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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sexta-feira, 16 de março de 2018

Poema nº 272 - Não sei o que te dizer


Não sei o que te dizer 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Não sei o que te dizer
Gastaram-se as palavras
O fervilhar sentimental,
Os sonhos que turbilhavam
No meu olhar inocente.
Tu és agora um astro
E eu um mero contemplante
Que jamais te alcançará,
Porque a tua luz raia intensamente
Até ao infinito,
E eu que te mendigo
Ignoro a fórmula quântica
A velocidade do teu tempo!
Regresso ao princípio da história
Ao dia em que te conheci,
Aí já não sabia o que te dizer
Pela nulidade de vivências mútuas,
Mas hoje,
Também já não sei o que te dizer
Porque tudo o que vivemos desde então,
E não foi pouco,
Foi o colidir de várias emoções
De inúmeras expressões profundas
Que agora de nada valem
Mesmo diante do poder das palavras!
O meu sonho romântico de ti capitulou
Para jazer eterna e friamente
No cemitério dos amores silenciados!




quinta-feira, 15 de março de 2018

Poema nº 271 - Identidade Anárquica


Identidade Anárquica
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Perco-me no labirinto das incertezas
E deixo-me absorver pelo denso nevoeiro
Sem que saiba o que procuro
Ou sequer quem sou na verdade!
E nesse silenciar de caminhos
Extravio-me dos saberes do mundo,
Sou a incógnita de uma equação
O som indecifrável de um vento místico,
O estado de alma que ninguém experienciou
A cobaia da ilusão do supremo Universo.
E na imensidão desta identidade anárquica
Invisto sem hesitar nas palavras
Na demanda de uma matriz irrefutável
Mas até elas são insuficientes
Para expressarem os meus sentires,
As minhas infindáveis emoções,
Quando não me traem nas decisões!
Resta-me escutar os sons da Natureza
Atender à sua complexidade heterogénea,
Sorrir quando ela se traja elegantemente
Na época primaveril, dotada de cores;
Entristecer-me quando ela é refém
Dum Inverno rigoroso e violento
Ou da perversidade humana.
E nisto, descodifiquei o meu primeiro dogma:
O de deambular pelas aldeias
Pelas suas florestas e planícies,
Porque é aí que me reencontro,
E devolvo paz ao meu espírito!
Longe do extenuante ruído urbano,
Apenas a fonte do silêncio
Poderá oferecer a grande verdade,
Os conselhos que deverei seguir
Nesse futuro que se revela brumaceiro!





Poema nº 270 - Manuel Carrancudo, o Político das Jantaradas


Manuel Carrancudo, o Político das Jantaradas
(Poema satírico/irónico da autoria de Laurentino Piçarra)

Mais uma jantarada
Para debater os interesses do povo
Do povo partidário!
Oh! Estão aqui duzentos militantes,
Que enchente!
É pena não ser no Panteão,
Eu que até sinto nostalgia
Pelos nossos heróis nacionais,
Eles decerto gostariam da nossa companhia!
Mas não me posso lamuriar:
Estou num restaurante de luxo
De quatro estrelas,
Porque a quinta foi derrubada
Dizem que por uma tempestade recente!
Agora que dá para deduzir
O tão sagrado IVA
Vou mandar vir, não uma,
Mas três feijoadas só para mim
E claro, os sucessivos arrotos anais
Coroarão semelhante inspiração
Inerente à assembleia política
Fazendo divulgar o aroma do meu raciocínio
Pelas mesas vizinhas!
Ó Iva, ó Iva,
Agora quero um gelado de caramelo!
Ó que bela lei aprovamos
Às escondidas dos portugueses!
Ah, mandem-me vir um vinho de Provença
Esta garrafa custa vários euros
Mas é para refrescar a minha mente:
Que doçura de vinho
Atiça o paladar,
Adoça o estômago
E inquieta, uma vez mais, os intestinos!
Já agora, tive uma ideia
Depois de tanto manjar:
Vou propor ao governo
Que se crie uma bandeirada estatal
Já que o Mar é do Estado:
E sempre que um português
Ali se aventure no Verão
Ora para surfar a onda
Ora para nadar e apanhar a boleia
Para voltar de novo à praia,
Nem que seja à cangalhada
E com a cabeça cravada na areia,
Tem de pagar o devido imposto
O da Bandeirada de transporte aquático!
Eh pá! Já começa a ficar tarde:
Mandem vir agora cinquenta velas,
Ou melhor, cinquenta bolos
Já que o Estado paga quase tudo,
É para o aniversário do partido
E o partido é tudo, e o resto é nada!
E queriam alguns velhos do Restelo
Deduzir o IVA dos jantares das IPSS
Fornecidos solidariamente aos idosos,
Isso é que era bom!
Lamento, mas as jantaradas partidárias
São mais úteis ao país
Do que andar a comprar babetes
Para os mais velhos!
E eu, Manuel Carrancudo, assim penso
Desde que me militei no meu partido!
Já agora, mandem vir o café,
Comprido se faz favor,
Senão escrevo no livro de reclamações
E vou para o Canal do Parlamento,
O Canal da Transparência Total
Dizer que fui mal tratado!






Nota-Extra: Poema com finalidade crítica. O objectivo do mesmo passou por denunciar os jantares realizados no Panteão Nacional, sítio carismático que merece respeito. Além disso, a decisão tomada, nos bastidores, pelos partidos em passar a deduzir o IVA para as suas actividades, sendo até mais beneficiados que as IPSS, é absolutamente rocambolesca e constitui uma afronta ao povo português. Recorri à poesia para transmitir a minha indignação pela situação. Precisamos de políticos sérios, frontais e com noção da realidade social. A política não pode adoptar tiques aristocráticos!

Poema nº 269 - Borboleta da Diáspora


Borboleta da Diáspora 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Só vim ao mundo para te ver
Pequena borboleta da Diáspora
Que a mim fluis a cada entardecer
Ostentando a coragem de Zípora!

Voas para jazeres no meu ombro
Subjugando as correntes álgidas: 
Cúmplices do corporal assombro
Das labaredas então exauridas! 

Não consigo explicar o teu milagre
Vives além de qualquer equação
Fazes com que cada coração flagre!

Enamorado das tuas asas púrpuras
Viajo com elas a um novo mundo
Onde serei fogo, e tu candura!





Poema nº 268 - Deixa-me acreditar no teu perdão


Deixa-me acreditar no teu perdão
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Deixa-me acreditar no teu perdão
No sonho de que serás a tal mulher
Que entrará no castelo da perdição
Em que me encontro sem mester! 

Só tu escalarás as muralhas ímpias
Que os fantasmas do meu ser criaram
Para frustrar todas as paixões íntimas
Que do meu coração despoletaram!

Mas tu és a exímia arqueira do amor,
As tuas flechas derrubarão a guarnição
Que me acorrenta ao supremo dissabor!

Libertar-me-às das celas da negatividade
E abraçados fugiremos para a planície 
Seremos orquídeas até à eternidade!





Poema nº 267 - As Prendas do Sorriso e da Compaixão


As Prendas do Sorriso e da Compaixão
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Deixem luzir os sonhos
Dessa noite mágica
Idealizada pelas estrelas,
E desembrulhem a prenda do amor
Que o Deus-Menino nos deixou!
Esqueçam o Pai Natal
Esse cúmplice do capitalismo,
Porque o Natal não é essência material,
Não é uma prerrogativa exclusiva dos ricos,
Mas um privilégio da Humanidade
Que tanto padece de paz e fraternidade!
Um sorriso é tudo o que procuro
E para que ele possa ser genuíno
Não haverá vil metal que o compre:
Ele não virá da chaminé do magnata,
Ou dos ares gélidos da Lapónia
Mas das fogueiras do nosso coração
Que alumiam o nosso rosto
Semeando a mais fascinante compaixão
Em nós e naqueles que nos rodeiam.
Amem o que há para amar
Porque como nos ensinava o nazareno,
Esse é o único sentido da vida!





Poema nº 266 - Sonhos Descontínuos


Sonhos Descontínuos 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Sonhei com tudo e com todos,
Mas acordei sempre sozinho
Sem me lembrar das telas
Que o meu subconsciente havia pintado
Nas horas sigilosas do meu sono.
Sei que fui realizador e actor principal
Em todos esses filmes:
Desde vilão a herói,
De pirata a príncipe,
De homem rodeado no divã
Por uma troupe de mulheres
Ou de monge extraviado nos montes
À procura de redenção divina,
Na verdade, fui tudo isso
Mas somente enquanto sonhava,
Porque o despertador,
Esse ominoso filtro da realidade
Raptar-me-ia dessa dimensão criativa,
Sequestrando-me no mundo dos vivos
E anunciando que era cedo demais
Para abraçar o advento dos sonhos infinitos!