Conteúdos do Blog

Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Poema nº 283 - As Cores da Existência


As Cores da Existência
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei quem considerou
Que o branco e o preto
Eram as cores mais vulgares
Desprovidas de chama apelativa,
Mas repudie-se tal dislate!
O branco e o preto são omnipresentes
Mesmo mantendo a sua simplicidade:
Não se gostam de maquilhar
Para agradar à sociedade hipócrita,
Não estão ali para fintar a realidade,
Mas para a exibir nua e crua,
E mesmo assim são as cores da moda
Que nos acompanham na existência!
Quantos não nasceram a ver uma luz branca?
Quantos não morrerão mirando a escuridão?
Não há cá lugar para meios-termos
Nem momentos para o acaso,
Ou é ou não é,
Sem fingimentos,
Sem ardis ornamentais,
Aceitando a frontalidade do porvir!





Imagem retirada do Google

Poema nº 282 - Estrelas Mudas


Estrelas Mudas
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Voltaremos ao nada
E a minha crença na descrença
É corroborada pelo silêncio da lua
Ou pela aragem fria das serras.
Viver é um privilégio
Até quando se tornar num fardo,
Altura em que a ilusão é desfeita.
Planos para amanhã?
Não se deixem seduzir pela ambição
A não ser que pretendam um jazigo
Um mausoléu perpétuo
Para abrigar o pó da tempestade.
Não vivam obcecados com o fim
Que é certo e irreversível:
Até lá assistam ao nascer do Sol
Ele será assim por milhões de anos,
Só ele tem futuro,
E nem assim será eterno
Porque um dia o Universo
Lhe fará o próprio caixão.
E depois o que contarão dele?
E de todos nós?
Que as estrelas eram afinal mudas?!






Poema nº 281 - Da Saga dos Líderes Mercenários


Da Saga dos Líderes Mercenários
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não percebo
Os que sobem na vida
Escudados pela vassalagem
Aos senhores do poder
E absorvidos pela mesquinhez do mal-dizer
Nesse incriminar dos ainda seus companheiros
Reduzidos já a criaturas inferiores
Diante dos seus narizes pontiagudos.
Mas que líderes são estes?
Autênticos Neros que só se contemplam
Diante dos espelhos da ilusão
Bebendo do cálice narcisista
Que os embriagará de vaidade
Enquanto soa uma música aborrecida
De um antigo piano
Talvez perdido num quarto
Repleto de teias sem glória
Que cobrem as paredes obsoletas
Dos labirintos fúteis que são as suas vidas.
Até os gatos arrepiam caminho
Quando surgem estes alpinistas sociais,
Fantasmas do mérito,
Almirantes do tráfico da incompetência
Vendedores ambulantes da prepotência,
Mas na verdade,
Apenas são temidos pelo veneno
Pela sua estratégia cinica e calculista,
No entanto, não nos preocupemos
Com eles.
Na verdade, são pó
À primeira batalha, desertarão
E voltarão ao estado condizente.
Preocupemo-nos sim com aqueles
Que são carne para canhão
E cujas vidas
Podem ser destroçadas
Pelos generais que os abandonam
No meio de uma batalha sem fim
Como é a da própria vida.
Porque se os falsos líderes
Resguardados na retaguarda
Fogem pela sombra que lhes é aliada.
Menos sorte têm os seus guerreiros,
Fácil alvo da ira na frente de batalha,
Decapitados pelos erros dos anteriores,
E que atraiçoados foram,
Mesmo oferecendo todo o seu melhor,
Por quem não soube comandá-los
Nem tampouco motivá-los.





Imagem retirada algures do Google 

Poema nº 280 - O Advento das Cores


O Advento das Cores
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Desvanecem-se as sombras 
Desse passado rude e opressor
Que caminhava sob as alfombras
Tingidas apenas por uma só cor!

Foi naquele dia que tudo mudou
A negridão acabaria suprimida
E um novo arco-íris se perfilou
Para apadrinhar a fé renascida!

E nem os corvos ousaram evitar
A vontade de um povo esfomeado
Que os cravos de Abril quis abraçar!

Acabaram-se as mentiras silenciosas
Todo o sangue derramado em vão,
E voltámos a sonhar no berço das rosas!




Fotografia da autoria de Francisco Fernandes

Poema nº 279 - O Império Laboral Absolutista


O Império Laboral Absolutista
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei em que dia
O poder e a arrogância,
Dois generais ambiciosos,
Uniram as mãos
E marcharam juntos
Para oprimir os ingénuos
Que se achavam alojados
Nos arrabaldes da humildade.
Não o fizeram por acaso,
Tornaram-se narcisistas
Reprimiram a auto-estima
Dos que laboravam em paz,
E cobraram impostos,
Seja em forma de dinheiro,
Ou através de chicotes verbalizados!
Nesse Império Laboral,
Muitos obtiveram o reconhecimento
Após imensos sacrifícios
E com uma vassalagem inexcedível
À corte do poder
Renegando mesmo a verdade
Quando esta era incómoda.

Muitos subiram na hierarquia
Sabendo que já foram da plebe,
Esquecendo-se que saldaram tributos
E dos altos,
Para lá chegarem!
Mas quando o poder
Que tanto censuravam
Os convida para um banquete
Recheado de bolos e oportunidades
Lá vão eles,
Todos entusiasmados
E prontos a rebaixar a plebe,
As suas origens!
Querem ser diferentes,
A elite do poder força-os a tal:
Têm de vestir o manto caprichoso
Que a Arrogância utiliza diariamente!
É tudo um pacto de absolutismo laboral,
Alheio a qualquer foco de dor
Dos mais vulneráveis
E dirigido apenas para o capital,
O dinheiro,
Esse vil metal que é pai empenhado
Tanto do Poder como da Arrogância!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.cartacapital.com.br/revista/960/o-poder-causa-dano-cerebral

Poema nº 278 - A Ninfomaníaca


A Ninfomaníaca
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Acometida por anseios selvagens,
Deixa-se saquear pelo inconsciente,
Cedendo às escaldantes miragens
Dum mundo que lhe é insuficiente!

É um vulcão em erupção permanente,
Não vê corações, apenas instrumentos
Que lhe saciem a infinita sede jazente
Por entre o abismo dos pensamentos!

Não há chuva que refreie a sua doença 
Nem amigas que lhe corrijam o caminho,
Sobram apenas montes de indiferença!

E se o seu corpo é um terreno árido
Para os beduínos dos almejos carnais,
O seu coração é um deserto impróvido!






Nota-Extra: Quando utilizamos o termo "sede", referimo-nos, neste contexto em concreto, à "sede de fogo" visto que se trata de um vulcão sentimental em erupção.

Poema nº 277 - Quod Sumus, Hoc Eritis


"Quod Sumus, Hoc Eritis"
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei o que devo ao mundo,
Mas sei que me juntarei
A todos os outros
Que me precederam
Nesta jornada pelo incógnito.
Um dia serei passado
Deixarei de ser corpo
E só aí saberei a verdade
Do que nos estará reservado
Ou não!
Não temo o amanhã sem vida
Não renego sequer a Deus
Mesmo que não exista um plano,
Só sei que devo ser o que sou
Nestes fôlegos frenéticos da existência!
Apenas não quero estar morto
Antes da minha hora,
Como muitos estão:
Movidos pelo ódio
Distraídos pela indiferença
Absorvidos pela hipocrisia!
Na confusão da realidade
Que se ilude a si mesma
Quero ser uma partitura harmoniosa
Cujo som valeu a pena escutar
Nem que por instantes,
Antes de se extinguir
Por entre as constelações,
Fiéis depositárias da nossa memória,
Búzios guardiões da nossa melodia,
E verdadeiras testemunhas
Do que somos
E daquilo que seremos!





Gravura presente no Filme "Kingdom of Heaven".