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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 23 de novembro de 2019

Poema nº 372 - O Silêncio das Minorias


O Silêncio das Minorias
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Disseram-nos que é hoje legal
Construir palácios em desertos
Vivemos numa sociedade desigual
Onde privilegiamos ricos e espertos.

Estereotipam-se raças e etnias
Como se houvesse um ADN mau
Um vírus que embute sintonias
Nas ideologias dos caras de pau!

Marginalizaram-lhes as palavras
O futuro ainda estará por nascer
Mas são já caravaneiros perdidos
Numa rota que não os deixa vencer.

Ninguém os quer, todos os abominam!
Só as elites se consideram incorruptíveis
Talvez não sintam os odores que as putrificam
Almofadadas por modelos sociais falíveis!

Há tanta gente nobilitada pela calada
Enquanto outros desesperam por alimento;
Iludem-nos com uma miséria disfarçada
Uma ligadura tosca para encobrir o ferimento!




Foto da autoria de Fabrício Mota in site Agência Pública
(Poema contra a discriminação étnica e racial e o radicalismo político/elitista)

Poema nº 371 - O Franzino Magnífico


O Franzino Magnífico 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Lá vai o franzino
Esgueira-se pelas portas
Finta a polícia
Ludibria os mauzões
Todos o perseguem
Mas ninguém o alcança,
Ele corre trajado de negro
Munido da sua bengala
E do seu chapéu de coco.
Dá-se pelo nome de Charlie,
O génio improvisa,
Constrói e desconstrói,
Emerge da confusão da vida,
Fazendo os outros sorrir
Com a sua simplicidade,
A ousadia das suas intenções!
Ele mal fala,
Mas cuida do seu bigode,
É o sábio do humor
Que reina sem palavras.
Luta, dança e corre
É a realização humana
Que dispensa bússolas
Ou planos!
Tudo é frenético e intenso
O momento faz a existência
E se assim não fosse,
Charlie nasceria na hora errada,
Num mundo eternamente adiado,
Mas graças à sua volúpia incessante
Até o Universo
Ele conseguiu pagodear.





Imagem antiga de Charlie Chaplin extraída após uma pesquisa no Google

Poema nº 370 - Sarcófago de Memórias


Sarcófago de Memórias
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Vistoriei as palavras do passado
Aprovisionadas num sarcófago imóvel
Que perpetua o meu ego retalhado
Subterfúgio soturno do turbilhão ignóbil.

Não fustigo os deuses da arte faustosa
Que me induzem em mil labirintos
Como se fosse uma alma engenhosa
Capaz de mergulhar em sonhos tintos!

Sou atraído pelo delírio ideológico plural
Arquivo o que penso e o que não penso
Carrego na mente um fardo memorial.

Se pudesse simplificar a existência
Talvez morreria pouco tempo depois
Porque não se vive sem penitência!




Fotografia retirada de Sapo Imagens

Poema nº 369 - Sobre o Inconformismo Sindical


Sobre o Inconformismo Sindical
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Admiro um sindicalista sensato
Que trate todos por igual
Públicos e privados,
Sem mendigar mediatismo
Com propostas ilusórias.
Agora os outros que querem antena
Mais parecem besouros insaciáveis
O seu zumbido inquieta-me!
Quando se tornarem alquimistas
E transformarem ferro em ouro
Numa demanda pela pedra filosofal
Eu serei o maior sindicalista
Que o país já viu,
Mas até lá
Não se iludam:
Não há petróleo em Portugal,
Não há robots para nosso repouso,
Não há dez Bill Gates na tecnologia,
Por isso,
Desçam do País da Alice das Maravilhas
Conheçam o que vos rodeia
E questionem-se:
De que adiantam aumentos salariais
E outras volumosas reivindicações
Se não há camas nos hospitais?
Ou comida suficiente nas escolas?
Querem fazer o telhado sem os pilares?
Que arquitectura social apregoam então?
Tende por certo que as pequenas vitórias
Por vezes, são as melhores,
Sem elas,
A matemática não vos mostrará clemência
Nem o povo
Beberá da poção da paciência!





Imagem retirada algures do Google


Nota-Extra: Este poema não pretende colocar em causa a existência e o legado do sindicalismo em Portugal e o seu papel histórico na melhoria das condições laborais, contudo muitas das exigências recentes têm-se pautado por excessos incompreensíveis que parecem estar desenquadrados da realidade. Estes versos alertam para a necessidade de uma maior moderação das reivindicações e numa estratégia de defesa igualitária dos trabalhadores públicos e privados.

Poema nº 368 - Nevoeiros de Alma


Nevoeiros de Alma
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Descanso mas não me omito
Nestes devaneios periclitantes
Em que da nostalgia sou súbdito:
Brumas de alma desconcertantes!

Não sei qual é a filosofia mestra
Que nos prende à realidade terrena,
Sinto na chuva a indelével orquestra
Devoluta da almejada paz serena.

E todos os ideais ali se encriptam,
Mesmo que não os assimilemos
Porque algumas gotas nos atrofiam.

O dia solitário cede à melancolia
Mas até esta nos elucida no percurso
Como uma suave e tenra homilia.




Imagem retirada algures do Google

sábado, 19 de outubro de 2019

Poema nº 367 - Arquitectura dos Beijos


Arquitectura dos Beijos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O mundo do beijo é arcano:
Línguas que dançam o tango
Lábios sedentos do profano
Afagos faciais em losango!

E na arquitectura do amor
Construímos de olhos cerrados
Lares que transcendem o pudor
Com jardins de sonhos lavrados!

Blinda-se o terramoto de emoções
Ou o maremoto do denso salivar,
Subterfúgios avessos a privações .

E quando a inquietude desaparece
Erguem-se pontes para as almas
O beijo epigrafa o que não perece!




Poema nº 366 - Luto Amoroso


Luto Amoroso
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não vejo agora em ti a alegria
Que outrora julgava ter achado
Num exercício de arqueologia sentimental!
Hoje divagas apenas pelos campos silvados
És refém de uma espiral turbulenta
Não me arrastes para o teu labirinto
Tudo se frustrou:
Projectos, sonhos, beijos,
Porque idolatras o impossível
Nem te dás conta da sombra
Que te cobre subtilmente.
Não penses que me declaro inocente,
Também te falhei,
Abriguei-me noutra floresta
Em vez de ser o teu incansável guardião,
Confesso-te:
Não sou o teu super-homem
Que procuras de forma insaciável,
Não sou tampouco um feiticeiro
Portador da receita miraculosa
Que te trará luz aos teus horizontes,
Talvez te reserves no direito de me censurares,
De me considerares uma fraude,
O fim do amor é tumultuoso
O luto pode ser violento,
Os teus sismos emocionais compreendem-se
Porém não te resolverão!
E em ti, sei que ainda há esperança,
Não por mim, que desapareci,
Mas pelas pegadas vindouras,
Reconheço-te sabedoria interior
E a beleza fisionómica de uma fada,
Não desistas de te procurar
E de te libertar dos densos arbustos
Que te agrilhoam dolorosamente,
O teu livro ainda não se fechou,
Ainda podes escrever muitos capítulos,
Não comigo,
Mas numa planície apaixonante
Junto do homem que te foi destinado!





Imagem meramente exemplificativa da autoria de Amanda Cass