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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

sábado, 30 de maio de 2015

Poema nº 81 - Fialho, o Prosador da Frontalidade


Fialho, o Prosador da Frontalidade
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Pavoneias o teu bigode de astúcia,
Aqueles teus olhos de exímio falcão
Que as injustiças sociais denuncia,
O teu caminhar pela universal educação!

Folheias os teus escritos de revolta;
A tua coragem submete as nuvens
Derruba os pilares do vil sistema
E a tóxica corrupção envolta.

Retratas as maravilhas do Alentejo:
Pintas o teu próprio país das uvas
Nas proximidades dum lindo pomarejo.

Fialho, imperador entre os jornalistas,
Pelos teus valores, eu choro de emoção,
Não houve quem te superasse na isenção!





Poema nº 80 - Pela paz na Nigéria



Pela paz na Nigéria...
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Desmaiava o dia hipócrita
Desvaneciam as luzes da civilização
Para inaugurar uma noite negra
Longa e impregnada de crispação.

Abatiam-se mulheres e crianças,
Incendiavam-se pobres aldeias!
Tinham exterminado fúteis esperanças
Através do terror que tecia as suas teias.

Idosos debilitados que não escaparam
Nem lograram pôr mão aos seus netos
Torturados pelo ódio que os homens criaram
Despedindo do quotidiano os sinceros afectos.

Outros recorrem a armas brancas e colmeias
Para enfrentar o inimigo da humanidade
Esperando ainda pela ajuda internacional 
Que nunca chegaria neste clima infernal.

Meninas que caem no chão esqueléticas
Sem comida e água para sobreviver
Nem um digno abrigo para se esconder
Daqueles que as raptam e violam indefesas!

Agora todos dizem ser seguidores de Charlie!!!
Contudo fecham os miseráveis olhos às atrocidades
E não zelam sequer pela justiça e demais liberdades
Na Nigéria escravizada que quase já não tem cidades!




Poema escrito após atrocidades cometidas na Nigéria pelo grupo radical Boko Haram e que, na nossa opinião, não foram devidamente tidas em conta pelo mundo ocidental que não reagiu aos acontecimentos com o mesmo vigor que se verificou (e que se impunha) aquando do ataque à revista satírica do Charlie Hebdo. No nosso entender, o terrorismo deve ser condenado com a mesma veemência em qualquer parte do globo. A Nigéria merece toda a paz e amor do mundo, em vez de guerra e fome.

Poema nº 79 - Queria mais do que nunca...


Queria mais do que nunca...
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Queria ver o pôr-do-sol contigo
Desenhar o teu nome na praia
Arquitectar em ti o meu abrigo 
Quando o sol despisse sua saia.

Queria tocar-te com ternura,
Beber as lágrimas de alegria
Que derramavas enquanto cura
Para a minha profunda letargia.

Queria surfar naquelas dunas,
Sim, naquelas ondas de areia, 
Preso ao teu corpo de sereia!

Queria saciar a tua sede de calor
O teu ensejo de auto-realização,
Queria ser o teu mar libertador.




terça-feira, 26 de maio de 2015

Poema nº 78 - A Cidade Afortunada


A Cidade Afortunada
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O Céu esculpiu uma terra à beira-mar,
Onde anjos edificavam sublimes barris,
Querubins pescavam desde o madrugar
E à noite se recolhiam em barracas hostis!

Mas outros possuíam venustos palheiros,
Coloridos e abençoados pelo mar caridoso
Que se rendeu à arquitectura angelical 
Instituída na praia do aglomerado gracioso!

Não há postais que descrevam a paisagem
Legada pelo labor aprimorado do seu Criador
Que nesta urbe depositou singulares tradições.

O Sol é visita constante ao longo do Verão,
Vem logo espraiar-se no seu faustoso areal,
Mergulhando o luzidio reflexo na maré cordial!






Nota-Extra - Este poema é dedicado à Cidade de Esmoriz.

Poema nº 77 - O Drama da Violência Doméstica


O Drama da Violência Doméstica
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Casas renegadas pela luz da paz
Reféns de quatro paredes sombrias
Que escamoteiam gritos e feridas
Aparentando um silêncio mordaz.

Silvas que se expandem no seu redor
Camuflando os instintos negros do vilão
Que afoga a sua mulher num mar de dor
Sem nunca revelar gestos de compaixão.

A vizinhança cúmplice no dilacerante medo
Aquartela-se na mudez das suas moradias 
Rejeitando a exposição do penoso degredo!

Sem amparo, à vítima só lhe resta morrer
Para encontrar a harmonia derradeira
Por debaixo da terra fria que a viu sofrer.







Nota-extra - É imperioso um combate firme e persistente contra a Violência Doméstica.

Poema nº 76 - Aquele Dia


Aquele Dia
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Recordas-te daquele dia abençoado
Em que os altos montes se abraçavam
Pelas águas cristalinas do rio imaculado
Que milagres de amor reportavam?!

Melros divagavam pelos campos,
Pardais cantavam a deleitável alegria
No calor íntimo dos suaves recantos
Que aos cupidos inspiravam pontaria.

Nos prados imbuídos de melodias
Mantos de girassóis refloresciam
Envoltos de borboletas que sorriam!

Mas os meus olhos galardoados
Só remataram o quadro por completo
Quando nesse dia virgem aferi teu rosto.





domingo, 24 de maio de 2015

Poema nº 75 - Direito de Resposta do Avô do Laurentino Piçarra


Direito de Resposta do Avô do Laurentino Piçarra
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Li o seu anúncio no jornal,
Só conheço o idioma português,
Sou reformado e em fase de viuvez
Não possuo o solicitado perfil paranormal.

Vossa "cagamerdência", procura o topo da perfeição,
A troco dum mísero salário!
Exige um culto e explorado operário
Em cada desempregado submergido na frustração.

Nunca fui bom a Matemática,
Mas a experiência requer décadas de dedicação
E assim proclamo esta verdade enfática.

Detesto a discriminação de sexos e idade,
Valorizo a humildade e honestidade
E abomino o patronato sem visão!





Poema nº 74 - Anúncio de emprego do Marcelino


Anúncio de emprego do Marcelino
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Tenciono contratar mestre em comunicações
Que conte até 30 anos de idade
Para operar com intensidade
Num cargo só para campeões. 

Deve dominar inglês, espanhol, italiano,
Além do russo, árabe e alemão!
Possuirá uma experiência de ancião,
E defenderá a empresa até ao tutano.

Apresentará cabelo curto
Para não atrapalhar a visão
Nem a indispensável audição!

O Marcelino paga o ordenado mínimo,
E não aceitará candidaturas de aldrabões
Que vão para a sua lista negra sem ver quaisquer tostões!




Imagem meramente exemplificativa do Mr. Burns (Programa Simpsons)



Poema nº 73 - No banco dos Sonhos


No banco dos Sonhos
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


As águas corriam muito suavemente,
A brisa convidativa atraía várias borboletas,
Num campo perto, as crianças colhiam violetas,
E eu sentado no banco com ar sorridente.

Uma tainha saltitava com energia,
As gaivotas entoavam a sua melodia,
As rãs, nos cantos, deslizavam agilmente
E eu sentado com postura benevolente.

Na outra margem, despia-se agora uma musa,
Que me apresentou a sua excelsitude universal
Desfilando agora no rio o seu estatuto imperial
E eu sentado no banco com desejo ardente!

Aqueles atributos físicos aperfeiçoados
Deixavam-me num estado impaciente,
Queria abraçá-la com carinhos concertados!
E eu sentado no banco com idealização picante!

Eu iria conquistá-la! Que belo sonho estava a ter,
Não fosse a picada dolorosa duma vespa divagante 
A qual me acordou e privou de todo o deleite e prazer!
E eu agora sentado no banco com uma dor incessante!




Imagem retirada de: http://www.1zoom.me/pt/wallpaper/369335/z2715/, (Mosel)

Poema nº 72 - O Amanhecer


O Amanhecer
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Quando o sol nasce, as deusas começam a acordar,
O seu brilho propaga-se por toda a humanidade!
A sua beleza, tenho o privilégio de contemplar
E de sentir a sua intensa docilidade!

Emitem inúmeros raios de tentação,
Muitos tropeçam na matreira ilusão,
Porque o alvo não está à mercê dos amadores,
Mas sim dos experientes conquistadores!

À noite, o sol despe-se e vai de núpcias!
É a altura propícia para iluminar o amor,
Exprimir os mais sinceros sentimentos com ardor!

Sem esta realidade, o homem não resistia viver!
Era como um medonho jardim sem flores!
Mas felizmente hoje até dá prazer renascer!




Foto: Magda Moreira, Movimento Cívico Pró-Barrinha

Poema nº 71 - Sabes que te amo


Sabes que te amo
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Perdido, longe da tua visão,
O meu amor dispersou.
A saudade me interrogou
Se ainda integras o meu coração!

Folgo em saudar o teu encanto,
Admirar a tua espontaneidade
Desprovida de malignidade!
Sem te ver, acentuarei o meu pranto!

És a alteza do reino da paixão!
Decoras os meus vividos sonhos
E só a ti te presto devoção!

És mais linda que uma flor!
Não transmites sinais de dor,
Mas sim uma plenitude de irresistíveis cores!



sábado, 23 de maio de 2015

Poema nº 70 - O Doce Calor Maternal


O Doce Calor Maternal 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Na minha pré-história, lavraste versos de amor,
E construíste em ti a minha primeira casa,
Sim, naquele teu ventre universalmente inventor 
A raiz de todo o afecto que ainda hoje me abraça.

Foste o bendito Sol da minha peculiar existência,
Padecias da minha dor, choravas da minha tristeza,
Educavas-me para a justiça e benevolência,
E todo o teu interior transpirava de beleza. 

Por muitas rosas e elogios que te engrandeçam
Nunca chegarão para retribuir o inamovível carinho,
O recheio que sempre me cedeste desde pequenino.

Não trocaria o teu conforto por qualquer maravilha,
Porque és tu a maior razão do meu viver e sorrir
És a referência insigne do meu acordar para o porvir!





Poema nº 69 - O Padre Audacioso


O Padre Audacioso
(Soneto autoria de Laurentino Piçarra)


Pires era um padre reformador,
Com um vocabulário irreverente
Criticava a sociedade deprimente
Desprovida de sentido de pudor. 

"Metam essa fé por aquele sítio acima"!
Gritava o padre - revoltado com a hipocrisia
Dalguns "anjinhos" que assistiam à Eucaristia
Só para a coscuvilhice e discurso de vítima!

A palavra divina tinha de voar pela cidade
Sim, tinha de sair pelas portas da capelinha
Apesar dalguns ouvidos alojarem cera de ociosidade!

Mas a sua homilia metaforizava cotonetes infalíveis!
Pires sugava a audição da comunidade inteira
Para assim transmitir a mensagem verdadeira.





Poema nº 68 - A Palestra "Doutoresca" do Dr. Franklim


A Palestra "Doutoresca" do Dr. Franklim
(Versos da autoria de Laurentino Piçarra)


Bom dia, excelentíssimos senhores
Vou tomar a honrada palavra
E com a vossa graça e demais favores
Lá vou eu ao discurso que me destina.

Excelentíssimo doutor da assembleia
Excelentíssimo doutor do azeite
Excelentíssimo doutor do enfeite
Excelentíssimo doutor da diarreia
Excelentíssimo doutor da diapneia
Excelentíssimo mordomo dos devaneios,
Excelentíssimo jornalista convidado
Excelentíssimo varredor público
Excelentíssimo povo abençoado

Depois desta primeira saudação,
Espero que se sintam todos cumprimentados,
Mesmo aqueles que, por lapso, não saudei,
A elas, um beijo, às mais giras, talvez algo mais,
Aos homens, apenas sua mão apertarei. 

Exposto isto seguirei meu sábio discurso:
Excelentíssima cadeira do doutor da assembleia
Excelentíssima cadeira do doutor do azeite
Excelentíssima cadeira do doutor do enfeite
Excelentíssima cadeira do doutor da diarreia
Excelentíssima cadeira do doutor da diapneia
Excelentíssima cadeira do mordomo dos devaneios,
Excelentíssima cadeira do jornalista convidado
Excelentíssima cadeira do varredor público
Excelentíssimas cadeiras do povo abençoado
Sintam-se estes objectos devidamente saudados,
Porque tudo isto aqui é boa gente com traseiros equilibrados.

Falta-me dirigir umas palavras aos nossos animais
Que nos têm confortado com um eterno carinho:
Excelentíssimo Óscar, papagaio que só diz "excelentíssimo"
Excelentíssimo rottweiler e eruditíssimo Ezequias
Excelentíssimas formigas assaz trabalhadoras
Termino agora as minhas intervenções inovadoras
Sobre a temática multidisciplinar "Coisas da Vida"




Imagem retirada de: http://oeiraslocal.blogspot.pt/

Poema nº 67 - Um Abraço Sentido


Um Abraço Sentido
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Angustia-me a solidão do pensar
A prisão das frívolas memórias
O meu frustrado ser sem histórias
Que se vê num futuro a sombrear.

Aquele vazio que me desenha 
Mais parece uma ave de rapina
Que corrói qualquer alma nortenha
Refém interior da lúgubre sina!

Dói-me a virtualidade da ilusão,
A hipocrisia daqueles amigos
Que na verdade nunca o são!

Mas agora careço dum abraço:
Verdadeiro, Puro e Libertador
Que vença meu coração de aço!







No dia 22 de Maio, comemorou-se o Dia Mundial do Abraço. Um grande abraço para todos vós! Apesar duma arma custar mais do que um abraço, a verdade é que um abraço vale mais do que uma arma! Infelizmente, armas há muitas, abraços puros e sentidos, cada vez menos, talvez até em perigo de extinção...

Poema nº 66 - A Catedral (Quase) Perfeita



A Catedral (Quase) Perfeita
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Peregrinei até à Catedral do virtuosismo,
Prostrei-me perante Cristo crucificado,
Enquanto o canto do coro cadenciado
Libertava os fiéis do profundo abismo.

As pilastras sustinham a minha crença
Por vezes, rangiam fruto da incerteza
Absorvida pelos vitrais imbuídos de realeza 
Que me liam salmos da divina presença.

Dos bancos de madeira ecoavam murmúrios
De homens que se redescobriram na luz
Após terem superado os ruins augúrios.

Mas havia algo que adormecia o encanto
Aquela opulência dourada exacerbada 
Deixava o venerado Messias em pranto!




Fotografia da autoria de Tony Llewelly 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Poema nº 65 - Vi-te num Oásis


Vi-te num Oásis
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Desbaratando o pó das minhas vestes
Percorria eu um deserto árido e frustrante
Esperando escapar a este ciclo desgastante
Já que a minha morte por sede estava prestes!

O céu escutou o meu desabafo profano
E contornando as miragens, avistei uma deusa!
Ela bailava junto a um oásis maometano!
Até as palmeiras se rendiam a este astro!

Ela irradiava uma luz por demais cintilante,
Bebendo eu da sua límpida e milagrosa água
Por detrás duma tamareira estimulante!

O seu brilhantismo afastava qualquer escorpião,
E apresentava-me a idealíssima direcção
A seguir para atingir a minha terrena consolação.




Poema nº 64 - Rolando, o Paladino de Carlos Magno


Rolando, o Paladino de Carlos Magno
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Em Roncesvalles, caiu o conde da bravura:
Rolando, mártir do exército catequizador
Emboscado pelos vascões da planura
 Naquela frente de instinto devastador!

A sua espada durindana rasgou muralhas
Domou os mares mais irreverentes
E ao ser bramida nas sagradas batalhas
Fez desertar nos pagãos, vários contingentes!

O céu curvava-se diante do "cavalo vigilante"
Que o incansável paladino montava confiante 
No conflito latente contra as mundanas trevas.

Ó Carlos Magno, aclamado defensor dos cristãos!
Chora a partida inesperada do teu íntegro servo
Agora vinculado à orquestra celestial.




Iluminura de Jean Fouquet (séc. XV)
Imagem retirada do Wikipédia

Poema nº 63 - Tributo a Egil, o escaldo


Tributo a Egil, o escaldo
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Que espírito faz terrificar a escuridão
Correndo com o machado ensanguentado
E instrumentalizando runas para maldição
Nas montanhas do aguerrido fado?

É Egil, o guerreiro implacável
Imbuído dum feroz ego primitivo
Difusor dum olhar negro e depreciativo,
Radicado na sua robustez inviolável.

Oh! Que temperamento inacessível!
Ele lutava com expressa violência,
Aos inimigos não cedia clemência,
Mas versificava com perfeição impossível!

Num confronto bélico, seria por ti esmagado
No duelo da escrita, decerto humilhado,
És o precursor da rima contagiante
Que deixa o supremo Odin radiante!

Até Eric da Noruega se rendeu
Ao combatente da intelectualidade
Que homens glorificou e lágrimas verteu
Na sua caminhada de vital versatilidade.

A Lua canta a tua saga aventurosa 
Marte ama-te como um filho,
Aliaste a matança ruim à escrita luminosa
E cultivaste o ambíguo no teu trilho.

Repousa agora na tranquilidade dos astros
Usufrui da harmonia poética universal
E escuta as ondas a declamar os teus versos
Aos castelos de areia, embevecidos pelo recital!




Desenho com a figura de Egil Skallagrimsson (910-990), guerreiro-poeta viking.
Direitos - Wikipédia

Poema nº 62 - Necrópole da Juventude


Necrópole da Juventude 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Ó querido Abril, mês da liberdade
Não viste tu tantos cangalheiros
Que apunhalaram a tua seriedade 
Só por interesses de terceiros?

Abril, merecias tu semelhante necrotério
Repleto de jovens órfãos e renegados 
Sem direito a lápides neste cemitério
Situado algures nos montes abandonados?

Diz o sábio povo que são bem pagos:
Esses ruins enterradores do futuro
Que só a eles pertence por seguro!

Saudades de Salgueiro Maia e Zeca Afonso,
 Filhos predilectos da terra dos cravos
Que jamais se venderam, amado Abril!






Poema nº 61 - Peregrinação Sinuosa


Peregrinação Sinuosa
(Vilancete da autoria de Laurentino Piçarra)


(Mote)

Ai se eu pudesse voltar atrás
Jamais entraria na universidade,
Canudo, inimigo da empregabilidade!

(8 Voltas)

Preferia ser o maior ignorante 
Ou até nem jogar com o baralho,
Desde que tivesse um trabalho
Em vez desta solidão frustrante
Que traz consigo a dor triunfante
Nesta renúncia vã à intelectualidade
Canudo, inimigo da empregabilidade!

Ó Camões, preferia perder o olho
Numa contenda árdua e desigual 
Do que vender o meu ser individual
A um partido ainda mais zarolho!
O meu passado eu já não escolho
O futuro está repleto de adversidade,
Canudo, inimigo da empregabilidade!

Ó Fialho, que falta fazes à nação,
Para malhares naqueles vendidos
Que deixaram os jovens mendigos
Sem nunca terem pedido perdão!
Querias arranhá-los como um gatão
Nos teus artigos de verticalidade!
Canudo, inimigo da empregabilidade!

Ó Pessoa, o teu génio multifacetado
Guiou a juventude no patriotismo 
Em que o passado de brilhantismo
Contrasta com o presente alheado
Que enxuta qualquer diplomado 
Para o além-fronteiras da saudade!
Canudo, inimigo da empregabilidade!

Ó Bordalo, desenha-os no teu papel
Sim, aqueles políticos sem gabarito
Relega-os para a maldição do infinito
Nessa tua caricatura feita a pincel!
Aos jovens o amanhã já não é fiel,
Resta apenas gritar em conformidade 
Canudo, inimigo da empregabilidade!

Ó Vicente, coloca-os na tua barca
Sim aquela que leva para o suplício
Os que fazem do entulho desperdício
Esses que nos legaram vida parca,
E que seguem carreira de oligarca!
O desemprego é pai da sociedade
Canudo, inimigo da empregabilidade!

Ó Eça, como é exímio o teu monóculo!
Cortarás o bigode quando o país voltar
À épica glória do passado madrugar 
Em que a juventude possuía o rótulo 
De conduzir a nação em cada capítulo!
Agora tem de emigrar por penalidade,
Canudo, inimigo da empregabilidade!

O acordar já não tem o mesmo sorrir,
Todo o sonho jovem é virgem e fictício
A realidade tornou-se sofrimento vitalício
E a depressão se prontificou a emergir!
A escuridão circunda o juvenil existir 
Nesta saga repleta de artificialidade!
Canudo, inimigo da empregabilidade!







Notas-extra: 1 - A palavra "gatão" é adoptada no sentido dum gato de consideráveis dimensões. 
2- Durante os meus tempos de universidade, fui bastante feliz e aprendi bastante com os meus professores (sinto-me um felizardo por isso), aos quais expresso, desde já, a minha profunda gratidão. Guardo inúmeras recordações que foram indiscutivelmente positivas, contudo chegado ao fim do curso, deparei-me com a triste realidade do mercado de trabalho, em que o meu currículo repleto de formação superior só me prejudicava nas ofertas de emprego (sim, tive que ouvir a história do "ter habilitações a mais" ou de não possuir o "perfil pretendido" ou até de "não podemos pagar a um licenciado"). Este desabafo não é só meu, é igualmente o de muitos jovens que agradecem muito às suas universidades ou às escolas que frequentaram e lhes cederam formação essencial para a vida, mas que se encontram agora no desemprego ou na precariedade (a taxa de desemprego nos jovens é de 34%, e já nem estamos a falar dos empregos instáveis ou pagos à comissão/recibos verdes). Todos eles mereciam mais, independentemente de serem qualificados ou não. Este meu poema não é dirigido contra alguém em concreto, mas pretende ser antes um grito de revolta pela defesa da juventude. Faço-o pelos jovens de hoje, e também por aqueles do amanhã.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Poema nº 60 - A Magia Singular do Poeta


A Magia Singular do Poeta
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Curvaste só sobre uma mesa rústica
Atolado entre pensamentos oscilantes
Que norteiam a tua mundana acústica
Numa torre de manuscritos dançantes!

Nesse papel, voas alto como um falcão,
Almejas os píncaros do amor e da dor
Onde sobes às montanhas sem pudor
E derramas lágrimas no rio da decepção!

Conferes imortalidade ao que é banal,
Agregas a arte à tua vida assombrada
Que apenas só queria ser mais amada!

A impiedosa trovoada incide na tua alma
Tal é o desassossego que te consome:
Que vota o teu coração à profunda fome!






Poema nº 59 - O Frade Gordurosamente Demagogo


O Frade Gordurosamente Demagogo
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Sisberto, monge pançudo e celibatário
Pregava a moderação como virtude
Aclamava o altruísmo como prioritário,
E evitava as pessoas com azedume!

Oh! Ele havia sempre sido alegre,
Bebia até a sua língua se cansar,
Comia na exaltação de se consolar,
Nada o demovia, nem a diarreia nem febre.

Os confrades tinham de esconder as doçarias
Que criavam e transaccionavam para o exterior,
De forma a ajudar os pobres com a esmola posterior.

Mas se ele descobria os bolos afamados,
Todos ficariam consequentemente amuados,
Porque, no dia seguinte, somente migalhas restavam!





Poema nº 58 - O Teu Rio


O Teu Rio
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Queria descobrir uma pérola
Na tua obscura profundidade!
Alcançar o ambicionado êxtase
E desenvolver assim a felicidade.

Não, não me quero perder
Nos teus alargados domínios
Que geram o maior dos fascínios
Neste lugar de infindável prazer!

Eu quero aí jazer eternamente,
Este ribeiro é só meu, não o partilho!
Desejo alargá-lo cuidadosamente
Gerando um novo curso de água, seu filho!

A tua vegetação em redor
Adensa o mistério e glorifica o navegante,
Completamente isento do pavor,
Que exalta o seu achado, radiante!

Nas tuas águas calmas, ninguém se afoga,
Não há lugar para a aflição
Mas sim para a volúpia adoração
Da tua natureza límpida que o amor implora!




Poema nº 57 - A vidência de Zulmira


A vidência de Zulmira
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Num casarão degradado
Vivia a verrugosa Zulmira 
Anciã de muito mau grado
Que levava uma vida fria.

Ela adivinhava o nosso fim
Sabia os defeitos da populaça 
Previa qualquer vulgar desgraça,
E magia negra promovia no jardim!

Todos consultavam as previsões
Mas temiam a hábil feiticeira 
Que destroçava os corações. 

Um dia, ela acabou por malograr,
Não decifrou a incessante diarreia
Que para o outro mundo a fez aviar.






Poema nº 56 - O Novo Partido do Cristóvão Sonolento


O Novo Partido do Cristóvão Sonolento 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


O Cristóvão vai fundar um partido, 
Anuncia ele que acabará com a pobreza,
Repudiará cada político corrompido
E combaterá o desemprego com firmeza!

Concederá fortes estímulos à natalidade, 
Endurecerá as leis contra a criminalidade,
Assegurará ao povo um futuro risonho 
Quebrando o presente penoso e tristonho!

Vai devolver uma maior igualdade social
Promoverá o melhor do turismo nacional
E investirá na saúde e educação da pátria!

Acorda Cristóvão, seu preguiçoso molengão! 
Já viste as horas! E ainda estás de pijamão! 
Será que terás de levar com um balde de água fria?


Poema nº 55 - O Zé Nabiça: "O Candidato demasiado sério que não é "sério" candidato à vitória"


O Zé Nabiça: "O candidato demasiado sério que não é "sério" candidato à vitória"
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Alarmado com o estado da freguesia,
Lá vai o Zé Nabiça na sua mota modesta
Apresentar um rol de ideias com cortesia
Para contornar tal realidade funesta.

Na aldeia, ele deseja novas eleições,
Promete ser íntegro e capaz,
Assentar a verdade nos torrões,
E auxiliar o povo que tanto lhe apraz!

Ó Zé deixa-te disso homem!
Vai antes beber uns copos à taberna
Que é mais saudável do que essa profissão enferma!

Não sejas nabiça e um sonhador profundo,
Porque não tens jeito para a política
Pois não consegues imprimir a demagogia cínica!





Poema nº 54 - O Dilema Grotesco duma Mulher


O Dilema Grotesco duma Mulher
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Quem enverga o manto do ostracismo?
Uma Mulher quarentona, idosa para trabalhar
Mas demasiada jovem para se reformar,
Apenas reluz a perseverança como eufemismo 

Dizem que não alça uma bandeira partidária,
Dizem que não vende os ideais como uma alimária;
O seu cachecol omite um silêncio depressivo, 
Dor eternizada nas estatísticas mórbidas.

Ó mulher que já pensaste em abdicar da vida,
Sentes-te ignorada, vulnerável, inútil e perdida
Numa sociedade de discriminação ferida.

Vai pedir esmolas ínfimas para a rua,
No mato, abriga-te numa cabana modesta 
E pega na enxada, a tua herança única e indigesta.




Poema nº 53 - O "Velho do Restelo" interpretado pela Dona Conceição



O "Velho do Restelo" interpretado pela Dona Conceição
(Soneto da minha autoria)


Rabugenta como o Velho do Restelo,
Assim sou eu, a pessimista da nação!
Ó Camões, nós estamos em privação:
Vivemos num total descrédito e desmazelo!

Estamos agora bastante endividados
E já não vamos à Índia das especiarias,
Mas rumamos à Alemanha das avarias!
Somos afinal uns pobres coitados!

A minha mercearia só dá prejuízo,
Os meus produtos, mais tributados estão,
Quando é que termina a desilusão?

Tenho dois jovens filhos desempregados,
Um deles, sem cunhas, até procura emigrar!
Até para eles neste país já não há lugar!



Poema nº 52 - O Carreiro da Tranquilidade


O Carreiro da Tranquilidade
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Auscultava o palrar dos pássaros,
Sentia a agitação da mosquitada, 
Nutria uma paixão desenfreada
Por esta sinfonia sem reparos.

O anoitecer radicava numa arte:
Num quadro pintado todos os dias,
Elogiado por gentes de toda a parte
Que até entoavam à escuridão melodias!

Aquele atalho de terra, percorria sempre
Quando rumava a casa para descansar
Depois dum turno de trabalho sem fraquejar!

Mas não estava sozinho na caminhada,
O Sol também procurava o seu repouso,
E ambos descíamos então este carreiro virtuoso.




Poema nº 51 - Conexões Ininteligíveis


Conexões Ininteligíveis 
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


No auge dos meus sonhos lúcidos,
Vejo-me numa mansão florestal
Que me gera uma pertença umbilical
Digna dos mais nostálgicos sentidos.

Um riacho floreado nas orlas
Ressoava um som bastante familiar,
Esquilos trepavam cada carvalho secular,
As aves esgueiravam pelas suas argolas.

Diante de mim, um vulto se abeirava 
Ela fruía duma cara oval esbranquiçada,
Cabelos louros aos caracóis: minha irmã ou amada?

Será que ela é real ou invenção irracional?
Existe, existiu ou intensamente alucinei?
Confuso, reduzo-me ao papel indouto de comum mortal.




Quadro da autoria de de Peder Mork 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Poema nº 50 - Concha Viajante


Concha Viajante
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Nas redondezas das rochas solitárias
Recolhi no areal uma concha mendiga
Arrastada pelas águas celibatárias 
Naquele vaivém ondular que não definha.

Côncava sob forma de orelha esculpida,
Esbranquiçada como uma pomba migrante,
Ela outrora já exercera o papel de navegante,
Explorando as aleatórias profundezas da vida.

Mas agora jazia dormente naquela costa erma
Junto às pegadas sombrias sem coerência
Que perfaziam o iniludível vazio da existência.

Peguei nela e depositei-a na estante do quarto,
Ladeada de outras conhecidas companheiras 
Naquele novo repouso após salgados desencontros.





Poema nº 49 - Arte Xávega e os Lobos do Mar


Arte Xávega e os Lobos do Mar
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Neste imenso areal sobranceado pelas aves,
Os lobos do mar recolhiam as redes
Onde estavam encurralados os peixes
Que não driblaram as fatais "paredes".

A embarcação sorria de modo triunfante 
Respirava um ar bucólico e tricolor
Contrastando com o putrefacto odor
Dos restos espalhados em estado dilacerante.

Até Poseidon confidenciava junto de Zeus 
A insondável bravura destes aventureiros
Que diante da morte e dum doloroso adeus
Pediam às ninfas gregas a glória de guerreiros!

Têmis invocará vaidosa a fibra destes heróis:
Sim, os campeões da abnegação e humildade
Cujas luzes interiores superam as dos faróis,
Antes da sua inadiável partida de eterna saudade.




Poema nº 48 - A Triste Sina de Matias - o Conde Vaidoso


A Triste Sina de Matias - o Conde Vaidoso 
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Lá vai o Matias das manias,
Todo perfumado e cheiroso
Entra no seu carro luxuoso
E deixa a vivenda das utopias.

Fuma com exótico estilo
Julga-se íman da sabedoria
Difunde a sua sublime categoria
Com um egocentrismo tranquilo. 

Um dia entrou num café,
Queixou-se do chá indigesto,
Da empregada de rosto funesto
E até da banalíssima ralé!

Exigia um tratamento especial:
Que à entrada lhe beijassem a mão
E lhe dedicassem uma elogiante canção
Porque era um conde primacial!

A manca Joaquina estava furiosa
E rematou com as seguintes palavras:
"Não beijo as mãos de vossa alteza,
Não vá contagiar a sua frustrante nobreza"

Logo se instaurou uma enorme altercação
E o conde Matias foi colocado num contentor,
Afirmando a pobre manca com total precisão:
"Nem o caixote de lixo merecia tal dissabor"!



Caricatura da autoria de Miguel Salazar