!
E ali estava ela,
Junto à charneca de uma lagoa,
Com miradouro perfeito para o mar:
Uma flor especial
Cujas pétalas tricolores
Eram afinal rimas genuínas
Que encimavam as dunas da ignorância
Para abraçar os novos ventos modernos
Dos quais, ela também fora empreendedora!





Foto - RTP



Nota-Extra: Poema de homenagem a Florbela Espanca, onde procuro no final do mesmo, aflorar a sua passagem por Esmoriz (referência indirecta a uma lagoa - Barrinha de Esmoriz, e ao próprio mar), como fonte natural da sua inspiração, visto que alguns eruditos acreditam que ela escreveu versos durante os dois anos em que esteve aqui viver. Uma das suas principais obras chama-se mesmo "Charneca em Flor", podendo mesmo esta conter versos escritos durante a sua estadia na então aldeia de Esmoriz por volta do ano de 1925.

Poema nº 232 - A Varina de Ovar



A Varina de Ovar 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Solta-se um palavrão carrancudo
E lá vai ela com o cesto na cabeça
Difundindo o odor do peixe miúdo
Que incentiva o cidadão à despesa!

A sua dança não é um dom artístico
Mas obedece ao jugo do equilíbrio 
Coreografia de um azulejo místico 
Grito de um pincel ao livre-arbítrio!

Proferem-se sardinhadas de palavras,
O freguês regateia o preço firmado
Mas a varina faz triunfar o seu fado!

E o mar perde-se no vasto horizonte,
Poupado à euforia do povo feirante
Mas criador da varina contagiante!





Imagem retirada algures da Internet (Google Imagens)
Azulejo presente na Estação Ferroviária de Ovar



Notas-Extra: Muitas varinas de Ovar fariam a sua vida em Lisboa, onde adquiriram maior visibilidade. O cesto que a varina leva na cabeça é conhecido tradicionalmente por canastra.

sábado, 11 de março de 2017

Poema nº 231 - Desmintam-me os deuses


Desmintam-me os deuses
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Desmintam-me os deuses
Se o teu vestido de turquesa
Não é cópia fiel do teu oceano
Onde te moves como uma ninfa
Beijando o pôr-do-sol no horizonte?!

Desmintam-me os deuses
Se essa tua coroa de flores
Onde depositas todas as proezas,
Não é a tua fiel companheira de viagem
Logo que sais do mar e abraças a terra?!

Desmintam-me os deuses
Se esses teus olhos verdes
Não reflectem o mais pacato bosque
Que visitas durante as tardes de neblina
Antes de adormeceres junto a um salgueiro?!

Desmintam-me os deuses
Se essas tuas vistosas saias
Não são antes o mundo a girar à volta,
Ou melhor, o meu próprio mundo
Onde morro por ti, e em ti?!

Desmintam-me os deuses
Se te iludo com a minha modéstia
Se te finto à verdade com poesia abstracta,
Ou se apenas sou um rochedo silencioso
Parte privilegiada do teu majestoso percurso?!





Imagem meramente exemplificativa retirada de Pinterest 
(Créditos - Katerina Plotnikova)

Poema nº 230 - Ovar é prosa


Ovar é prosa
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Ovar é prosa
Soprada pelo vento
Que sonda as janelas
Fazendo bailar cortinados
Verdadeiras máscaras desfilantes
Dos seus zelosos proprietários!

Ovar é prosa
Perfumada pelo oceano:
Cada palavra sua exala maresia,
Cada frase sua se enclausura num búzio
Que se enrola abraçado pelo areal
Até se dissipar nas ondas do infinito.

Ovar é prosa
Que converge pelas calçadas
Através da voz dos seus comerciantes
Que elevam os produtos da terra,
Prestando uma idolatria suprema
À cidade, sua mãe benemérita.

Ovar é prosa
Porque as suas fontes jorram histórias
Que saciam famílias desesperadas
Não só de água, como de sabedoria
Refrescando o interior de cada um
E prosperando vitoriosos oásis no deserto.

Ovar é prosa
Que não se esgota nos azulejos,
Porque professa a arte da continuidade
Metamorfoseando-se de imensas vocações
Que a tornam ávida de criatividade
Nesse almejar das suas incessantes recriações!

Ovar é prosa,
Porque não escreve sozinha,
Não é biógrafa de si mesmo,
É sim actriz principal de uma encenação
Embalada pela irreverência teatral
E cujo enredo profícuo nunca expira!

Ovar é prosa
Porque ali viveu o príncipe do romance:
O seu pseudónimo era Júlio Dinis
E as suas obras despoletaram um arco-íris
Que ainda hoje prevalece comedidamente
Sobre aqueles que aqui vivem para a arte!





Direitos da Foto - Revista Evasões 
(Fotografia de Maria João Gala e André Gouveia/Global imagens)

sexta-feira, 3 de março de 2017

Poema nº 229 - O Teu Colar de Penas


O Teu Colar de Penas
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Irrompe na sua perícia matutina
O cortejo de raios solares
Que penetram pelas fendas da cabana
Gravando nas tuas costas
Então prostradas ao relento
O fogo que ali ousei entronizar
Nas noites loucas
Em que as nossas salivas unidas
Formavam rios inóspitos
De temperaturas abrasivas,
Convergindo num só único sentido
Através de fluídos de lava
Bombeados pelos nossos corações!
Mas a tropicalidade do nosso amor
Não se confinava apenas aos beijos lânguidos
Que partilhávamos em cada crepúsculo!
Não, até a Lua, a mãe-criadora das noites,
Se rendeu ao colar de penas
Que carregavas ao pescoço!
E eu que fui abordado pela tua graça,
Minha Pocahontas da vida real,
Adormeci nos teus braços,
Bebi das tuas cascatas de leite,
Perdi-me na tua floresta
Sem ter de sair da nossa cabana.
E foi na caminhada até ao monte
Dos inenarráveis mistérios
Que voltei a focar-me no teu colar
Gerado por mãos indígenas.
Ele era afinal o teu templo
Reflectia em ti:
A faceta selvagem,
O íntimo cristalino,
A sensualidade singular
O sacramento que me oferecias diariamente
Sem que eu merecesse
Ser retribuído pelo teu soberbo clarear!





Imagem da autoria de Jesse Kraft (http://pt.123rf.com/)