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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 6 de julho de 2019

Poema nº 355 - Mutações do Corpo Santo



Mutações do Corpo Santo 
(Soneto livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Quero-te tanto, corpo santo
Para me curvar ao teu reino
Onde és Verão sem manto
Escultora de dons sem treino.

O teu coração é o monte Vesúvio
E eu sou um habitante de Pompeia
Que padece de um grave infortúnio
O de não me aceitares na tua ceia.

Sombras e mais sombras perdidas
Bailando por detrás das cortinas
Vozes que ecoam sem ser retorquidas. 

Quando der por ela, já será Inverno:
A tua pele, um glaciar da Gronelândia
E eu, um casto esquimó do interregno.





Imagem retirada do WikiArt

Poema nº 354 - Matemática de Vénus



Matemática de Vénus
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Manifestam-se os aromas dos teus lábios
Que se libertam nos teus múltiplos idiomas
Catequizando folhas dos meus alfarrábios 
Repletos de mitos e primitivos axiomas.

Não que te revele a matemática sentimental
Os cálculos emocionais que me inculcas
Sempre que te prefiguras como mulher irreal
De um mundo beijado com que me sulcas.

O Paraíso existe, é humano e transcendental
Porque em ti, eu me transformo num templo
Onde o teu semblante é autoridade sacramental. 

A nossa geometria corporal é um vitral lendário
Não tanto pelo vinho em que ambos nos saciamos
Mas porque a tua voz é música celta do imaginário.




 Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://formacao.cancaonova.com/

Poema nº 353 - O Tudo do Nada


O Tudo do Nada 
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


O tudo é esse nada colorido
De ilusões a que chamamos realidade:
O tempo corre
Não tem idade
Superintende a existência,
É um semi-deus indiferente
Que não exige qualquer crente.
E o tudo
Não passa de uma migalha
Oferecida a um sem-abrigo
Porque todos nós o somos
Viajando na incerteza
Sem qualquer escudo seguro.
A cada momento,
Há um portal para o nada
Esse nada que hoje é tudo
Para quem exige do nada
O fruto do tudo desejado.
Na verdade,
Ninguém vos disse
Que somos moinhos de vento?
Não moemos trigo,
Apenas os dias efémeros da vida
Até que um dia...
Até que um dia...
Nos tornaremos no próprio vento
Que sopra consoante
A aleatoriedade do tempo.





Imagem nº 1 - Um moinho presente na ilha de Porto Santo (arquipélago da Madeira).

Poema nº 352 - Queimem os ossos do génio


Queimem os ossos do génio
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Queimem os ossos do génio,
Nesses lampejos sádicos
Do fogo sem alma
Que consome a madeira
Do cadafalso
Carrasco do orgulho humano!
Admitam que as ordens que seguis
Não são celestiais
Em vós, reside a inclemência
O alimento do ódio
Que persegue as minorias
Sonhais com um mundo tenebroso
Para quem é diferente de vós.
A vossa frustração é assombrosa
O médico de Castelo de Vide
Fintou-vos em vida
Ninguém o desafiara
Porque a sua reputação
Granjeou a admiração de reis!
Dizeis mal dele e do Pedro Nunes,
A vossa inveja é mãe da ignorância
Mas contentai-vos em fazer desaparecer
Os restos mortais
Do já falecido Garcia de Orta.
Atirai ainda para a fogueira
As suas imensas obras
Podeis fazer tudo!
Mas jamais extinguireis o pensamento
Do sábio das plantas medicinais.
E antes que me cortem a língua
Por blasfémia ou injúria
Perguntarei nesta viagem do tempo:
Clérigos inquisidores, que fazeis vós?
Talvez sofrais de amnésia colectiva?
Não aprenderam nada com Jesus?
Obliteraram o amor da missão divina?
O perdão e a compaixão perderam-se?
Ciência e Religião
Desde sempre adversárias,
Quando não inimigas,
Talvez um dia
Bem longe dos tempos actuais
Parceiras...




Imagem nº 1 - Potencial retrato de Garcia de Orta (1501-1568)

Poema nº 351 - O Mar-Cemitério


O Mar-Cemitério 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Migram nuvens, migram humanos
Guerras fratricidas trucidam povos
Máquinas de morte impõem tiranos
E o silêncio é o segredo dos corvos.

Muitos fogem ao presente abalroado
Aventuram-se nos mares incertos
Deixam para trás o horror despertado
Mas os seus sonhos continuam desertos.

O mundo continua de olhos vendados
Os políticos proferem discursos utópicos
A hipocrisia aceita o afogar dos desesperados.

Almas que sucumbem às ondas implacáveis
Que são vítimas da falsa solidariedade,
Um cemitério de lágrimas imensuráveis!







Nota Adicional: Poema que visa denunciar a falta de humanidade e a hipocrisia dos líderes ocidentais face ao drama vivido pelos refugiados no Mediterrâneo.

domingo, 16 de junho de 2019

Poema nº 350 - A Mulher de Goa


A Mulher de Goa
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


De vestes rosadas, emergia da casta
A perdição hindu das hostes portuguesas
Morena, de um sorriso que a todos abasta
Inculcando sonhos em templos de princesas.

O cabelo escuro amarrado com tranças 
O bindi insigne do seu facial santuário 
Os olhos, vitrais das suas térreas praças, 
Presenteiam os mortais com o imaginário.

Afonso de Albuquerque conquistou a cidade:
A nova Roma do Oriente, sem feras e coliseus,
Mas esqueceu-se de domar a singular beldade!

O Índico não se deixa ludibriar ou seduzir
A mulher de Goa não é uma recompensa, 
É a reencarnação intocável do divino porvir!







Informação Adicional: O Bindi é um apetrecho utilizado no meio da testa, próximo às sobrancelhas. Simboliza, na cultura hindu, o terceiro olho místico (agñá-chakra).

Poema nº 349 - Barqueiro do Sado


Barqueiro do Sado
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Inspiro-me a teu lado
Sou um mero barqueiro
Tu és o olímpico Sado
Água que rasga o nevoeiro!

Rebolo-me pelo húmido areal
E com a cana do coração
Lanço o anzol sofismal
Ao peixe da tua criação!

Entro incógnito no meu navio 
As velas são lábios sedentos
Que anseiam pelo desconhecido.

O teu rio é um rumo de segredos:
Procuro o teu porto imaculado
Ritual final do prazer aromado.




Imagem nº 1 - Um cais presente no rio Sado.
Foto magistral da autoria de Aníbal Lopes na página "Olhares Sapo"