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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

terça-feira, 17 de julho de 2018

Poema nº 290 - Livro sem argumento


Livro sem argumento
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


No amor, não há plano b:
Se eu não te quis,
É porque merecias mais,
Se tu não me quiseste
É porque encontraste melhor!
Não há tempo
Para voltar atrás,
Não há arrependimento possível
Porque a frieza do destino
Não se compadece das palavras
Nem dos sentimentos!
Tu viraste a página,
Eu também,
Não tenhas vãs esperanças:
O nosso momento
Foi apenas o prefácio
De um pequeno livro,
Sem grande argumento,
Porque enquanto um escrevia,
O outro deambulava pela biblioteca,
Desinteressado.




Poema nº 289 - Filósofo Autóctone


Filósofo Autóctone
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Não sou bem um místico,
Pelo menos,
Daqueles puros
Domados pelo fogo
Que invisivelmente emerge
Do bastião da alma!
Não sou também um teólogo
Porque não domino as Escrituras,
Nem sou especialista
Das coisas espirituais!
Sou antes um filósofo
De introspecção fria e neutra,
Liberto do rigor das ciências
Distanciado dos dogmas religiosos!
Assumo as minhas limitações:
Também procuro respostas,
Mas não estou perto
Da Verdade,
Nem sei se quero,
Vivo da caridade do destino,
Pelo menos ainda,
E nada quero antecipar,
Muito menos,
A lápide do silêncio eterno
Que me está reservada!
Mas não olhemos mais em redor:
Nesta etapa,
Temos de ser os Messias
De nós mesmos e dos outros!
O amor é a chave da felicidade
De todo o progresso social
E até ele tem de ser estimado!
Deixem-me agora retornar
Por uns instantes
À minha Amazónia imaginária,
Ali consigo encontrar a paz
Incutida pelas árvores,
E junto a elas,
Num recanto anárquico,
Imbuído de alguma espontaneidade
Encontro a fonte da sabedoria,
Esculpida, não de ouro,
Mas da mais modesta madeira,
Censurada pela civilização moderna
Em estado de ruído e negação.





sexta-feira, 13 de julho de 2018

Poema nº 288 - A Azaleia Mágica


A Azaleia Mágica
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Nunca pensei visionar 
Uma azaleia alaranjada
Perto do areal
Donde me encontro!
Quantas sardas,
Perdão, pétalas
Envoltarão o seu sorriso?
Nem o mar, nem o vento
Apoquentam a sua ternura,
Nem desvirtuam a inocência
Com que ela brinda 
Os comuns mortais!
A sua voz,
E finjo não estar louco,
É como um búzio
Que me faz mergulhar
Num oásis de águas vítreas:
Latíbulo idílico das emoções
A léguas do deserto mundano!
Ah! Mas sou um mero sonhador,
Um dos muitos observadores
Que nada percebe de azaleias!
Como invejo os botânicos
Ou jardineiros
Que cuidam destas obras,
Exclusivas e Impreteríveis,
Da mãe Natureza.





Poema nº 287 - A Casa do Passado


A Casa do Passado
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Como rangem as portas rústicas
Do consulado da olvidada saudade,
Resistindo às modernices acústicas
Sopradas por um vento sem piedade!

Feita em madeira, e do além genuíno,
A casa do passado é o sincero refúgio
De quem procura em si mesmo o divino
O ensejo de um hodierno transfúgio. 

Nesse abrigo, somos deuses da vida,
Fazemos reviver tudo o que já pereceu,
Sem artificialismo ou crença exigida!

O passado é um edifício incorruptível,
Menosprezado pelos falsos moralistas,
Ameaçado por um futuro cruel e punível!




Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google


Nota-extra: No penúltimo verso, aludimo-nos aos falsos moralistas do presente que, muitas vezes, ignoram o passado que pode afinal ensinar-nos muita coisa.

Poema nº 286 - Sonhos de Mel


Sonhos de Mel
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Que sonho é este
Diluído pelos teus seios
Montanhas da minha perdição?
Não deveria o filme da inconsciência
Projectar antes o teu rosto
Terra firme
Estágio inicial de uma escalada?
Como ousei voar até ao cume
Das tuas cascatas
Sem consolidar méritos
Que justificassem tal privilégio?
É apenas um sonho.
Ou melhor, uma mentira
Que se fazendo sentir realista
Durante a profundeza nocturnal
É desfeita
A cada raiar do Sol,
Pelos rios de formosura
Que provêm do teu habitat
Interdito aos desejos
Do comum ser carnal.
E nisto,
Devo ser dos poucos
Que idolatro a lua,
A mãe dos meus sonhos
A fonte fictícia do teu mel!






Poema nº 285 - Mundos Separados


Mundos Separados
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei em que mundo acordaste
Mas não foi no meu,
Porque o céu está nublado
E assim não descortino o teu sol
Que irradia uma luz fulgurante
Iluminadora de planeta longínquos
Salvadora de almas desviantes.
E eu, mero sonhador imperfeito,
Queria ser o astronauta do amor,
Voar até ao firmamento
Onde fazes repousar a tua elegância,
O teu brio contagiante!
Do meu olhar, soltam-se cometas
Remetidos à tua galáxia,
Na esperança de um encontro
Que nos una para sempre!
Porque se tu és a estrela maior,
Eu serei o teu admirador secreto,
A carta que nunca leste,
O telefone que nunca tocou,
Porque tudo o que senti
Foi apenas um raio vulgar
De entre muitos
Do teu oceano luminoso romântico!





Poema nº 284 - Terapia da Resignação


Terapia da Resignação
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não há dor
Que se compadeça da alma
Nem cura médica
Para o vazio avolumado
Que frustra o horizonte
De quem se enviuvou da sorte!
Não me inspiro
Nos que cedem às vassalagens
Ou às pressões cegas,
O meu "eu" não está à venda
Não quero agradar a ninguém,
Apenas a mim mesmo,
Porque se tudo me é hostil,
Ao menos, ainda me sobra algo
Que sonho conquistar
Por entre as dunas deste deserto:
A paz do meu espírito
A pirâmide da resignação!
Oh! A ti te confidencio
Tamareira solitária:
Que seja eu mestre do meu ser
E chegarei às nuvens,
Mesmo que a poeira
Adense em redor
Da minha existência material!





Poema nº 283 - As Cores da Existência


As Cores da Existência
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei quem considerou
Que o branco e o preto
Eram as cores mais vulgares
Desprovidas de chama apelativa,
Mas repudie-se tal dislate!
O branco e o preto são omnipresentes
Mesmo mantendo a sua simplicidade:
Não se gostam de maquilhar
Para agradar à sociedade hipócrita,
Não estão ali para fintar a realidade,
Mas para a exibir nua e crua,
E mesmo assim são as cores da moda
Que nos acompanham na existência!
Quantos não nasceram a ver uma luz branca?
Quantos não morrerão mirando a escuridão?
Não há cá lugar para meios-termos
Nem momentos para o acaso,
Ou é ou não é,
Sem fingimentos,
Sem ardis ornamentais,
Aceitando a frontalidade do porvir!





Imagem retirada do Google

Poema nº 282 - Estrelas Mudas


Estrelas Mudas
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Voltaremos ao nada
E a minha crença na descrença
É corroborada pelo silêncio da lua
Ou pela aragem fria das serras.
Viver é um privilégio
Até quando se tornar num fardo,
Altura em que a ilusão é desfeita.
Planos para amanhã?
Não se deixem seduzir pela ambição
A não ser que pretendam um jazigo
Um mausoléu perpétuo
Para abrigar o pó da tempestade.
Não vivam obcecados com o fim
Que é certo e irreversível:
Até lá assistam ao nascer do Sol
Ele será assim por milhões de anos,
Só ele tem futuro,
E nem assim será eterno
Porque um dia o Universo
Lhe fará o próprio caixão.
E depois o que contarão dele?
E de todos nós?
Que as estrelas eram afinal mudas?!






Poema nº 281 - Da Saga dos Líderes Mercenários


Da Saga dos Líderes Mercenários
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não percebo
Os que sobem na vida
Escudados pela vassalagem
Aos senhores do poder
E absorvidos pela mesquinhez do mal-dizer
Nesse incriminar dos ainda seus companheiros
Reduzidos já a criaturas inferiores
Diante dos seus narizes pontiagudos.
Mas que líderes são estes?
Autênticos Neros que só se contemplam
Diante dos espelhos da ilusão
Bebendo do cálice narcisista
Que os embriagará de vaidade
Enquanto soa uma música aborrecida
De um antigo piano
Talvez perdido num quarto
Repleto de teias sem glória
Que cobrem as paredes obsoletas
Dos labirintos fúteis que são as suas vidas.
Até os gatos arrepiam caminho
Quando surgem estes alpinistas sociais,
Fantasmas do mérito,
Almirantes do tráfico da incompetência
Vendedores ambulantes da prepotência,
Mas na verdade,
Apenas são temidos pelo veneno
Pela sua estratégia cinica e calculista,
No entanto, não nos preocupemos
Com eles.
Na verdade, são pó
À primeira batalha, desertarão
E voltarão ao estado condizente.
Preocupemo-nos sim com aqueles
Que são carne para canhão
E cujas vidas
Podem ser destroçadas
Pelos generais que os abandonam
No meio de uma batalha sem fim
Como é a da própria vida.
Porque se os falsos líderes
Resguardados na retaguarda
Fogem pela sombra que lhes é aliada.
Menos sorte têm os seus guerreiros,
Fácil alvo da ira na frente de batalha,
Decapitados pelos erros dos anteriores,
E que atraiçoados foram,
Mesmo oferecendo todo o seu melhor,
Por quem não soube comandá-los
Nem tampouco motivá-los.





Imagem retirada algures do Google 

Poema nº 280 - O Advento das Cores


O Advento das Cores
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Desvanecem-se as sombras 
Desse passado rude e opressor
Que caminhava sob as alfombras
Tingidas apenas por uma só cor!

Foi naquele dia que tudo mudou
A negridão acabaria suprimida
E um novo arco-íris se perfilou
Para apadrinhar a fé renascida!

E nem os corvos ousaram evitar
A vontade de um povo esfomeado
Que os cravos de Abril quis abraçar!

Acabaram-se as mentiras silenciosas
Todo o sangue derramado em vão,
E voltámos a sonhar no berço das rosas!




Fotografia da autoria de Francisco Fernandes

Poema nº 279 - O Império Laboral Absolutista


O Império Laboral Absolutista
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei em que dia
O poder e a arrogância,
Dois generais ambiciosos,
Uniram as mãos
E marcharam juntos
Para oprimir os ingénuos
Que se achavam alojados
Nos arrabaldes da humildade.
Não o fizeram por acaso,
Tornaram-se narcisistas
Reprimiram a auto-estima
Dos que laboravam em paz,
E cobraram impostos,
Seja em forma de dinheiro,
Ou através de chicotes verbalizados!
Nesse Império Laboral,
Muitos obtiveram o reconhecimento
Após imensos sacrifícios
E com uma vassalagem inexcedível
À corte do poder
Renegando mesmo a verdade
Quando esta era incómoda.

Muitos subiram na hierarquia
Sabendo que já foram da plebe,
Esquecendo-se que saldaram tributos
E dos altos,
Para lá chegarem!
Mas quando o poder
Que tanto censuravam
Os convida para um banquete
Recheado de bolos e oportunidades
Lá vão eles,
Todos entusiasmados
E prontos a rebaixar a plebe,
As suas origens!
Querem ser diferentes,
A elite do poder força-os a tal:
Têm de vestir o manto caprichoso
Que a Arrogância utiliza diariamente!
É tudo um pacto de absolutismo laboral,
Alheio a qualquer foco de dor
Dos mais vulneráveis
E dirigido apenas para o capital,
O dinheiro,
Esse vil metal que é pai empenhado
Tanto do Poder como da Arrogância!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.cartacapital.com.br/revista/960/o-poder-causa-dano-cerebral

Poema nº 278 - A Ninfomaníaca


A Ninfomaníaca
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Acometida por anseios selvagens,
Deixa-se saquear pelo inconsciente,
Cedendo às escaldantes miragens
Dum mundo que lhe é insuficiente!

É um vulcão em erupção permanente,
Não vê corações, apenas instrumentos
Que lhe saciem a infinita sede jazente
Por entre o abismo dos pensamentos!

Não há chuva que refreie a sua doença 
Nem amigas que lhe corrijam o caminho,
Sobram apenas montes de indiferença!

E se o seu corpo é um terreno árido
Para os beduínos dos almejos carnais,
O seu coração é um deserto impróvido!






Nota-Extra: Quando utilizamos o termo "sede", referimo-nos, neste contexto em concreto, à "sede de fogo" visto que se trata de um vulcão sentimental em erupção.

Poema nº 277 - Quod Sumus, Hoc Eritis


"Quod Sumus, Hoc Eritis"
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei o que devo ao mundo,
Mas sei que me juntarei
A todos os outros
Que me precederam
Nesta jornada pelo incógnito.
Um dia serei passado
Deixarei de ser corpo
E só aí saberei a verdade
Do que nos estará reservado
Ou não!
Não temo o amanhã sem vida
Não renego sequer a Deus
Mesmo que não exista um plano,
Só sei que devo ser o que sou
Nestes fôlegos frenéticos da existência!
Apenas não quero estar morto
Antes da minha hora,
Como muitos estão:
Movidos pelo ódio
Distraídos pela indiferença
Absorvidos pela hipocrisia!
Na confusão da realidade
Que se ilude a si mesma
Quero ser uma partitura harmoniosa
Cujo som valeu a pena escutar
Nem que por instantes,
Antes de se extinguir
Por entre as constelações,
Fiéis depositárias da nossa memória,
Búzios guardiões da nossa melodia,
E verdadeiras testemunhas
Do que somos
E daquilo que seremos!





Gravura presente no Filme "Kingdom of Heaven".