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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

terça-feira, 26 de abril de 2016

Pequena Nota-extra - Solarengo vs Soalheiro (uma confusão "linguística" desnecessária)

Por duas vezes (nos poemas nº 89 e 152) recorri ao termo "solarengo" neste blogue no sentido de o associar, de modo directo ou simbólico, à iluminação diária proveniente do Sol. Os linguistas tradicionais e conservadores defendem que o vocábulo mais correcto é "soalheiro", visto que "solarengo" é sobretudo utilizado para aludir a um solar, isto é, a um edifício nobiliárquico/nobre.
Todavia, numa perspectiva poética, "solarengo" é um termo mais atractivo ou pujante do que "soalheiro," e além disso, consideramos que os vocábulos não devem encerrar ou limitar dentro de si apenas um significado, quando os mesmos são recorrentemente utilizados, no meio popular, com um segundo sentido.
Pela minha experiência (ao nível de textos consultados na internet, na imprensa portuguesa e até nas conversas estabelecidas na própria praça pública), verifico que a palavra "solarengo" costuma ser  regularmente adoptada no sentido de "soalheiro" (as designações de "dia solarengo" e de "dia soalheiro" são, por exemplo, bastante recorrentes) , algo que no nosso entender faz com que o termo não se possa restringir somente à sua origem primitiva. Por outras palavras, defendemos que "solarengo" deve expressar associação a um solar (mantendo assim o seu significado original) mas deve igualmente tolerar a sua utilização como sinónimo de "soalheiro" ou de "ensolarado", isto é, termos conotados com o reflexo luminoso e agradável do Sol ou, por outras palavras, com a irradiação solar (recordo que o termo "solar" não designa só uma habitação nobre, como é igualmente conotado com os movimentos ou a energia derivada do próprio sol).
Também ousamos citar o novo Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa bem como o Dicionário Electrónico Priberam que admitem a utilização deste segundo sentido da palavra solarengo.
As palavras também evoluem e os seus significados não são excepção.
Por isso mesmo, decidimos manter o termo "solarengo" nas duas únicas vezes que o utilizamos ao longo dos cerca de 170 poemas já aqui publicados. É algo que o fazemos por convicção pessoal porque as palavras não devem ser "compartimentos cerrados e monótonos" , mas logicamente compreendo que esta minha posição não mereça a concórdia de alguns especialistas da língua portuguesa.
Mas eu só desejei expor a minha própria interpretação.

sábado, 23 de abril de 2016

Poema nº 170 - Perto mas longe da Morenaça


Perto mas longe da Morenaça
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Portadora dum corpo imparagonável,
Adorava pentear os teus caracóis,
Beijar com ardor a tua face impreterível,
Mimar os teus mamilos ocultados nos lençóis.

Pensei tanto nas nossas aventuras,
Idealizadas com máximo erotismo
Mas situadas a léguas do realismo.
Só me deixaste esboços de pinturas!

A frugalidade que prontamente ilustravas,
Guarnecia o meu espírito de calidez
Tentado pela tua afeiçoável placidez!

Mas emigraste para a longínqua África,
Deixaste-me numa supliciante tortura,
Que ingloriamente recordará a tua formosura.



Poema nº 169 - O Mausoléu da Seita Apocalíptica


O Mausoléu da Seita Apocalíptica
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Havia um modesto cemitério ancestral
No exterior da vila insípida e mortificada,
Cuja comunidade deveras desnorteada
Aguardava pelo sopro do anjo da morte imperial!

Um mausoléu de tradição lendária
Emergia nesta necrópole do pavor!
À noite, descerrava-se o portal do horror,
Para asilar a irmandade temerária.

Através do vitral, viam-se elementos mascarados
Que perfilhavam movimentos ritualizados
Em torno duma divindade maquiavélica.

Vultos do nada e desprovidos de identidade,
Sedentos de magia oculta que lhes trespassasse poder,
Intentavam assim a descoberta da receita da iniquidade!

Ninguém os ousava enfrentar ou denunciar!
Misteriosamente, eles acabavam por se sumir,
E invisíveis, várias vidas humanas haveriam de triturar!

sábado, 16 de abril de 2016

Poema nº 168 - Oceano Revolto


Oceano Revolto
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


As musas que sempre me inspiraram
Nunca leram decerto os meus poemas:
Foram apenas fantasmas românticos
Que acalentaram a minha ilusão.
Mas bem sei que preciso delas,
Porque sonhar é a minha derradeira virtude,
Ou até necessidade suprema do destino!
Sou um navegador no seio da tempestade,
Sou um alvo fácil do oceano endiabrado,
Mas ainda assim resisto com valentia
Na remota esperança de achar a ilha curandeira
Onde poderei ancorar em paz o meu coração!
Mas as estrelas que até aqui me guiaram
Escolheram morar noutros universos paralelos
E deixaram-me nesta perdição
Sem qualquer rumo transcendental!
Contudo, velejo ainda com ousadia,
Mesmo que seja engolido pelas ondas da incerteza
Ou derrubado pelos sinistros rochedos!
Se não conquistar a sorte pelas palavras,
Que o meu ser demeritório sucumba nesta epopeia
E que, ao menos, o meu corpo gélido
Dê às margens de uma praia abençoada
Para finalmente jazer nos teus braços,
Musa da ilusão,
Musa que tanto te procurei em vão!




Poema nº 167 - Ode a Rumi


Ode a Rumi
(Poema Livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Nessa noite solitária,
Bailavam as estrelas
Escutando a melodia do amor,
Viajavam os cometas
Dispersando a luz da sabedoria,
Dissipavam-se os buracos negros
Rendidos ou até cerrados
Pelo longínquo ecoar dos versos da Humanidade!
E nesse meu observar da mítica noite,
Vi como o Firmamento se achava lotado de diamantes
Que cintilavam sob a tumba do Mestre dos Poetas
Instalada numa terra turca a que chamam Konya!
Por ti, Maulana Rumi, hino de Deus,
O Universo conspirava pela harmonia,
Numa sintonia musical nunca antes sentida,
Numa dança astral extasiante!
E eu se fosse um dervixe ou um asceta sufi,
Seria discípulo fiel aos teus ensinamentos,
Lavaria a minha alma imperfeita,
Tornando-a pura e cristalina,
Na mais iminente ânsia de iluminação espiritual.
Mas eis que o Sol começa a emergir,
Despindo os segredos virgens da Lua
E coroando de uma radiante luz os vivos.
Mas na próxima noite,
O Universo voltará a ser teu,
Só teu,
Rumi.





sexta-feira, 11 de março de 2016

Poema nº 166 - Os aldeões dos Descobrimentos


Os aldeões dos Descobrimentos
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


No meu país, subsistiram muitas aldeias
Cercadas por um folclore de paisagens
Guardiãs das mais diversas epopeias
Dessa ruralidade colorida em imagens. 

Com um arado, cultivámos os campos,
Com um barco, descobrimos o globo,
Com uma cruz, intercedemos aos santos
Com uma espada, fomos alma de lobo!

Os aldeões endeusaram a nossa nação
Extinguiram o seu papel de anonimato,
E afrontaram os Adamastores de então!

O seu espírito derrubou fomes e guerras,
Eclipsou as mais tenebrosas tempestades,
E a sua glória repousa agora nas serras!





Imagem retirada de: https://www.youtube.com/watch?v=W4TdJbAtsFo, (Youtube)

Poema nº 165 - Mulher Judia


Mulher Judia
(Poema Livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Em cada renascer do sol lisboeta,
Os meus olhos perseguiam os teus
Como caravelas loucas de exotismo
Que beijavam ardentemente o Índico!
Os nossos sorrisos entrelaçavam-se
Numa dança pelas ruelas estreitas,
Ao som de uma música doce e singular
Que jamais ecoara pelas Igrejas
Ou pelas sinagogas encerradas do reino.
Mas a sombra do pecado perseguia-nos:
Os nossos lábios eram enclaves recônditos
Alheados de dogmas religiosos,
Inocentes de toda a perseguição movida
Por aqueles que proferiam desígnios divinos!
Mas os teus olhos azuis eram um mar de esperança,
Os teus cabelos negros, uma bênção da criação,
A tua cara branca, um areal de emoções!
Ao longe, os mercadores votavam olhos à tua formosura,
Provocando em mim uma ciumeira infinita,
Uma vontade de assumir a nossa paixão ardente!
Pensei em tempos apelar às sereias do Tejo
Que nos fretassem uma barqueta,
Para assim fugirmos rumo a um país tolerante,
Onde pudéssemos constituir família,
Sem que os representantes fanáticos de Deus
Importunassem dois rouxinóis inseparáveis
Que se completavam num firmamento de amor!
Mas naquele dia, 19 de Abril de 1506,
O sol apagou-se, as estrelas desvaneceram-se,
A escuridão semeou súbditos infames em Lisboa,
Sedentos de vingança e de ódio,
Acusando os judeus de todos os males:
Da peste, das doenças e até da fome!
Do Mosteiro de São Domingos, nasceria um rio,
Um rio de sangue, uma ilusão de purificação,
Uma estratégia diabólica dos frades da ignorância
Que logo incitaram à morte dos "hereges"!
Mulher judia, luz intensa da minha vida:
Nos meus pergaminhos de bom cristão
Bem corri desorientado em teu socorro,
Entrei pela tua casa com o coração a latejar,
Vi os corpos despedaçados dos teus pais
E até o teu irmão mais pequeno foi garrotado,
Mas não te vi ali naquele fatídico "mausoléu",
Pelo que prossegui com a busca desesperada!
Por entre as ruas, assistia ao linchamento público:
A população alvoraçada clamava em uníssono
Que esta era a suprema vontade de Deus!
Desci até à ribeira do Rio Tejo, e finalmente,
Lá vi o teu corpo, meio vivo e repleto de feridas,
A ser consumido nas fogueiras improvisadas!
Guardei uma última imagem do teu rosto
Que seria memória da minha saudade eterna,
E depois, as tuas cinzas voaram como borboletas
Para serem recolhidas pelas sereias do Tejo!
E eu impotente perante o motim popular,
Nada pude fazer para impedir o teu martírio.
Apenas olhei para o céu, e aí tive uma visão:
Um anjo deambulava por entre as nuvens
Abraçando todos aqueles que partiram
Naqueles três dias de imenso terror!
E eu aí percebi que aquele Santo Deus
Acolhia todos os que manifestavam bondade
E repudiava aqueles que invocavam o seu nome
Para cometer as mais terríveis atrocidades!
Deus nunca exigiu sangue, mas sim amor!



Nota-extra: Poema de homenagem às vítimas do "massacre judaico" de Lisboa que decorreu entre os dias 19 e 21 de Abril de 1506 (na altura, em tempo de Páscoa). Várias vidas foram ceifadas nas suas próprias casas, e outras foram arrastadas para as fogueiras improvisadas nos lugares da Ribeira do Tejo e do Rossio. Julga-se que terão morrido algumas centenas de judeus/cristãos novos às mãos dos fanáticos perseguidores. No entanto, Garcia de Resende estima que teriam sido ao todo 4 mil - os mortos daquela deplorável chacina...
Estes versos foram igualmente elaborados em nome da tolerância/liberdade religiosa em todo o mundo!