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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Poema nº 97 - Os Recantos da Vidigueira


Os Recantos da Vidigueira
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


A Vidigueira não é só mais uma vila portuguesa
Localizada no pacato e monótono Alentejo,
Onde o Sol se abate ardentemente sobre os montes
Infernizando o labor dos modestos lavradores
Que sacrificam as suas enxadas insaciáveis
Na exploração do solo ingrato e doloroso.
A Vidigueira é uma terra diferente, tem ares que lhe são próprios,
Tem ruelas e calçadas que se encerram numa recôndita mística,
Guarda musas que se ocultam nas noites de nevoeiro,
Alberga poetas que, refugiando-se no enclave da discrição,
Lavram versos nos "altares sentimentais" das suas moradias!
A Vidigueira é uma fadista de voz refinada
Que canta à mesa a sua deleitosa gastronomia
Rematada pelos apetecíveis vinho, pão e laranja,
Produtos que conquistam qualquer paladar mundano.
A vila é também exímia acolhedora dos seus visitantes:
A sua praça central, comemorativa da República,
Distribui por todos uma harmonia espiritual
Estimulada pelas observantes laranjeiras
E pelo doce voar das andorinhas primaveris!
A Vidigueira é uma reputada historiadora
Que memorizou como ninguém os tempos da expansão
Onde Portugal evidenciou sua veia navegadora!
O seu castelo em ruínas, impregnado de nostalgia,
Recorda-nos a laureada saga dos Gamas,
Condes da vila ou até vice-reis da Índia
Que terão emprestado grandeza ao seu paço,
Além de elevarem a devoção religiosa
Com a edificação de ermidas nos paisagísticos outeiros
E a promoção do culto monástico em torno de Nossa Senhora das Relíquias:
A padroeira que, segundo uma lenda medieval, cedeu pão a um casal pobre
"Matando" milagrosamente a fome da sua desnutrida filha!!!
Vasco da Gama foi o primeiro dos condes da vila,
Logo ficou deslumbrado com as virtudes desta terra alentejana,
Depois de ter achado há cerca de vinte anos o caminho marítimo para a Índia
Epopeia que o viu aniquilar diversos Adamastores!
A Vidigueira é embaixadora suprema da tolerância,
Como chora ela em estátuas as vítimas da guerra israelo-árabe
Zelando por uma paz sólida que se requer universal.
A vila foi berço do comerciante judeu Miguel de Espinosa,
Pai de Bento de Espinosa, genial filósofo que viria a dar cartas na Holanda!
A Vidigueira mede meticulosamente o tempo da sua história
Através da sua imponente Torre do Relógio
Cujos ponteiros assinalam os ventos da evolução moderna.
A Vidigueira é ainda reencarnação de Tétis, a deusa grega da água:
Sacia a sede popular com as suas apelativas fontes
E ainda conserva a sua monumental cascata.
Como poucos, a vila promove no seu meio as tradições lusas:
Nas tabernas, divulga o aprimorado cante alentejano
Património Imaterial da Nação e da Humanidade!
Ela também escreve, versifica e dança
Reescreve novos capítulos da sua vida
E partilha segredos naqueles dias em que o céu nocturno
Permite a observação nítida das incontáveis estrelas do Firmamento.
Por fim, minha amada Vidigueira, aqui me encontro eu
Mesmo junto à estátua do vosso ínclito navegador
Segurando na minha mão uma taça de vinho
Para brindar à saúde dele e à do vosso povo
Que sempre partilharam a mesma ambição de glória
Honrando uma identidade multifacetada de êxitos
E desvelando todo um passado sublime e meritório,
O qual faz corar de inveja o futuro!














As duas primeiras fotografias são da minha autoria, a terceira (que apresenta as ruínas do castelo da Vidigueira) é de Lopes Guerreiro.

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