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Nesta página electrónica, encontrará poemas e textos de prosa (embora estes últimos em minoria) que visarão várias temáticas: o amor, a natureza, personalidades históricas, o estado social e político do país, a nostalgia, a tristeza, a ilusão, o bom humor...

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Poema nº 310 - O Baú Perdido



O Baú Perdido
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Um lago de emoções nos sentencia
Enguias depressivas dão às margens
Lampreias inertes cortejam a heresia
Das águas submetidas às clivagens.

Do exterior, resta a paisagem moribunda
Nas profundezas, a agitação é mandamento
De uma lua que já foi mãe, hoje vagabunda
Perdida num naufragante silenciamento.

Esfacelam-se as cores da esperança
Já não há ponte ou barco que nos valha
Aceitemos a separação como herança!

Poluímos os sonhos do nosso amanhã
Abandonamos o amor no fundo do lago 
Num baú de memórias sem talismã!





Poema nº 309 - O Crucifixo Falante


O Crucifixo Falante
(Poema-Crónica da autoria de Laurentino Piçarra)


Na urbe de Assis,
Os ventos ressoavam pelas ruelas,
Enquanto famílias se aqueciam
Nas suas modestas casas de pedra!
Ah! O martírio do bispo Rufino
Não fora em vão:
Assinalavam o seu legado
Catedrais e Igrejas
Cujos vitrais eram borboletas de fé
Que se projectavam muito além
Semeando os desígnios da Paixão
Pelos bosques e mares vizinhos!
Muitos anos se passaram,
O mundo continuava quezilento
Cultivando o tumulto e a violência
Como garantes de um inferno real
Que domava as civilizações!
Mas a esperança nunca morre
Mesmo quando a luz é engolida
Pela densa escuridão do mal!
"Nascia" então perto de Assis
Uma nova igreja
De pendor rústico
Consagrada a São Damião
Que fazia repousar no seu altar
Um ícone raro de estilo bizantino:
Um crucifixo pintado do Messias!
Dizem que o anjo milagreiro
Não escolhe os alvos ao acaso
E assim foi!
Quis o destino,
Algumas décadas mais tarde,
Numa tarde de chuva torrencial,
Abrigar naquele templo,
Já bastante degradado
E com sinais de ruína,
Um jovem certamente desorientado
Que procurava respostas
Para o seu sentido de vida!
A sua alma trovejava de incertezas,
Mesmo que o seu silêncio exterior
Disfarçasse a sua crise de identidade!
Nas páginas da sua memória recente,
Repousava a sua irreverência juvenil:
A sua elegância em banquetes e serenatas
Onde se havia perdido com os amigos
A contemplar as mais belas musas
Rendendo-se à diversão local!
Como recordações pesadas
Proliferavam na sua mente
Os episódios dos conflitos bélicos
Entre as comunas italianas
Nos quais fora participante!
Mas ali estava ele agora
Sozinho, e a rezar perante uma cruz
Pintada para um mundo sem cores
Que continuava a ignorar o seu significado!
Rapidamente, o jovem se comove
Depois da sua trovoada interior,
Segue-se a chuva torrencial
Que atinge o seu coração
E logo se apercebe de uma voz
De origem transcendental
Que provinha do crucifixo adorado;
Primeiro, "alguém" chama pelo seu nome
Três vezes consecutivas
Depois é revelada a mensagem:
"Vai e repara a minha Casa,
Como vês, ela está em ruínas".
Deste então, o tempo começa a mudar
Lá fora, os aguaceiros deixam-se de fazer sentir
As nuvens desaparecem do horizonte,
Um arco-íris se forma subitamente:
O homem que orava rejuvenesce agora,
Também o clima da sua alma
Acompanha a evolução exterior,
Tornando-se aquela mais quente e acolhedora!
É altura de abraçar a nova missão,
E com a ajuda de muitos crentes,
Reconstruir a igreja de São Damião,
Mas isso só por si não basta!
Aliás, o Céu exige-lhe algo maior:
A salvação da verdade cristã
E o fim do inferno terreno.
Não através da espada e do ódio,
Mas a partir da palavra do amor!
Ressuscitado pela fé,
O jovem abraçará os pobres,
Consolará os leprosos,
Cuidará dos animais,
Aceitará como bela e singular
Toda a criação de Deus!
Peregrinará pelas terras da morte*,
Procurando a conversão de multidões,
Mas tal como aquela igreja humilde
Que abriu o seu coração,
Descarta o poder e a sumptuosidade!
A pobreza material é o caminho
Para a verdadeira solidariedade,
E o crucifixo falante
Que muitos fingem não escutar
Só precisou de o chamar
Por três vezes:
Francisco, Francisco, Francisco!





Imagem nº 1 - São Francisco de Assis reza perante o crucifixo pintado da Igreja de São Damião.
Quadro da autoria do pintor florentino Giotto di Bondone (1267-1337) que remete para o milagre do crucifixo da Igreja de São Damião, momento que viria a ser decisivo na vida posterior de São Francisco.



*Terras que eram abaladas por conflitos sangrentos e ódios religiosos
** Poema dedicado a São Francisco de Assis (1182-1226)

Poema nº 308 - O sinal do teu rosto



O sinal do teu rosto
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


O teu sinal
É uma imperfeição divina
Que aprimora o teu rosto
Tal como os anéis
Que adornam Saturno!
Esse teu ponto sinistro
Que resiste à superfície facial
É um ornamento inusitado
Que em vez de subtrair a tua beleza
Acompanha-te em cada sorriso,
Libertando raios de alegria contagiante! 
Eu reconheço as minhas limitações:
"Namorar" a tua personalidade
Os teus detalhes físicos e morais, 
É um desafio colossal 
No qual sou um explorador 
Por demais inculto e insignificante,
Mas certamente grato
Por teres existido 
Por teres brindado os meus olhos
Com a tua prestigiante generosidade!
Ah e quanto ao teu sinal:
Nunca o removas,
Ele não é um buraco negro
Do teu Universo,
Mas antes um portal 
Para outra realidade paralela
Onde as leis físicas
Obedecem aos teus princípios 
De amor e justiça!
Agora percebes 
A razão de eu tanto querer
Beijar esse teu sinal?







* O verbo "Namorar" foi apenas aqui utilizado no sentido de "adorar conhecer/estudar" os pormenores físicos e éticos/morais de uma pessoa bastante especial.

Poema nº 307 - O Crente Renegado


O Crente Renegado
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Sinto que te perdi para sempre
Já não me encaras com ternura,
Excomungaste até o teu fiel crente 
Que viu em ti o fim da amargura!

A bíblia do teu coração é complexa
Os teus mandamentos são genuínos
Segui-te, mas eu fui a chuva perplexa
Que adormeceu em solos marroquinos!

Eu tornei-me no teu detestável herege:
Afirmaste a tua voz para me repreender
E a tua auréola briosa já não me protege!

E já te perguntaste - o que restará de mim?
Páginas rasgadas de uma alma ignorada
Um acto de contrição amoroso sem fim!





Poema nº 306 - Dia dos (Vivos) Defuntos


Dia dos (Vivos) Defuntos
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Que dia mais melancólico é este
Em que cemitérios
São inundados
Por torrentes de lágrimas
Que caem pelas cascatas humanas
Alimentadas pelos rios de saudade!
O passado já não volta,
A dor é angustiante,
Mas a verdade é só uma:
Os entes queridos pertencem ao Universo
E ao seu derradeiro segredo,
Mas em mim,
Confesso-vos
Que subsiste o maior dos cemitérios,
Silencioso e de pendor gótico.
Ali se encontram:
Mausoléus de amizades que se perderam,
Jazigos de gentes que deixei de ver
Sepulturas de ocasionais conhecidos,
Todos perecidos no trilho da memórias
Que me integram desde a infância!
Sinto-me ali um visitante plangitivo
Forçado pela existência
A aceitar a efemeridade de tudo,
Mesmo que muitos desses meus defuntos
Ainda respirem hoje de forma sã!
Mas nada será como dantes,
Tudo tende a desaparecer
Aos nossos olhos,
Até que nós sejamos os próximos
A sermos esquecidos!
E os outros
Como nos recordarão nos seus cemitérios?
Que lápides nos dedicarão?







Nota-Extra: Poema escrito a 2 de Novembro, Dia dos Fiéis Defuntos em Portugal.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Poema nº 305 - Decididamente não te amo



Decididamente não te amo
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Decididamente não te amo
Foste uma brisa ininteligível 
Uma intérprete do meu portulano
Fonte do meu coração insondável!

Mas o futuro será erguido sem nós,
Tu continuarás a ser mulher reinante;
E eu, do mundo dos sonhos, aspirante,
Verei a ilusão a desaguar na ínfima foz!

Já é tarde para te continuar a venerar,
O templo da esperança caiu na ruína
E tu já te sentes tentada em me ignorar!

Quando os nossos horizontes se traírem
A tua memória sepultará logo o meu ser
Já eu espero pelos portos que se erigirem!





Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://pngtree.com/freepng/ancient-port-city_3016447.html


Poema nº 304 - A Matemática do Poeta-Peregrino


A Matemática do Poeta-Peregrino
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


A poesia é a matemática da música!
Imbuída de uma essência infinita e milenar:
Adiciona sentimentos
Multiplica emoções
Subtrai a realidade exterior
Divide estados de alma,
E no fim de tudo,
Quando é bem sucedida
Encaixa o que há para encaixar!
Nem aludo sequer à métrica
Por vezes, opressora da inspiração!
Mas a rima é uma equação munífica
Em que duas palavras se abraçam
No final de diferentes versos
Para embelezar o resultado,
Com as suas derradeiras sílabas
A criar um som cruzado e majestoso!
Quando se começa um poema
Ninguém sabe como ele acaba
É uma operação matemática
Onde se quantifica todo o interior
Para procurar um resultado
Que só a cada um diz respeito!
Mas quando for eu a alcançar
A descoberta do significado musical
Da minha própria matemática íntima
Não me deixem ficar a cantar sozinho
Afinal, sejam letras ou números,
O Nirvana Intelectual é um "deus interior"
Que quando encontrado ocasionalmente
Na sua génese mais autêntica
Merece ser adorado em conjunto,
Até porque poucos o atingem,
Mesmo quando ele sempre existiu
Dentro de nós!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://tinybuddha.com/blog/life-is-shaping-us-through-our-dreams/

Poema nº 303 - Os cacos do meu "eu" fragmentado


Os cacos do meu "eu" fragmentado
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não me sei definir,
Talvez, nunca soube,
Sou analfabeto de mim mesmo!
Na verdade,
Não sei quem sou
Ou para onde devo ir,
Sou a hipérbole da incerteza,
A metáfora do medo
Que, sob a forma de nuvem,
Supervisiona o meu mundo!
Não consigo confiar
Porque tudo é transitório,
Os meus instintos são cegos
Apenas influenciados em vão
Por emoções contraditórias.
Interrogarem-me sobre isto
É o mesmo que extorquir dinheiro
A um pobre esfomeado,
Não é justo,
Não é moralmente conclusivo
Porque navego numa filosofia
Que não me simplifica
Apenas faz adiar o meu eu:
Sobram-me os cacos de vidro
Subtraídos pela minha alma,
À espera que consiga um dia
Colá-los e unir-me finalmente,
Num só e indivisível eu,
E aí sim,
Me tornarei sábio,
Porque dominarei a ciência
Mais nevrálgica:
Aquela que me personifica.




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://vivaascoisasdoamor.blogspot.com

Poema nº 302 - Eu só te minto


Eu só te minto
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Eu só te minto
Porque sou o teu nevoeiro,
As minhas palavras
São meras folhas caducas
Órfãs de um Novembro deprimido,
Que se perdem na estrada do infinito!

Eu só te minto
Porque sei que pintas arcos-íris
Depois das tempestades
Milagre que é da tua exclusividade,
Porém eu sou a neblina que atrapalha
E oculta os abismos manhosos.

Eu só te minto
Porque queria ser como tu,
Mas tudo em mim é agreste
E nada floresce para a eternidade,
Mas da tua inocência
Avisto os paraísos da Mãe Natureza!

Eu só te minto
Porque nunca haverá nada
Que nos una no amanhã,
O nosso romance foi promissor
Mas não derrubou muralhas,
Ficou-se só pelas palavras vencidas!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://imagens-de-fundo.blogspot.com/

Poema nº 301 - Lisa Gherardini, a mulher da arte


Lisa Gherardini, a mulher da arte
(Poema humorístico da autoria de Laurentino Piçarra)


Deixem que eu vos diga
A Mona Lisa é cá um fenómeno:
O seu rosto sereno
É um convite à inteligência feminina
Mesmo que a tentem ridicularizar!
Ela é fotogénica de todas as formas
De tranças ou de piercings
Com trajes universitários
Ou de pedinte,
É ela que chama a atenção!
No seu retrato
Infinitamente abastardado
Por alguns batoteiros do design,
Ela vulgariza a concorrência.
Por isso, usam e abusam
Da sua imagem,
Mas ela é a mulher
Mais procurada nas artes,
Imaginem se ela fosse viva:
Não precisava de trabalhar mais!
Daria palestras sobre o seu sucesso,
Avisaria os cidadãos
Para os crimes irreflectidos
Contra os direitos de imagem!
Aliás, e eu diria para mim mesmo
Desde o fundo da sua extensa plateia:
Aquela mulher tem razão!
Quantos não terão lucrado
Com o seu retrato
Em anúncios?
Processa-os Mona!
Mas infelizmente estás mesmo lisa,
Porque estás morta!
Muitos se aproveitaram de ti!
Se a ciência fizesse um milagre
E te pudesse agora ressuscitar
Ainda hoje eras milionária
E despertarias a inveja acérrima
Das almas quezilentas
Do mundo dos egocêntricos!
Ah! Leonardo, ainda não é desta
Que deixam descansar a mulher em paz!
Na tua pintura,
Deverias tê-la atirado ao rio
Que está por detrás do retrato,
De forma apenas figurada,
E assim ninguém a perseguiria mais
Durante a vida real!
Assim os críticos só enfeitariam
A paisagem até então harmoniosa
Com os seus rostos atrofiados
Obtidos através de selfies adulteradas!




Retrato de Mona Lisa (Lisa Gherardini)
Quadro da autoria de Leonardo Da Vinci, artista renascentista (1452-1519)

Poema nº 300 - Quadro Mágico


Quadro Mágico
(Poema da autoria de Laurentino Piçarra)


Descobri-me
Na melancolia
Aderindo ao luto
Do meu mundo íntimo!
Nunca te poderia almejar
Porque estás no círculo
Do poder,
Mas amo-te
Pela tua grandeza interior,
Pela generosidade
Pelo teu espírito de justiça,
Mesmo que eu te pareça
Um bipolar incompreendido
Em tantos episódios
Nos quais fomos protagonistas
E onde eu fui cavalheiro e vilão!
Sei que estás no topo
Pelos teus abundantes méritos
Mas eu não quero ser rei,
Nem ascendente a nobre,
Não te posso desejar!
O poder deturparia
Tudo o que sou e penso!
Mas a ti te confidencio
Desde o meu retiro póstumo:
Apenas quis guardar o teu rosto
Na memória das próximas décadas,
Será esse quadro mágico
Que irei contemplar
Até alguém me oferecer outro
E fazer de mim,
Um verdadeiro apreciador
De pinturas femininas!
Até lá,
O meu Universo
É uma junção de estrelas
Que numa simbiose invulgar
Forma o teu nome
Alumiando os meus sonhos
A cada noite!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://rumoahollywood.blogspot.com/
Pintura da autoria de Dimitra Milan

Poema nº 299 - Símbolo da resistência


Símbolo da resistência
(Quadras da autoria de Laurentino Piçarra)


Revolta-me a vassalagem cega
Onde cavaleiros sem misericórdia
Buscam a vil confiança na refrega
Imposta contra os fracos sem história.

Necrófagos de promessas sedutoras
Discípulos de reis sem escrúpulos
Oradores das suas leis opressoras
Saqueadores de sonhos múltiplos

Banqueiros de tentações vis!
O tempo mantém-nos bem vivos
Sempre com inúmeros perfis!
Quem defenderá os mendigos?

Uvas, deliciem-nas diante do nevoeiro
E munam-se de arcos na alvorada
Soltem as flechas contra o guerreiro
Que aclama a exploração desnaturada!

Sejam fiéis à fórmula da igualdade:
Não se juntem aos eternos poderosos 
Porque não é dos fortes a humildade
Nem tampouco os sacrifícios virtuosos!

*Poema com código que alude a um herói lendário



Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://paulsampaio.com/2013/02/20/o-arqueiro-e-a-flecha/

Poema nº 298 - Sopa de Letras



Sopa de Letras
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Procuro em ti a palavra
Que me falta no dicionário
O verbo que me exonerava
Deste sofrimento primário!

Convoco a arte do alfabeto
O teu rosto, tábua imemorial:
Perdição de um escriba discreto
Tentado em evocar a fórmula lirial.

Sabes que juntei letras erradas
Omiti os caminhos da realização
Recriei-me de frases frustradas!

Agora sei que deslindei o enigma
Ingressei na tua órbita romântica
As letras do teu nome gravei-as aqui!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: http://mama-clo.blogspot.com/2011/11/sopa-de-letras.html


* Poema com código que revela o nome da destinatária deste meu poema apaixonado

Poema nº 297 - Querida, chove tanto!



Querida, chove tanto!
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Querida, vê como chove tanto:
O teu cabelo são gotas de arte
Que silenciam o meu pranto
Na dor que me é baluarte!

O salpicar húmido do teu rosto,
Refresca a mente adormecida
Os olhos de um príncipe deposto
Que viu em ti a derradeira guarida! 

E os teus aguaceiros torrenciais
Percorrem os nossos corpos nus
Decifrando equações ancestrais!

E continua a chover intensamente
Talvez lá fora, seja imprudente abraçar
O mundo que, cá dentro, nos faz amar!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.youtube.com/watch?v=aWTlnTsXguI

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Poema nº 296 - Marés de Outono


Marés de Outono
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Folhas caídas, nevoeiro sentido,
Barcos que voltam e desaparecem
Nas marés de um oceano aturdido
Memórias fúteis que prevalecem!

O vento abafa os gritos de revolta
E a alma não logra ser marinheira
Porque é mera guardiã sem escolta
Vítima de uma vaga de cegueira. 

Muito do que sentira será apagado
Mandamento gélido dos nossos tempos
Borrifadores de um mundo pesado!

E as folhas voam e caem sobre o mar
Até se afogarem com os pensamentos
Construindo urbes submersas sem lar!




Imagem retirada de: radioconstanta.ro

Nota-extra: "Muito do que sentira será apagado" (claro que estou aqui a referir-me à alma humana).

Poema nº 295 - O teu coração de ouro


O teu coração de ouro
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


O teu coração de ouro
É o Santo Graal
Que eu deveria almejar
Desde há muito!
Mas cego pelas aparências
Subestimei-te,
Procurei nos sítios errados
Perdi-me por entre pessoas
Que nada me queriam!
No esconderijo do teu peito,
Humilde e acolhedor,
Eu poderia ter sido feliz,
Mas nada disto acontecerá:
O futuro irá desviar-nos
Muito em breve,
E nunca mais nos veremos!
E daqui a umas décadas,
Nem nos lembraremos
Um do outro.
Mas até lá faz-me um favor
Nunca deixes de ser quem és!





Poema nº 294 - A luz da tua cruz


A luz da tua cruz
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


A luz dessa cruz inspiradora
Não é mais do que o teu sorriso
Reflectido pela superfície aveludada
Que cobre o teu rosto abençoado,
Os desígnios do teu espírito imaculado!
Perguntei aos céus
Sobre o mistério da tua relíquia
Não obtive resposta.
Consultei anciãos
Que me julgaram insano
Por descrever o paraíso impossível.
Perdi-me até pelos bosques
Mas nem os rios eram tão cristalinos
Como as cascatas que jorravam
Pela tua alma
Pela tua boca
Em forma de palavra!
Não sei de que és feita
Não te sei explicar
Tudo em ti floresce
Nada sucumbe,
A tua cruz faz renascer
O amor das cinzas.





Imagem meramente exemplificativa retirada de: http://platinorum.com/2018/02/11/o-plano-astral-parte-1/

Poema nº 293 - Génese do Abstracto



Génese do Abstracto
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Mitigam-se os clamores jubilares
Sonos profundos do horizonte
Azulejos de sensações milenares
Déjà-vus dum passado sem ponte.

Filósofos da eterna irracionalidade
Místicos da imprevisível intuição
Humanos, que cedem à reciprocidade
Duma mente sem fonte de criação!

Encontrar a saída do labirinto pensante
Anterior às fundações artificiais da lógica
É o desafio de qualquer cientista errante.

Deixemos antes o mistério habitar em nós,
Afinal, o nosso interior é mais universal
Do que a verdade absoluta dos sábios!




 Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://conceptodefinicion.de/pintura-abstracta/

Poema nº 292 - O "Portal Submerso"


O "Portal Submerso"
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Quanto mais me aproximo
Do oásis libertador
Mais se torna penosa a caminhada.
Todavia, sei que estou perto,
E nem a burocracia do tempo
Nem os escorpiões camuflados
Pelas areias escaldantes e movediças
Deste deserto cabuloso
Me farão demover do destino. 
Sinto que estou a acercar-me de algo,
Não sei do quê,
De um novo capítulo,
Talvez.
Não sou ingrato 
Aos que me cederam camelos
E cantis de água
Para esta longa passagem,
Porque precisei dela
Para amadurecer a minha existência!
Mas está a chegar o momento
Em que deixarei de ser peregrino
Então perdido pelas Arábias
Ou desconsiderado pelos emires,
Para me tornar num Marco Polo
Ou num Ibn Battuta.
Quero ser um viajante sábio
Mover-me de região para região
Sem que haja tempo suficiente
Para que se construam ódios
Contra o meu ser.
Mas daqui até lá,
O sacrifício exige ao corpo
Que supere toda a adversidade
E miragens sedutoras
Para cumprir a missão da alma,
A de mergulhar no oásis
Portal submerso 
Enamorado de um novo mundo
Idílico, e saciante dos injustiçados.




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://quebrandocadeiasdomedo.blogspot.com/

Poema nº 291 - Que queres que te diga?


Que queres que te diga?
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Que queres que te diga
Meu rouxinol
Cujo canto é tão exuberante
Quanto ao voar dos teus sonhos?!
Desculpa-me a acidez
Da minha arcaica indiferença
De quando te vi
Pelas primeiras vezes,
Mas pouco tempo depois,
Redescobri-te,
Desmenti-me a mim mesmo:
Tinhas um sorriso de ouro,
Um coração do tamanho
De um mundo que sempre sonhei
E que hoje não logro habitá-lo
Por mera ignorância!
Estava a anos-luz do teu voar,
Cantavas as melodias mais suaves
Que percorriam as aldeias
Dos vales pitorescos,
Sem que eu lá estivesse,
Um dia,
Com um jasmim na mão
E com os hieróglifos de Nezahualcóyotl ,
Para me libertar das teias
Da nefasta timidez
E agradecer-te em verso
A tua generosidade inigualável
Específica da tua natureza singela,
Rematando o último sopro do soneto
Com um beijo perfumado,
A ponte para a tua alma,
Para o mundo paradisíaco
Que até hoje me foi negado!





Foto meramente exemplificativa 
Autoria de José Manuel Gouveia in Olhares. Sapo. (Vale da Ribeira Brava)

terça-feira, 17 de julho de 2018

Poema nº 290 - Livro sem argumento


Livro sem argumento
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


No amor, não há plano b:
Se eu não te quis,
É porque merecias mais,
Se tu não me quiseste
É porque encontraste melhor!
Não há tempo
Para voltar atrás,
Não há arrependimento possível
Porque a frieza do destino
Não se compadece das palavras
Nem dos sentimentos!
Tu viraste a página,
Eu também,
Não tenhas vãs esperanças:
O nosso momento
Foi apenas o prefácio
De um pequeno livro,
Sem grande argumento,
Porque enquanto um escrevia,
O outro deambulava pela biblioteca,
Desinteressado.




Poema nº 289 - Filósofo Autóctone


Filósofo Autóctone
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Não sou bem um místico,
Pelo menos,
Daqueles puros
Domados pelo fogo
Que invisivelmente emerge
Do bastião da alma!
Não sou também um teólogo
Porque não domino as Escrituras,
Nem sou especialista
Das coisas espirituais!
Sou antes um filósofo
De introspecção fria e neutra,
Liberto do rigor das ciências
Distanciado dos dogmas religiosos!
Assumo as minhas limitações:
Também procuro respostas,
Mas não estou perto
Da Verdade,
Nem sei se quero,
Vivo da caridade do destino,
Pelo menos ainda,
E nada quero antecipar,
Muito menos,
A lápide do silêncio eterno
Que me está reservada!
Mas não olhemos mais em redor:
Nesta etapa,
Temos de ser os Messias
De nós mesmos e dos outros!
O amor é a chave da felicidade
De todo o progresso social
E até ele tem de ser estimado!
Deixem-me agora retornar
Por uns instantes
À minha Amazónia imaginária,
Ali consigo encontrar a paz
Incutida pelas árvores,
E junto a elas,
Num recanto anárquico,
Imbuído de alguma espontaneidade
Encontro a fonte da sabedoria,
Esculpida, não de ouro,
Mas da mais modesta madeira,
Censurada pela civilização moderna
Em estado de ruído e negação.





sexta-feira, 13 de julho de 2018

Poema nº 288 - A Azaleia Mágica


A Azaleia Mágica
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Nunca pensei visionar 
Uma azaleia alaranjada
Perto do areal
Donde me encontro!
Quantas sardas,
Perdão, pétalas
Envoltarão o seu sorriso?
Nem o mar, nem o vento
Apoquentam a sua ternura,
Nem desvirtuam a inocência
Com que ela brinda 
Os comuns mortais!
A sua voz,
E finjo não estar louco,
É como um búzio
Que me faz mergulhar
Num oásis de águas vítreas:
Latíbulo idílico das emoções
A léguas do deserto mundano!
Ah! Mas sou um mero sonhador,
Um dos muitos observadores
Que nada percebe de azaleias!
Como invejo os botânicos
Ou jardineiros
Que cuidam destas obras,
Exclusivas e Impreteríveis,
Da mãe Natureza.





Poema nº 287 - A Casa do Passado


A Casa do Passado
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Como rangem as portas rústicas
Do consulado da olvidada saudade,
Resistindo às modernices acústicas
Sopradas por um vento sem piedade!

Feita em madeira, e do além genuíno,
A casa do passado é o sincero refúgio
De quem procura em si mesmo o divino
O ensejo de um hodierno transfúgio. 

Nesse abrigo, somos deuses da vida,
Fazemos reviver tudo o que já pereceu,
Sem artificialismo ou crença exigida!

O passado é um edifício incorruptível,
Menosprezado pelos falsos moralistas,
Ameaçado por um futuro cruel e punível!




Imagem meramente exemplificativa retirada algures do Google


Nota-extra: No penúltimo verso, aludimo-nos aos falsos moralistas do presente que, muitas vezes, ignoram o passado que pode afinal ensinar-nos muita coisa.

Poema nº 286 - Sonhos de Mel


Sonhos de Mel
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Que sonho é este
Diluído pelos teus seios
Montanhas da minha perdição?
Não deveria o filme da inconsciência
Projectar antes o teu rosto
Terra firme
Estágio inicial de uma escalada?
Como ousei voar até ao cume
Das tuas cascatas
Sem consolidar méritos
Que justificassem tal privilégio?
É apenas um sonho.
Ou melhor, uma mentira
Que se fazendo sentir realista
Durante a profundeza nocturnal
É desfeita
A cada raiar do Sol,
Pelos rios de formosura
Que provêm do teu habitat
Interdito aos desejos
Do comum ser carnal.
E nisto,
Devo ser dos poucos
Que idolatro a lua,
A mãe dos meus sonhos
A fonte fictícia do teu mel!






Poema nº 285 - Mundos Separados


Mundos Separados
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei em que mundo acordaste
Mas não foi no meu,
Porque o céu está nublado
E assim não descortino o teu sol
Que irradia uma luz fulgurante
Iluminadora de planeta longínquos
Salvadora de almas desviantes.
E eu, mero sonhador imperfeito,
Queria ser o astronauta do amor,
Voar até ao firmamento
Onde fazes repousar a tua elegância,
O teu brio contagiante!
Do meu olhar, soltam-se cometas
Remetidos à tua galáxia,
Na esperança de um encontro
Que nos una para sempre!
Porque se tu és a estrela maior,
Eu serei o teu admirador secreto,
A carta que nunca leste,
O telefone que nunca tocou,
Porque tudo o que senti
Foi apenas um raio vulgar
De entre muitos
Do teu oceano luminoso romântico!





Poema nº 284 - Terapia da Resignação


Terapia da Resignação
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não há dor
Que se compadeça da alma
Nem cura médica
Para o vazio avolumado
Que frustra o horizonte
De quem se enviuvou da sorte!
Não me inspiro
Nos que cedem às vassalagens
Ou às pressões cegas,
O meu "eu" não está à venda
Não quero agradar a ninguém,
Apenas a mim mesmo,
Porque se tudo me é hostil,
Ao menos, ainda me sobra algo
Que sonho conquistar
Por entre as dunas deste deserto:
A paz do meu espírito
A pirâmide da resignação!
Oh! A ti te confidencio
Tamareira solitária:
Que seja eu mestre do meu ser
E chegarei às nuvens,
Mesmo que a poeira
Adense em redor
Da minha existência material!





Poema nº 283 - As Cores da Existência


As Cores da Existência
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei quem considerou
Que o branco e o preto
Eram as cores mais vulgares
Desprovidas de chama apelativa,
Mas repudie-se tal dislate!
O branco e o preto são omnipresentes
Mesmo mantendo a sua simplicidade:
Não se gostam de maquilhar
Para agradar à sociedade hipócrita,
Não estão ali para fintar a realidade,
Mas para a exibir nua e crua,
E mesmo assim são as cores da moda
Que nos acompanham na existência!
Quantos não nasceram a ver uma luz branca?
Quantos não morrerão mirando a escuridão?
Não há cá lugar para meios-termos
Nem momentos para o acaso,
Ou é ou não é,
Sem fingimentos,
Sem ardis ornamentais,
Aceitando a frontalidade do porvir!





Imagem retirada do Google

Poema nº 282 - Estrelas Mudas


Estrelas Mudas
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Voltaremos ao nada
E a minha crença na descrença
É corroborada pelo silêncio da lua
Ou pela aragem fria das serras.
Viver é um privilégio
Até quando se tornar num fardo,
Altura em que a ilusão é desfeita.
Planos para amanhã?
Não se deixem seduzir pela ambição
A não ser que pretendam um jazigo
Um mausoléu perpétuo
Para abrigar o pó da tempestade.
Não vivam obcecados com o fim
Que é certo e irreversível:
Até lá assistam ao nascer do Sol
Ele será assim por milhões de anos,
Só ele tem futuro,
E nem assim será eterno
Porque um dia o Universo
Lhe fará o próprio caixão.
E depois o que contarão dele?
E de todos nós?
Que as estrelas eram afinal mudas?!






Poema nº 281 - Da Saga dos Líderes Mercenários


Da Saga dos Líderes Mercenários
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não percebo
Os que sobem na vida
Escudados pela vassalagem
Aos senhores do poder
E absorvidos pela mesquinhez do mal-dizer
Nesse incriminar dos ainda seus companheiros
Reduzidos já a criaturas inferiores
Diante dos seus narizes pontiagudos.
Mas que líderes são estes?
Autênticos Neros que só se contemplam
Diante dos espelhos da ilusão
Bebendo do cálice narcisista
Que os embriagará de vaidade
Enquanto soa uma música aborrecida
De um antigo piano
Talvez perdido num quarto
Repleto de teias sem glória
Que cobrem as paredes obsoletas
Dos labirintos fúteis que são as suas vidas.
Até os gatos arrepiam caminho
Quando surgem estes alpinistas sociais,
Fantasmas do mérito,
Almirantes do tráfico da incompetência
Vendedores ambulantes da prepotência,
Mas na verdade,
Apenas são temidos pelo veneno
Pela sua estratégia cinica e calculista,
No entanto, não nos preocupemos
Com eles.
Na verdade, são pó
À primeira batalha, desertarão
E voltarão ao estado condizente.
Preocupemo-nos sim com aqueles
Que são carne para canhão
E cujas vidas
Podem ser destroçadas
Pelos generais que os abandonam
No meio de uma batalha sem fim
Como é a da própria vida.
Porque se os falsos líderes
Resguardados na retaguarda
Fogem pela sombra que lhes é aliada.
Menos sorte têm os seus guerreiros,
Fácil alvo da ira na frente de batalha,
Decapitados pelos erros dos anteriores,
E que atraiçoados foram,
Mesmo oferecendo todo o seu melhor,
Por quem não soube comandá-los
Nem tampouco motivá-los.





Imagem retirada algures do Google 

Poema nº 280 - O Advento das Cores


O Advento das Cores
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Desvanecem-se as sombras 
Desse passado rude e opressor
Que caminhava sob as alfombras
Tingidas apenas por uma só cor!

Foi naquele dia que tudo mudou
A negridão acabaria suprimida
E um novo arco-íris se perfilou
Para apadrinhar a fé renascida!

E nem os corvos ousaram evitar
A vontade de um povo esfomeado
Que os cravos de Abril quis abraçar!

Acabaram-se as mentiras silenciosas
Todo o sangue derramado em vão,
E voltámos a sonhar no berço das rosas!




Fotografia da autoria de Francisco Fernandes

Poema nº 279 - O Império Laboral Absolutista


O Império Laboral Absolutista
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei em que dia
O poder e a arrogância,
Dois generais ambiciosos,
Uniram as mãos
E marcharam juntos
Para oprimir os ingénuos
Que se achavam alojados
Nos arrabaldes da humildade.
Não o fizeram por acaso,
Tornaram-se narcisistas
Reprimiram a auto-estima
Dos que laboravam em paz,
E cobraram impostos,
Seja em forma de dinheiro,
Ou através de chicotes verbalizados!
Nesse Império Laboral,
Muitos obtiveram o reconhecimento
Após imensos sacrifícios
E com uma vassalagem inexcedível
À corte do poder
Renegando mesmo a verdade
Quando esta era incómoda.

Muitos subiram na hierarquia
Sabendo que já foram da plebe,
Esquecendo-se que saldaram tributos
E dos altos,
Para lá chegarem!
Mas quando o poder
Que tanto censuravam
Os convida para um banquete
Recheado de bolos e oportunidades
Lá vão eles,
Todos entusiasmados
E prontos a rebaixar a plebe,
As suas origens!
Querem ser diferentes,
A elite do poder força-os a tal:
Têm de vestir o manto caprichoso
Que a Arrogância utiliza diariamente!
É tudo um pacto de absolutismo laboral,
Alheio a qualquer foco de dor
Dos mais vulneráveis
E dirigido apenas para o capital,
O dinheiro,
Esse vil metal que é pai empenhado
Tanto do Poder como da Arrogância!




Imagem meramente exemplificativa retirada de: https://www.cartacapital.com.br/revista/960/o-poder-causa-dano-cerebral

Poema nº 278 - A Ninfomaníaca


A Ninfomaníaca
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Acometida por anseios selvagens,
Deixa-se saquear pelo inconsciente,
Cedendo às escaldantes miragens
Dum mundo que lhe é insuficiente!

É um vulcão em erupção permanente,
Não vê corações, apenas instrumentos
Que lhe saciem a infinita sede jazente
Por entre o abismo dos pensamentos!

Não há chuva que refreie a sua doença 
Nem amigas que lhe corrijam o caminho,
Sobram apenas montes de indiferença!

E se o seu corpo é um terreno árido
Para os beduínos dos almejos carnais,
O seu coração é um deserto impróvido!






Nota-Extra: Quando utilizamos o termo "sede", referimo-nos, neste contexto em concreto, à "sede de fogo" visto que se trata de um vulcão sentimental em erupção.

Poema nº 277 - Quod Sumus, Hoc Eritis


"Quod Sumus, Hoc Eritis"
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


Não sei o que devo ao mundo,
Mas sei que me juntarei
A todos os outros
Que me precederam
Nesta jornada pelo incógnito.
Um dia serei passado
Deixarei de ser corpo
E só aí saberei a verdade
Do que nos estará reservado
Ou não!
Não temo o amanhã sem vida
Não renego sequer a Deus
Mesmo que não exista um plano,
Só sei que devo ser o que sou
Nestes fôlegos frenéticos da existência!
Apenas não quero estar morto
Antes da minha hora,
Como muitos estão:
Movidos pelo ódio
Distraídos pela indiferença
Absorvidos pela hipocrisia!
Na confusão da realidade
Que se ilude a si mesma
Quero ser uma partitura harmoniosa
Cujo som valeu a pena escutar
Nem que por instantes,
Antes de se extinguir
Por entre as constelações,
Fiéis depositárias da nossa memória,
Búzios guardiões da nossa melodia,
E verdadeiras testemunhas
Do que somos
E daquilo que seremos!





Gravura presente no Filme "Kingdom of Heaven".

sexta-feira, 16 de março de 2018

Poema nº 276 - O Berço da Crença


O Berço da Crença
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra) 


Todos podem ascender
Ao cume do conhecimento,
Escalar penhascos de ignorância,
Mesmo que se sintam amarrados
Pela doença, pelo medo!
Eu sou do tempo
Em que testemunhei um milagre:
Um homem destinado a morrer cedo
Contornou todas as expectativas,
Ludibriou o Anjo da Morte
Que só o encontrou meio século depois,
E só a sua vontade bastou
Para que alcançasse o Cosmos!
Não precisou de uma nave espacial
Nem sequer de uma fortuna colossal!
O seu rosto sugado pela deformação
Metaforizava as limitações seculares,
Mas a sua mente era um museu
Digno de ser visitado por um Einstein,
E ele, que nem se achava profeta,
Abria todos os dias as suas portas
Guiava os visitantes até às verdades
Ocultadas pelo tempo,
Mesmo que a sua cadeira de rodas
Tentasse desautorizar o seu génio!
Mas um dia, teve de partir,
O seu museu perderia o seu guia,
Mas ganharia milhares de seguidores
Para uma nova moral corajosa
Em que desistir não é opção
Porque é no berço da crença
Que a mente ganha asas
E nos leva até aos confins do Universo!



Dedicado a Stephen Hawking
Físico e Cosmólogo Britânico (1942-2018)





Paul E. Alers/NASA via Getty Images



Nota Adicional para uma melhor compreensão do poema: Aos 21 anos, foi-lhe diagnosticada uma esclerose lateral amiotrófica. Deram-lhe apenas três anos de vida. Mas viveu muito mais do que isso, viveu mais de cinquenta anos ainda, visto que acabaria por falecer com 76 anos, no dia 14 de Março de 2018, isto é, no exacto dia e mês em que Einstein nascera em 1879.

Poema nº 275 - Sonho ao som das ondas



Sonho ao som das ondas
(Soneto da autoria de Laurentino Piçarra)


Sonho ao som das ondas
Procuro ser quem não sou
Aquele príncipe que tu sondas
Um búzio que a areia camuflou!

Desenho o teu rosto imperecível
Para reconfortar o céu brumoso 
Que partilha da lágrima iniludível
Gota do mar, teu lar majestoso!

Eras a ninfa do meu aconchego,
A fortaleza das minhas emoções
O sol com a doçura de pêssego!

Mas naquela noite adoeceste
Para naufragar nas memórias,
Ilusões de uma manhã agreste!





Poema nº 274 - Falei com uma árvore centenária


Falei com uma árvore centenária
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)

Falei com uma árvore centenária
Dispersa pela região
Perguntei-lhe pelo segredo da sua resiliência
E ao primeiro sopro de vento
Ela prontamente reagiu
Erguendo os seus ramos para o céu
Donde caía a chuva refrescante
E donde surtiam as rimas do sol vibrante!
A sua essência emanava da Natureza
E esta sua postura recatada e modesta
Contrastava com as "florestas humanas",
Onde muitos se atropelavam
Só para ascenderem ao topo,
Ignorando princípios e origens!
Mas aquela oliveira centenária
Não alcançaria o seu digno estatuto
À custa das desgraças dos outros!
Contou-me ela que as suas irmãs
Frutificaram e também viveram anos afins,
Longe das invejas, da mesquinhez putrefacta!
As suas azeitonas ainda apetecíveis
Eram reflexo da sua longevidade saudável
Do seu exemplo de transparência!
Quer fizesse bom ou mau tempo,
A rainha das árvores da minha terra
Apresentava-se no recanto da humildade,
Sem poder ou arrogância,
E não precisava sequer de mandar,
A sua simplicidade bastava
Para captar a admiração e o respeito
De todos que a ansiavam preservar,
Obedecendo estes a todos os cuidados
Que esta exigiria,
Aguardando em troca
O salário em forma de fruto.





Poema nº 273 - À tua procura


À tua procura
(Poema livre da autoria de Laurentino Piçarra)


À tua procura
Já percorri o mundo!
Qual Marco Polo apaixonado
Devassei as muralhas da China,
Subi ao cume de Machu Pichu,
E até trilhei o Saara,
Mas tu não estavas lá.
Tentei de novo:
Fui até às Coreias,
À exótica Amazónia
E até às Cataratas do Niágara,
Mas tu não estavas lá.
Consultei adivinhos e anciãos
E todos me disseram
Que estava perto da tua descoberta:
Segui os seus conselhos
Fui até ao fundo dos mares
Mas tu não estavas lá!
E eu, peregrino da tua estrela,
Comecei a tombar no desânimo,
Deixei-me hipnotizar
Pelo vazio da tua ausência,
Pior do que isso,
Habituei-me a não te procurar:
Enclausurei a minha vida
Reencarnei num monge resignado
Que se prostrava diante de estátuas ocas!
E a minha sagrada escritura,
Que eras tu,
Sumiu-se por entre os sonhos:
Rochas de tentações inertes
Sepultadas num ilhéu agonizado.