Manuel Carrancudo, o Político das Jantaradas
(Poema satírico/irónico da autoria de Laurentino Piçarra)
Mais uma jantarada
Para debater os interesses do povo
Do povo partidário!
Oh! Estão aqui duzentos militantes,
Que enchente!
É pena não ser no Panteão,
Eu que até sinto nostalgia
Pelos nossos heróis nacionais,
Eles decerto gostariam da nossa companhia!
Mas não me posso lamuriar:
Estou num restaurante de luxo
De quatro estrelas,
Porque a quinta foi derrubada
Dizem que por uma tempestade recente!
Agora que dá para deduzir
O tão sagrado IVA
Vou mandar vir, não uma,
Mas três feijoadas só para mim
E claro, os sucessivos arrotos anais
Coroarão semelhante inspiração
Inerente à assembleia política
Fazendo divulgar o aroma do meu raciocínio
Pelas mesas vizinhas!
Ó Iva, ó Iva,
Agora quero um gelado de caramelo!
Ó que bela lei aprovamos
Às escondidas dos portugueses!
Ah, mandem-me vir um vinho de Provença
Esta garrafa custa vários euros
Mas é para refrescar a minha mente:
Que doçura de vinho
Atiça o paladar,
Adoça o estômago
E inquieta, uma vez mais, os intestinos!
Já agora, tive uma ideia
Depois de tanto manjar:
Vou propor ao governo
Que se crie uma bandeirada estatal
Já que o Mar é do Estado:
E sempre que um português
Ali se aventure no Verão
Ora para surfar a onda
Ora para nadar e apanhar a boleia
Para voltar de novo à praia,
Nem que seja à cangalhada
E com a cabeça cravada na areia,
Tem de pagar o devido imposto
O da Bandeirada de transporte aquático!
Eh pá! Já começa a ficar tarde:
Mandem vir agora cinquenta velas,
Ou melhor, cinquenta bolos
Já que o Estado paga quase tudo,
É para o aniversário do partido
E o partido é tudo, e o resto é nada!
E queriam alguns velhos do Restelo
Deduzir o IVA dos jantares das IPSS
Fornecidos solidariamente aos idosos,
Isso é que era bom!
Lamento, mas as jantaradas partidárias
São mais úteis ao país
Do que andar a comprar babetes
Para os mais velhos!
E eu, Manuel Carrancudo, assim penso
Desde que me militei no meu partido!
Já agora, mandem vir o café,
Comprido se faz favor,
Senão escrevo no livro de reclamações
E vou para o Canal do Parlamento,
O Canal da Transparência Total
Dizer que fui mal tratado!
Nota-Extra: Poema com finalidade crítica. O objectivo do mesmo passou por denunciar os jantares realizados no Panteão Nacional, sítio carismático que merece respeito. Além disso, a decisão tomada, nos bastidores, pelos partidos em passar a deduzir o IVA para as suas actividades, sendo até mais beneficiados que as IPSS, é absolutamente rocambolesca e constitui uma afronta ao povo português. Recorri à poesia para transmitir a minha indignação pela situação. Precisamos de políticos sérios, frontais e com noção da realidade social. A política não pode adoptar tiques aristocráticos!

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